Aos 12 anos, meu pai decidiu que era tempo de eu conhecer os Estados Unidos. 28 dias de viagem, 8 cidades e algumas travessias de avião across the USA depois, acho que a missão foi atingida a contento.
A época era o começo da década de 90, ainda antes do Plano Real e com a inflação em ritmo de serial killer: efígies de cédulas desapareciam na mesma velocidade com que eram impressas pela Casa da Moeda.
Enfim…
Quando estávamos em Nova Iorque, a noite chegou e, dada a imberbe idade deste que vos escreve, as opções noturnas da Big Apple ficavam um tanto reduzidas. Parques e museus fechados, a solução era correr o circuito gastronômico.
Certo dia, cansados dos preços salgados de Manhattan, decidimos cruzar a ponte em direção à Nova Jérsei. Algo parecido como quem vai ao Rio e decide ir jantar em Niterói. Pode parecer estranho, mas, para quem não conhecia nada, tudo era novidade. Pegamos o carro e lá fomos.
Logo após cruzar a ponte, havia um pequeno restaurante chinês na beira da estrada. Lugarzinho pacato, uma vista interessante de Nova Iorque, contava ainda a favor dos chineses o fato de que não tínhamos ainda provado de sua culinária durante a viagem. Decidimos arriscar.
À entrada, um aviso: “Favor reservar sua mesa com antecedência”. Não tínhamos feito reserva, mas, considerando que a quantidade de lugares vazios era dez vezes superior à de lugares ocupados, isso não foi lá grande problema.
Sentados, pedimos o jantar. Devo ter comido frango ou algo parecido; confesso que não me recordo. Mas a comida não devia ser má – tampouco excelente – visto que recordações quanto a esse aspecto não ficaram na memória.
Meu pai, sempre observador, notara que atrás do caixa do restaurante havia um espelho. Nele, o sujeito colecionava dinheiros do mundo. Cédulas das moedas dos mais diversos países eram colocadas lado a lado, provavelmente sem nenhuma ordem e sem obedecer a nenhum critério. Papai, então, decidiu contribuir para a coleção. Ao pedir a conta, deixou uma pequena tip, e, juntamente aos dólares, entregou uma nota de Cr$ 1.000,00.
A garçonete espantou-se:
“Oh, my God! One thousand Cruzeiros!” (“Oh, meu Deus! Mil cruzeiros!”) exclamou a chinesinha. Aturdida, chamou o gerente que estava no caixa para juntar-se a ela na incredulidade. O gerente veio em passo rápido. Abrindo os olhos ao ver tantos zeros em uma cédula, perguntou:
“You must be very rich sir, aren´t you?” (O senhor deve ser muito rico, não é?)
Rindo, meu pai respondeu:
“Well…not that much“. (“Bem…não tanto assim”)
Diante da felicidade geral dos chineses, papai não teve coragem de dizer-lhes que aquilo não valeria muito mais do que um dólar.
Tudo bem. Eles devem ter descoberto depois.
Quem tem 25 anos ou menos não tem idéia do que é viver num país em que até os mendigos eram milionários – as esmolas costumavam ultrapassar os milhares fácil, fácil.
Melhor assim.