O bullying e a formação dos jovens

A moda no momento é o bullying. Desde massacre em escola de crianças até a tomada de gravador de jornalista, tudo agora é bullying. Sei que os psicólogos e psianalistas que eventualmente lerem esse post vão ficar de cabelos eriçados, mas acho que a discussão toda está caminhando no sentido errado.

Cada vez que aparece um episódio como esse, sempre aparecem os educadores de plantão a dizer que nós devemos orientar as crianças a evitar esse tipo de comportamento, ensiná-las que isso é errado, que a outra criança vai sofrer com isso, e blá-blá-blá. Certo, todo mundo pode concordar com isso. Mas a pergunta que penso que devemos fazer é a seguinte: que tipo de criança queremos formar para o futuro? Ou, mais especificamente, pra que tipo de mundo nós estamos formando nossas crianças?

No maravilhoso mundo dos educadores infantis, todos vivem em harmonia, dão “bom dia” e não jogam papel no chão. No mundo real, infelizmente, a coisa é diferente. Brigas e desentendimentos ocorrem a toda hora, poucos são educados, e a maioria não só joga papel no chão como cospe nele. Diante disso, é de se perguntar: devemos fazer com que os pequenos adultos se portem como se estivessem num mundo que não existe? Ou é melhor prepará-los para aprender a regiar e enfrentar, de cara erguida, o mundo real?

A maior parte dos visitantes desse blog freqüentou escola no tempo em que bullying era simplesmente chamado de “brincadeira” ou “zoação”. Quem de vocês nunca tirou onda com uma criança mais gordinha (os famosos “Baleia”)? Ou com aquela menina mais magrinha (as “Olívias Palito”)? Ou mesmo com os de ascedência negra ou mulata (“Negão”)?

Pelos parâmetros atuais, todos nós poderíamos ser acusados de bullying. Curiosamente, acho que em nenhum dos casos alguma de nossas “vítimas” tornou-se um psicopata ou teve transtornos mentais severos. Na imensa sua maioria, aceitavam a brincadeira, adotavam o apelido e seguiam em frente.

O que mudou de lá pra cá? As crianças tornaram-se mais psicopatas ou sentimentais do que antes? Ou fomos nós que mudamos?

Eu, a exemplo de Ana O., tenho uma tese: a culpa é da permissividade e da “liberalidade” dada aos jovens de hoje. De novo, a culpa é da praga do politicamente correto. Não se pode bater em criança porque traumatiza. Não se pode pôr a criança de castigo porque traumatiza. Não pode falar alto com a criança porque traumatiza. Tudo traumatiza. Tudo deve se resolver “na conversa”, “com jeitinho”, para “sensibilizar” a criança a mudar seu comportamento. Excelente, salvo por um detalhe: nem todo mundo é psicólogo. Poucas são as pessoas aptas a criar uma criança desse modo. E, mesmo assim, nem sempre isso funciona. Há um certo instinto animal em todos nós, inclusive nas crianças, que precisa ser reprimido. Afinal, é isso que torna possível a convivência em sociedade, porque se todo mundo pudesse fazer o que quisesse, daria uma confusão danada.

Oprimindo-se a repressão paterna, boa parte das crianças cresce mimada, sentindo que o mundo gira em torno dela e que podem fazer tudo, pois não há punição pra nada. Por outro lado,  a criança sente-se à vontade para ser sensível ao extremo. Não desenvolve um senso de responsabilidade. Tudo passa a ser culpa dos outros: dos pais, dos professores, dos colegas, seja de quem for. Só não é dela.

A atribuição de todas as mazelas do mundo ao bullying é fenômeno recente. Tomara que não vingue. Do contrário, arriscamo-nos a ter mais Wellingtons a chachinar inocentes por aí.

