Deus existe; e fica com raiva quando a citação é feita por quem não leu a obra

Quase todo mundo já passou por isso. Na infância, na adolescência ou na terceira idade, sempre há algum momento na vida em que você deixa de acreditar num Ser Superior a reger todas as coisas do Universo. É normal, é natural, todo mundo passa por isso.

Subitamente, o sujeito passa a criticar tudo, a não acreditar em nada e, de repente, despe-se de todos os sensos. Afinal, se não há vida após a morte, qual o sentido de eu fazer o bem em vida? Tenho mais é que aproveitar a vida ao máximo, pouco me lixando pro resto da humanidade.

Até aí, tudo bem. É uma opção da vida.

O problema é quando, convertido ao ateísmo, o sujeito passa a “parafrasear” Ivan Kamarazov: Se Deus está morto, tudo é permitido.

Ivan é o filho do meio de Fiodor Pavlovitch Karamazov. Junto com Dmitri, o mais velho, e Alieksiei, o mais novo, Ivan forma o triunvirato central na epopéia narrativa de Dostoyevski: Os irmãos Karamazov.

Em poucas linhas, o livro retrata a vida de uma família russa. Uma família ordinária, com uma vida ordinária, cheia de personagens igualmente ordinários. Fiodor é um pai sacana. Preocupa-se apenas com ele mesmo, e quer mais que os filhos se danem. Na verdade, faz de tudo para que não recebam sua parte na herança deixada pela mãe deles. Dmitri, irmão dos outros dois apenas por parte de pai, é o primogênito. Acaba apaixonando-se pela mesma mulher que o pai, Gruchenka. Ivan é o intelectual da história. Acaba fazendo o papel de alter ego de Dostoyesvky. Alieksey, o caçula, faz as vezes de herói na história. Sujeito boa-praça, até parece um monge budista; e de fato vive parte de sua vida num mosteiro.

O ponto central do romance são as venturas e desventuras da família Karamazov. Dostoyevsky retrata com fidelidade mesmo os mais pequenos e mesquinhos sentimentos daquela família comum. Nesse ponto, iguala-se a Shakespeare ao fugir da caricatura. Os personagens de Os irmãos Karamazov são humanos, assutadoramente humanos. Não à toa, Freud considerava Os irmãos Karamazov, ao lado de Hamlet e Édipo-Rei, um das três maiores obras da história.

Durante o livro, Fiodor é assassinado. Um de seus filhos será acusado do homicídio, e é mais ou menos por aí que a história se desenrola. Não, não vou contar o restante do livro. Afinal, este post é justamente sobre isso. Vamos, então, ao que interessa.

Numa de suas muitas reflexões sobre a vida, a natureza e a religião humanas, Ivan Karamazov fica a indagar-se se coisas como Deus e alma realmente existem. E, em caso negativo, quais seriam os impactos dessa conclusão sobre a conduta humana. Eis, então, o que disse Ivan Karamazov, segundo a narrativa do livro:

“…ele (Ivan Fiodorovitch Karamazov) declarou em tom solene que em toda a face da terra não existe absolutamente nada que obrigue os homens a amarem seus semelhantes, que essa lei da natureza, que reza que o homem ame a humanidade, não existe em absoluto e que, se até hoje existiu o amor na Terra, este não se deveu a lei natural mas tão-só ao fato de que os homens acreditavam na própria imortalidade. Ivan Fiodorovitch acrescentou, entre parenteses, que é nisso que consiste toda a lei natural, de sorte que, destruido-se nos homens a fé em sua imortalidade, neles se exaure de imediato não só o amor como também toda e qualquer força para que continue a vida no mundo. E mais: então não haverá mais nada amoral, tudo será permitido, até a antropofagia. Mas isso ainda é pouco, ele concluiu afirmando que, para cada indivíduo particular, por exemplo, como nós aqui, que não acredita em Deus nem na própria imortalidade, a lei moral da natureza deve ser imediatamente convertida no oposto total da lei religiosa anterior, e que o egoísmo, chegando até ao crime, não só deve ser permitido ao homem mas até mesmo reconhecido como a saída indispensável, a mais racional e quase a mais nobre para a situacão” (Wikipedia).

Posto que ateu, em nenhum momento Ivan “mata” Deus. Limita-se a divagar sobre os problemas e as razões de sua existência ou inexistência. Porém, ao contrário dos niilistas mais afoitos, Ivan não prega o caos e a desordem. Muito pelo contrário. Tanto é que, no final do livro, ele conclui:

“Quando a humanidade, sem exceção, tiver renegado Deus (e creio que essa era virá), então cairá por si só, sem antropofagia, toda a velha concepção de mundo e, principalmente, toda a velha moral, e começara o inteiramente novo. Os homens se juntarão para tomar da vida tudo o que ela pode dar, mas visando unicamente à felicidade e à alegria neste mundo. O homem alcançará sua grandeza imbuindo-se do espírito de uma divina e titânica altivez, e surgirá o homem-deus. Vencendo, a cada hora, com sua vontade e ciência, uma natureza já sem limites, o homem sentirá assim e a cada hora um gozo tão elevado que este lhe substituirá todas as antigas esperanças no gozo celestial. Cada um saberá que é plenamente mortal, não tem ressurreição, e aceitará a morte com altivez e tranquilidade, como um deus. Por altivez compreenderá que não há razão para reclamar de que a vida é um instante, e amará seu irmão já sem esperar qualquer recompensa. O amor satisfará apenas um instante da vida, mas a simples consciência de sua fugacidade reforçará a chama desse amor tanto quanto ela antes se dissipava na esperança de um amor além-túmulo e infinito”. (Wikipedia)

Portanto, mesmo a “morte” de Deus não implica uma licença para fazer o que der na telha. Na verdade, Dostoyevsky prega justamente o oposto. Mesmo sem Deus, o homem deve buscar reconciliar-se com o próximo. Religioso ou ateu, o homem tem um só destino a seguir: doar-se ao próximo. Só assim conseguirá viver sua vida plenamente.

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2 Responses to Deus existe; e fica com raiva quando a citação é feita por quem não leu a obra

  1. Avatar de rodriguesjr rodriguesjr disse:

    acredito que esse seja o grande dilema do Ser Humano: como ser “cristão” sem uma autoridade maior (Terrena ou Divina) obrigando-o a tal? como ser um bom amigo, um bom pai, alguém melhor sem a esperança de uma recompensa ou o medo da punição? nisso somos tão parecidos com os cães… sempre fazendo o “certo” ou por medo de punição ou por querer a recompensa.

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