A Líbia vai completar dois meses de guerra civil, sem fim à vista. O Egito derrubou Mubarak, mas ainda são os militares que mandam por lá. No Iêmen, o Presidente já disse que sai já, já, mas o povo que agora. Na Síria, Bashar Al Assad vai utilizando o método “Muammar Khaddafi” de “como-lidar-com-protestos-por-reformas”. E, no Japão, o vazamento da usina de Fukushima continua fora de controle.
Mesmo assim, a grande pauta da semana dos semanários, jornais e blogs é o casamento do Princípe William com Kate Middleton.
Ok. O mundo também é feito de futilidades, e a família real britânica sempre foi pródiga na produção de escândalos e intrigas para se entreter e, por tabela, divertir a curiosidade da malta.
Há muito tempo a Monarquia Britânica deixou de ser um regime de governo. É fato: há aqueles que ainda defendem a adoção da República. Eleições regulares, alternância de poder, fim de toda pompa e circunstância que cercam a Casa de Windsor, etc. Mas, sinceramente, não acredito numa mudança dessa nem nos próximos 200 anos. Por quê?
Pensa-se no Reino Unido e uma das primeiras coisas que vem à mente é a família real; se não, coisas que remetem à família real, como o Palácio de Buckingham, o Castelo de Windsor, as jóias da Coroa e até mesmo os cavalos da Rainha. A Monarquia passou a ser uma instituição do país, algo que faz parte da paisagem, como o Parlamento e a Torre de Londres. Não é fácil simplesmente desfazer algo já enraizado no cotidiano das pessoas.
Trazendo para a nossa realidade, a família real estaria para os britânicos como a ala das baianas da Mangueira está para os brasileiros; ninguém imagina o carnaval sem elas.
Conta a favor da Monarquia a inutilidade prática de uma mudança de regime. Mudar pra quê? O Parlamento já funciona como Executivo, Legislativo e instância máxima do Judiciário. Rei ou Rainha não apitam nada naquelas áreas há quase 5 séculos. Aliás, feliz foi quem inventou o ditado “manda tanto como a Rainha da Inglaterra”. Em suma: mudar o regime para uma República não alteraria em nada o equilíbrio de poder na Ilha.
Nem mesmo o argumento econômico pesa mais contra a família real. Apesar do Governo Britânico continuar pagando parte das despesas da família real – especialmente as relacionadas à segurança -, há de ser contabilizado o quanto a família real rende para os cofres reais. As visitas ao Palácio de Buckingham são pagas (25 libras), assim como a entrada da Torre de Londres para ver as jóias da Coroa (15 libras). Toda essa renda é revertida para os cofres públicos. Há ainda a troca de guarda que, embora seja de graça, faz com que muita gente decida ir a Londres ao invés de ir a outra capital européia. Isso para não falar nos que vão apenas para passar nos lugares por que passou a Princesa Diana e prestar homenagem no seu túmulo. O ganho total com turismo relacionado à família real é incalculável. Trocar por uma república poria em risco toda a rede de atividades econômicas relacionadas a esse patrimônio nacional.
É bom lembrar que o conceito de “tradição” foi inventado pelos ingleses. Depois do rompimento de Henrique VIII com o Papa, o Anglicismo deixou de seguir a liturgia da fé católica. As “tradições” surgiram, assim, para atingir dois objetivos. Primeiro, fazer esquecer os rituais católicos e as verdadeiras razões do rompimento com o Papa. Segundo, fazer com que a ritualística da monarquia substituísse a católica no coração dos britânicos. Era uma forma de, a um só tempo, esquecer o passado (e seus inconvenientes) e reafirmar o presente (a força do monarca).
Quase cinco séculos depois, é díficil acreditar que os britânicos queiram realmente se ver livres da família real. A verdade é que eles vivem uma relação meio sadomasoquista com a família real: xingam, batem, esperneiam, mas, no fundo, no fundo, gostam dela.
E – convenhamos – olhando ao redor do mundo e vendo os sistema presidencialistas que há, quem vai discordar deles?
aproveitando o casamento real que tal falar um pouco sobre os titulos nobiliarquicos britanicos e porque a Kate não recebeu o titulo de princesa?
http://especiais.ig.com.br/iggente/2011/04/29/casamento-da-a-kate-titulo-de-duquesa-nao-de-princesa/
Good point, Rômulo. Vamos ver como a pauta se desenvolve na semana. Abraços.