A escrita, “enquanto” comunicação, não deve ser empolada

Certos erros de escrita propagam-se na medida exata de sua suposta erudição.

Na mesma linha do famigerado “a nível de”, há a utilização incorreta da conjunção subordinativa temporal enquanto.

Enquanto, nesse sentido, deve ter seu uso restrito a momentos na frase em que você se refere a um evento passado, presente ou futuro. Ela equivale a expressões como: quando, no tempo que, durante, etc. Ex: Enquanto foi presidente, Lula conseguiu governar bem o Brasil.

Outra possibilidade de usar enquanto é como conjunção adversativa, ou seja, para dar uma idéia de oposição entre elementos de uma mesma frase. Nesse sentido, enquanto equivale a expressões como ao passo que. Ex: Fernando Henrique foi o pior presidente do Brasil, enquanto Lula foi o melhor.

Todavia, não é raro encontrarmos em textos por aí – e não somente jurídicos – pessoas utilizando enquanto como conjunção comparativa, aditiva, ou mesmo para passar idéia de algo permanente, e não transitório. Quem nunca viu por aí, por exemplo, uma frase assim:

“As brasileiras, enquanto mulheres, devem lutar pelos seus direitos”.

“O Direito, enquanto ciência, deve ter um método próprio”.

Fica estranhíssimo.

A verdade é que a utilização de enquanto nesse sentido deturpado é erro. E é um erro que geralmente está associado a um certo pedantismo de quem escreveu o texto. Pretende-se uma suposta erudição na linguagem, quando tudo que se consegue é expressar seu desconhecimento da norma culta.

Quando eu fazia o 3º ano, circulou na turma um email que dava “dicas” de português. Carinhosamente, apelidamos o texto de “Manual do Moura”, o carrasco professor de redação que nos atormentava. Apesar de engraçado, o email trazia algumas dicas realmente valiosas. Um delas era a seguinte:

“Desnecessário faz-se empregar estilo de escrita demasiadamente rebuscado, conforme deve ser  do conhecimento de Vossa Senhoria. Outrossim, tal prática advém do esmero excessivo que beira o exibicionismo narcisítico”.

Pois bem. Escrever, “enquanto” forma de comunicação, deve ser sempre algo claro. Fuja dos modismos e das falsas erudições. Seu texto e seus leitores agradecerão.

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