O novo pacote econômico de Obama

Como prometido, nessa semana Barack Obama prometeu lançar mais um pacote de estímulo à economia americana. Coisa de US$ 450 bi, quando se sussurava algo mais modesto, de US$ 300 bi. Um aumento, portanto, de 50% sobre o valor inicialmente estimado.

US$ 300 bi ou US$ 450 bi, não importa. O pacote poderia ser de US$ 1 trilhão, e ainda assim não resolveria o problema. O buraco é muito mais embaixo. A questão gira em torno do esgotamento de um modelo de crescimento econômico irreal, baseado unicamente no crédito.

Como o Paul Krugman já cansou de explicar, os pacotes econômicos propostos pelo governo americano passam por duas linhas: a primeira, reduzir alguma coisa de impostos; a segunda, resgatar títulos do governo americano – o que significa emitir moeda para poder resgatá-los. Isso já foi tentado antes, por duas vezes, e os resultados foram pífios. Por quê?

Quando o governo diminui impostos e aumenta o dinheiro em circulação, a intenção evidente é aumentar a quantidade de dinheiro em circulação e, conseqüentemente, aumentar o nível de atividade econômica. Ocorre que o problema da economia americana não é de falta de dinheiro em circulação. Pra explicar melhor, é preciso explicar a origem da situação atual:

Você é um cidadão americano. Ganha um salário mensal de US$ 2.000,00 e tem uma casinha simples, modesta, que vale em torno de US$ 100.000,00. Vem um banco e lhe oferece um empréstimo de US$ 100.000,00, funcionando a casa como garantia da dívida (hipoteca). Essa dívida será paga em suaves prestações mensais de US$ 500,00 por mês. Pode parecer pouco, mas 1/4 de sua renda mensal foi pro espaço por, no mínimo, 20 anos.

Os US$ 100.000,00 que você ganhou gastou tudo em consumo: carros, roupas, viagens, comida, etc. Moveram a economia, que cresceu. Por conta disso, mais gente teve dinheiro pra comprar imóveis. Mais gente querendo comprar, o preço das casas sobe. Sua casinha de US$ 100.000,00, agora, passa a valer US$ 200.000,00.

Como seu salário não aumentou, você agora ganha US$ 1.500,00 por mês (US$ 2.000,00 – US$ 500,00 do empréstimo). Apertado para pagar as contas, que não diminuíram com o passar do tempo, você vai em busca de um novo empréstimo. Vai a outro banco e pede mais US$ 100.000,00, oferecendo sua casinha, que agora vale US$ 200.000,00. É a chamada segunda hipoteca (Sim, eles fazem isso). Agora, você terá comprometido metade da sua renda só para pagar dois empréstimos (2x US$ 500,00). Na prática, passou a ganhar só US$ 1.000,00 por mês.

Novamente, você gasta o dinheiro todo, que gira a roda da economia.

O problema só aparece quando surge uma crise. Aí, o sujeito perde o emprego de US$ 2.000,00, consegue outro onde ganha US$ 1.000,00. Aí a figura tem que escolher: ou come, ou paga os dois empréstimos. Escolhendo a vida, os bancos ficam com o mico na mão. Para pagá-la, tomam a casa do sujeito. Só que, quando querem vendê-la, o preço já não é mais de US$ 200.000,00, mas de US$ 50.000,00. O primeiro banco arrosta um prejuízo de US$ 50.000,00, e outro toma o calote por completo dos US$ 100.000,00.

Quando se multiplica esse caso por alguns milhares, não é difícil perceber porque os bancos quebraram e tiveram prejuízos de bilhões de dólares. Para salvá-los, o governo americano emitiu moeda e comprou as ações dos bancos. Na prática, deu dinheiro pra eles, mesmo. Esperava-se, com isso, que eles voltassem a funcionar normalmente e emprestassem dinheiro para as pessoas.

Ledo engano.

Ressabiados, preferiram pegar o dinheiro dado de graça e aplicarem em títulos do governo, seja o americano, seja o brasileiro, que paga mais. Não por acaso, todos os bancos socorridos em 2008 apresentaram balanços fabulosos nos anos seguintes. Como política de estímulo, portanto, dar dinheiro aos bancos não adiantou nada.

Pra piorar, o sujeito que teve seus impostos reduzidos também não aplicou o dinheiro excedente em consumo. Preferiu gastá-lo em quitação de dívidas, para afrouxar um pouco a corda a rodear seu pescoço. Mais uma vez, a medida tomada pelo governo americano para estimular a economia resultou em nada.

A solução, como Roubini e Krugman já apontaram, passa pela reestruturação das dívidas (leia-se: calote parcial). Tanto dos cidadãos como dos governos super-endividados. Uma dívida de 100 seria reduzida, por exemplo, para 40. Somente assim tanto o governo como as pessoas poderiam reorganizar suas contas e ordenar seus pagamentos, readquirindo fôlego para voltar a consumir e girar a roda da economia.

Essa solução, no entanto, esbarra nas urticárias que o tal do “mercado” tem ao ouvir essa história. Significa arrostar prejuízos monstruosos, e tirar dos “executivos” e “analistas” os tão idolatrados bônus de desempenho. Para levá-la adiante, seria necessário alguém com força e disposição política para enfrentar a jogatina financeira.

“Há alguém disposto a comprar essa briga?”

Pode ser. Mas, olhando para os Estados Unidos, é mais fácil enxergar em Obama um Chamberlain do que um Churchill.

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