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12 respostas para O bullying e a formação dos jovens

  1. Ana O. disse:

    Ter sido chamada de Olívia Palito e coisinhas do gênero na infância não me agradava (claro), mas também não me causou traumas. Até porque, na época, eu não sabia que isso poderia traumatizar alguém. Não defendo (de jeito nenhum) a violência física ou a recorrente agressão psicológica, mas também não defendo a educação das crianças em bolas de cristal, pois isso acaba sendo um estímulo à intolerância. O difícil é, num caso concreto, encontrar esse caminho do meio…

  2. Rômulo César Júnior disse:

    eu acredito num meio termo. os mais agressivos devem sim serem coibidos. mas coibidos mesmo, não essa historia de dialogo. e as vtimas devem ser ensinadas a se defender porque fora de casa e do colegio sempre vai ter alguem que nos agrida. afinal, bandido e psicopata não precisa de estimulos mais fortes para serem “ruins”. falam muito contra jogos violentos, brincadeiras violentas, mas nossa geração cresceu com jogos e brincadeiras violentas e nem por isso criou-se uma geração violenta. é só ver os psicologos e educadores que estão aí atuando. todos brincaram de bang bang, de luta, jogaram atari. receberam e deram apelidos, formaram turmas que “tiravam onda” de outras turmas e todos conseguiram um se formar, seguir profissão, etc. e tem muito psicopata que foi criado em ambientes sem acesso a jogos e filmes violentos e aprontam o que apronta. quem nasce psicopata pode ate não se tornar violento um dia, mas não vai precisar de jogo nenhum pra ter um acesso de violencia. é a geração do medo. não bata na criança que ela se volta contra voce, não ponha de castigo que traumatiza, não presenteie com jogos/filmes violentos que ela vai sair por aí dando porrada, 2012 vai acabar o mundo (senão adiam pra outra data…)…:P nnnããããããã. oowww turminha pra gostar de incultir/sentir medo.:P

  3. Rômulo César Júnior disse:

    a proposito: se Ana O. era a Olivia Palito, eu era tudo que fosse gordo e/o pequeno: baleia, salva vidas de aquario, pintor de roda pé, orca (depois que descobri que orca é da familia dos golfnhos passei a gostar do apelido :D), etc.:)))))

    • arthurmaximus disse:

      Se eu começar a escrever os apelidos que me deram durante o período escolar e os episódios de bullying que sofri, levaria dois dias. Nem por isso saí por aí matando gente. Quer dizer, ainda não, hehehehe. Abraços.

  4. Rômulo César Júnior disse:

    apesar da vontade, ainda não matei ninguém. com o csi então… melhor eu ficar só na vontade. 🙂

  5. Ana O. disse:

    Pois é, algumas coisas são relacionadas à infância, e a gente tem de aprender a conviver com elas. Ou vão dizer que os planos infalíveis do Cebolinha para pegar a Mônica são bullying. E que a Mônica não deveria mais ser chamanda de baixinha, gorducha e dentuça porque, em vez do Sansão, poderia pegar uma arma e sair por aí…

  6. Patrícia disse:

    Arthur
    Criança “é bicho ruim”, a capacidade dela ser má é enorme, até porque é inconsequente, os educadores estão ai para socializá-las, colocando os limites e conscientizando-as, esse negocio de bullying é muito sério, as coisas da infância marcam para sempre e interferem no resto da sua vida, sei que aquilo que não mata fortalece, mas sou favorável a educar, acho chic ser delicado e consciente. A cada dia gosto mais do seu blog, adorei a do saci e curti muito o Elton . Vc é demais! Abraço da Patty.

    • arthurmaximus disse:

      De fato, Patty. Também sou contrário ao bullying violento. Esse eu acho que deve ser reprimido mesmo. Mas o bullying, digamos, “saudável” ou inocente, acho absolutamente natural. Faz parte do crescimento e do desenvolvimento da criança. O que acho que deve ser feito é ensinar a criança a ser tolerante com as brincadeiras e aprender a não se sentir diminuída por elas. Talvez aí esteja a grande chave da questão. Abraços.

      • Patrícia disse:

        Concordo com vc, precisamos fortalecer nossos pequenos. Ter auto estima é importante, só que é decorrente do auto conhecimento e isso vem com a maturidade. Bjs e o afeto da sua amiga Patty

  7. Rômulo César Júnior disse:

    auto estima vem com a maturidade, mas podemos reforçar a auto estima fortalecendo o fisico (judo, voley, natação) e descobrindo e estimulando os pontos fortes da criança (xadrez, quimica, algum esporte em que a criança se destaque etc).

  8. Rômulo César Júnior disse:

    desvirtuando o assunto: como diria Lulu Santos: “ainda encontro a fórmula do amor!!!:)))
    http://g1.globo.com/dia-dos-namorados/2011/noticia/2011/06/cobaia-da-ciencia-roedor-da-pradaria-vira-simbolo-de-fidelidade-nos-eua.html

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