Você certamente já ouviu essa citação: “A história só se repete como farsa”.
A única farsa que há é da própria frase. E, talvez, da suposta erudição de quem a reproduz. Ela não existe como tal.
A história é a seguinte:
A França ainda se convulsionava com a Revolução de 1789. Muita gente já estava de saco cheio com a anarquia criada após a derrubada de Luís XVI e de sua corte. Desejavam, ansiavam, imploravam por ordem.
Retornando triunfante da campanha no Egito, Napoleão viu nesse ambiente conturbado uma oportunidade para subir na vida. Com o apoio do Exército, fechou a Assembléia do Diretório e inaugurou-se a fase do Consulado. Fez isso no dia 9 de novembro de 1799, correspondente ao 18 do mês de brumário do calendário revolucionário. Trata-se, portanto, do primeiro golpe de Estado da história.
A artimanha e a estratégia usadas por Napoleão no 18 Brumário deram as bases para todos os golpes de Estado posteriores. Se tivemos gorilas, devemos parte disso ao corso enfezado.
O triunvirato era formado por Napoleão, Sieyès e Ducos. Napoleão, como primeiro-cônsul, logo eclipsou os outros dois e, cinco anos depois, em 1804, despiu-se da máscara e “restaurou” a monarquia ao proclamar a si mesmo Imperador da França.
Muito tempo depois, após a queda de Napoleão, a restauração da monarquia em 1815, a ascensão de Luís Felipe, primavera dos povos (1848) e a conseqüente proclamação da II República na França, o sobrinho de Napoleão, Luís Bonaparte, assumiu como presidente da República.
Assim como o tio, Luís Bonaparte queria ser Imperador da França. Para isso, de forma mais tosca e mais descarada que seu predecessor, desmoralizou a Assembléia Nacional, mobilizou a malta empobrecida e “comprou” os oficiais do exército. Estavam dadas as bases para um golpe de Estado.
Em 2 de dezembro de 1851, Luís Bonaparte dá o golpe, se autoproclama Imperador da França e adota o nome de Napoleão III.
Pois bem. Entre dezembro de 1851 e março de 1852, ou seja, ainda no calor dos acontecimentos, Marx escreveu “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”. Nele, Marx relata com precisão sem igual todos os preparativos do golpe e os acontecimentos que viriam a se seguir. O “18 Brumário” viria a se tornar um dos maiores clássicos da historiografia universal.
A ironia vem desde o título: 18 Brumário. Ou seja, assim como fizera seu tio, Napoleão III nada mais fizera senão dar um golpe de Estado. Por isso, nas primeiras linhas do livro, Marx afirma:
“Hegel observou, certa vez, que todos os fatos e personagens de grande importância da história universal ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”.
Para Marx, a tragédia é representada pelo golpe de Napoleão; a farsa, a cópia mal reproduzida e tosca de seu sobrinho.
A argumentação brilhante de Marx descreve a democracia francesa como nada mais do que uma forma de manipular os interesses de diversas classes em favor de uma só: a burguesia. Os mecanismos de representação do povo por políticos eleitos – algo normalmente aceito como justo – na verdade serve apenas para ocultar uma imensa engenharia de pequenos acordos.
Por isso, desconfie de quem, pretendendo demonstrar erudição, reproduza essa forma de ignorância.
não tem nada de dúbio. o mourão é muito é mala 😉