Ontem, o Elio Gaspari publicou um artigo chamado “Os EUA iam acabar em 1861” (ver aqui). Em resumo, Gaspari discorre sobre as ressureições americanas desde a Guerra Civil: depressão, nazismo, fascismo, desvalorização do dólar, Vietnã, ascenção do Japão, etc. Em todos os casos, profetizou-se o fim da Roma da era moderna. E, em todos os casos, os profetas deram com os burros n´água.
Qual o segredo da fênix americana?
A meu ver, a resposta é uma só: democracia.
Durante a história, assistiu-se por diversas vezes à ascenção de forças políticas que impulsionavam a dinâmica industrial de um país e parecia conduzi-los em trem expresso para o Olimpo. À exceção do Japão moderno, em todos os casos os surtos de crescimento econômico deram-se sob períodos de governos autoritários. Foi assim com Mussolini, foi assim com Hitler, foi assim até mesmo com a ditadura militar brasileira.
Mussolini e Hitler, por conta da II Guerra, acabaram – digamos, assim – “privados” de verem o ocaso de seus projetos pelo decurso natural do tempo. No caso brasileiro, o roteiro foi seguido à risca.
Depois do processo de salsicharia promovido por Octávio Gouveia de Bulhões e Roberto Campos durante o consulado de Castello Branco, Delfim Netto viu a ocasião perfeita para afundar o pé no acelerador. De 1969 a 1973, o Brasil foi o país que mais cresceu no mundo. A média de crescimento do período foi superior a 11% ao ano (em um único ano – 1972 – o país cresceu 14%).
Tudo ia bem. Tricampeão do mundo, com o país crescendo a todo o vapor, os gorilas se sentiram à vontade para descer o cacete. Não por acaso, viveu-se nessa época o mais negro período de repressão militar da ditadura dos generais.
Súbito, apareceu um ensaio de um economista dizendo mais ou menos o seguinte: os problemas conjunturais do país parecem eclipsados pelo Milagre Econômico. No entanto, o crescimento em tais bases e nesses níveis não vai durar para sempre. E, quando isso acontecer, é possível que a sustenção política do governo se esvaia.
Traduzindo: a ditadura duraria enquanto o Milagre Econômico continuasse. No dia em que acabasse, a ditadura iria embora.
Dito e feito.
Em 1982, depois de duas crises do petróleo, o Brasil foi à breca. Em 1985, o último dos generais-presidentes saía pela porta dos fundos do Planalto.
O que o economista havia percebido era a relação direta entre a economia e a política; com a primeira, garante-se a segunda. Sem ela, vai-se para o espaço.
Do outro lado do mundo, a coisa funciona da mesma forma. Pouca gente lembra, mas os protestos que conduziram à marcha dos estudantes sobre a Praça da Paz Celestial eram decorrentes de uma mini-crise econômica na China. A inflação subira, prejudicando a ainda emergente classe média do país. Sem ter a quem recorrer, restou aos estudantes saírem às ruas em protesto.
O governo chinês sabe disso. Por isso, pode aceitar tudo, menos que seu país desliga ou diminua a velocidade de seu bólido. Nada os deixa com os cabelos mais eriçados do que crises mundiais a arriscarem o seu crescimento econômico. É sobre ele que se estrutura toda a legitimidade do PC chinês.
Nos dois casos, a repressão política é “aceita” porque a maior parte da população se beneficia do crescimento econômico. No dia em que o “acordo” for quebrado, isto é, o governo não entregar a contrapartida prometida, surgem os movimentos de ruptura. É assim que funciona em sistemas autoritários: toda mudança de política é precedida de uma crise econômica e, por conta da necessidade de mudança, desestrutura tudo o que fora anteriormente construído.
Em uma democracia, nada disso é preciso. Não se gosta de um governo? Elege-se outro. A política econômica é ruim? Aprova-se outra. Quer-se um governo mais social? Elege-se um presidente democrata. Quer-se um governo menos gastador? Elege-se um presidente republicano.
Em qualquer dos casos, à mudança de orientação política ou econômica não se segue uma crise de reestruturação do Estado. Ela permanece a mesma. Muda-se apenas o leme de direção e segue-se em frente.
Não nos esqueçamos, também, dos fatores positivos da liberdade sobre a atividade econômica. Livres, os sujeitos podem inovar, inventar, fazer o que bem entenderem. Não dá mais pra vender automóveis? Vamos fabricar computadores. Vender computadores não dá mais dinheiro? Vamos criar softwares.
Esse é, pra mim, o grande segredo da Fênix americana. Uma sociedade com problemas, é claro, mas essencialmente livre. Livre para pensar, livre para criar, livre para produzir.
Pode até ser que estejamos assistindo ao ocaso do Império Americano.
Mas – querem saber? – eu não apostaria muito em uma nova Roma surgindo em Pequim. Pelo menos não por muito tempo.