O poeta do “se”

O Impérito Britânico foi o maior império sobre a terra, disso ninguém duvida. Sua extensão total, incluindo as colônias diretamente controladas pela Coroa Britânica, alcançava um quarto da superfície terrestre. Daí veio a expressão de que “o sol não se põe no Império Britânico”.

A extensão do Império associada ao avanço tecnológico no século XVIII inspiraram Júlio Verne a escrever A volta ao mundo em 80 dias. A saga de Phileas Fogg passa-se em países como Índia, Hong Kong, Estados Unidos, todos lugares que eram ou foram colônias britânicas. Mas não é dele que eu quero falar agora.

O mote desse post é um indiano, genial na exata medida em que era controverso: Rudyard Kipling.

Nascido em Bombaim, Kipling cresceu na Índia, mas cursou a universidade na Inglaterra. Nunca se conformara com o fato de ter que falar inglês por obrigação, ao invés do hindi, a língua dos hindus. Mesmo assim, foi com a língua inglesa que Kipling fez maravilhas.

Kipling escreveu vários livros, a maioria dedicada ao público infanto-juvenil. É dele, por exemplo, O Livro da Selva. Dentre outras histórias, lá está Mogli, o menino-lobo.

Mas Kipling não era só romancista. Era também poeta. Vários de seus poemas fizeram sucesso e influenciaram toda uma geração. T.S. Elliot, por exemplo, gostava de dizer que Kipling escrevia belos poemas em qualquer ocasião, mesmo que fosse por acidente.

Sucesso no mundo inteiro, Kipling ganhou o Nobel de Literatura em 1907. Não só foi o primeiro escritor de língua inglesa a recebê-lo, como até hoje foi o mais jovem a ser laureado (42 anos).

Por ter escrito vários livros sobre temas militares (Três Soldados, Baladas da Caserna, etc), muitos críticos o associavam ao Imperialismo Britânico. Eu particularmente acho a associação um tanto forçada. Pra mim, é mais fácil acreditar no contrário. Por mais de uma vez, Kipling foi sondado para ser Cavaleiro do Império Britânico. Sempre recusou a comenda. Por convicção ou temperamento, não quis ter seu nome associado a uma pataca representativa da Coroa britânica. Acho que isso diz tudo sobre o que Kipling achava sobre o imperialismo inglês.

Seu poema mais conhecido é IF. Trata-se de uma ode ao pequeno adulto que habita todo adolescente. Dificilmente alguém conseguiria expressar com tamanha beleza e simplicidade tudo aquilo que um pai gostaria de dizer ao filho como forma de prepará-lo para o mundo que o espera.

Gostaria muito de comentá-lo. Mas, sinceramente, acho que não produziria nada à altura. As palavras falam por si.

Abaixo, o poema, no original e em sua versão traduzida:

IF

Kipling

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don’t deal in lies,
Or being hated, don’t give way to hating,
And yet don’t look too good, nor talk too wise:

If you can dream – and not make dreams your master;
If you can think – and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you’ve spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build ‘em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: ‘Hold on!’

If you can talk with crowds and keep your virtue,
‘ Or walk with Kings – nor lose the common touch,
if neither foes nor loving friends can hurt you,
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds’ worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that’s in it,
And – which is more – you’ll be a Man, my son!

SE

Se és capaz de manter a cabeça no lugar, quando
todos ao seu redor estejam perdendo as deles e te culpa,
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires,
de sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e – o que ainda é muito mais – és um Homem, meu filho!

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