A China e o Conselho de Segurança da ONU

Entra ano, sai ano, e toda vez que um presidente brasileiro vai a alguma potência estrangeira, fala-se da necessidade de “reforma” do Conselho de Segurança da ONU. Entra ano e sai ano, sempre o mesmo blá-blá-blá de quem nos recebe: “É preciso mudar”, “É preciso aumentar a representatividade do CS”, “O Brasil tem direito de aspirar a uma posição de protagonista no cenário mundial” e outras platitudes do gênero.

Com a visita da Dilma à China, repetiu-se o mesmo teatrinho enfadonho. Sorrisos, apertos de mão, mas definições concretas, que é bom, nada.

À China não interessa que o Brasil entre no Conselho de Segurança da ONU. Aliás, a ninguém que está lá interessa. Ninguém quer mudar uma ordem de coisas que permite certos privilégios dos ocupantes de um assento permanente no CS.

O Conselho de Segurança é o órgão executivo das Nações Unidas. Decisões mais sensíveis, como invasões de países, envio de forças de segurança, resoluções de observância obrigatória para os Estados-membro, tudo tem que passar pelo CS. Acima dele, só a Assembléia Geral, mas a Assembléia Geral não tem competência para apitar no dia-a-dia da ONU. É – mal comparando – como se a Assembléia Geral fosse uma Constituinte, e o Conselho de Segurança fosse o parlamento.

Cinco países tem assento permanente no Conselho de Segurança: EUA, Rússia, Inglaterra, França e China. “Coincidentemente”, todos têm arsenal atômico. Ter assento permanente significa, além de óbvio lugar garantido, ter direito a veto nas decisões. Para que uma resolução seja aprovada, é necessário o voto favorável de 9 dos 15 países membros do CS e que nenhum dos cinco membros permanentes vote contra. Se qualquer deles utilizar o poder de veto, a resolução vai pro saco, independentemente do que disseram os outros 14.

Acredite em mudanças, portanto, quem achar que algum deles vai deixar que outros países possam, por exemplo, ter o poder de impedir os Estados Unidos de decretar uma zona de exclusão aérea na Líbia.

Pouca gente sabe, mas até 1971 o assento destinado à China no CS era ocupado por Taiwan. Tendo perdido a guerra civil para os comunistas, Chiang Kai-shek exilou-se com seus partidários do Kuomitang na Ilha de Formosa. Lá fundou a República da China, popularmente conhecida como Taiwan. Na China Continental, Mao Tsé-Tung fundaria a República Popular da China. Os americanos e o resto do mundo ocidental, como é óbvio, só “reconheciam” a República da China (Taiwan) como representante da China. A China comunista, milhões de vezes maior em território e população, não era “reconhecida”.

A coisa começou a mudar quando Nixon resolveu fincar uma estaca no meio da aliança comunista. Ele queria fazer uma “política triangular”, isto é, dividir soviéticos e chineses para, com isso, obter de cada um deles concessões maiores do que as que conseguiria se negociasse com ambos em conjunto.

Arquitetado por Henry Kissinger, um dos maiores estrategistas que já passou pelo cargo de Secretário de Estado norte-americano, o reconhecimento da China pelos EUA em 1970 levantou as barricadas que impediam a China comunista de ocupar o lugar a ela destinado no CS.

Em 1971, valendo-se de um “cochilo” proposital dos americanos, os chineses convocaram uma Assembléia Geral, ejetaram o assento de Taiwan e assumiram a sua cadeira no CS para nunca mais sair.

Lá acomodados, os chineses podem, por exemplo, barganhar o veto a sanções contra o Sudão – que massacrava a população da região de Darfur – apenas para garantir que seu petróleo continuasse a chegar a portos chineses. E é lá que eles podem impedir que seu rival histórico, o Japão, puxe mais uma cadeira para sentar ao lado dos grandes no CS.

Sem o apoio do Japão, o Brasil não chega lá. E com o apoio dele, aí é que não chega mesmo. Dá pra acreditar que o Brasil ainda vai ocupar um dia um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU?

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3 Responses to A China e o Conselho de Segurança da ONU

  1. Avatar de César Mourão César Mourão disse:

    Olha o Arthur, baseando-me em sua própria argumentação, eu lhe respondo que há possibilidades lógicas para que o Brasil ou outro país ingresse nesse privilegiadíssimo e hermético Clube: por própria necessidade da maioria dele mesmo de ampliá-lo, em virtude de pressões da realidade internacional, ou por quetões internas de equilíbrio ou desequilíbrio de poder. Um exemplo, de outra dimensão mas onde também está em jogo grandes interesses econômicos e, por cosequência, estratégicos, é o atual Clube dos Vinte que, praticamente, substituiu o poderoso Clube dos Oito, por pragmatismo, claro ,deste último. O poder nunca é eterno, pelo menos o secular ( sem trocadilho), que o diga a própria China.

    • Avatar de arthurmaximus arthurmaximus disse:

      Comandante, eu não creio em mudanças efetivas no CS nem nos próximos 50 anos. Mesmo com a ascenção da Índia como “futura China”. É possível, no entanto, que os membros permanentes do Conselho de Segurança assintam com uma mudança que passe pela inclusão de novos “membros permanentes”, mas sem direito a veto, que é a grande “graça” de ser membro permanente. A conferir. Abraços.

  2. Avatar de Rômulo Mourão Rômulo Mourão disse:

    Concordo, eu coloquei hipóteses que isso seria possível. Quanto a quando….ah, não faço a menor ideia.

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