E como hoje é Dia do Professor, esse verdadeiro hino de Milton Nascimento.
Uma pequena, porém justíssima, homenagem aos mestres de ontem, de hoje e de sempre…
E como hoje é Dia do Professor, esse verdadeiro hino de Milton Nascimento.
Uma pequena, porém justíssima, homenagem aos mestres de ontem, de hoje e de sempre…
O professor medíocre conta. O bom professor explica. O professor superior demonstra. O grande professor inspira.
By Arthur Ward
Aproveitando a relativa calmaria no cenário nacional e internacional, vamos sair da mesmice analítica do dia a dia e resgatar uma das seções mais queridas (e esquecidas) deste espaço: as sempre maltratadas Artes. E, nesse caso, vamos retomar a seção em grande estilo, pois – que me perdoem os “camonistas” (que gostam de Camões) – não haverá poeta maior na Língua Portuguesa do que Fernando Pessoa.
A começar pelo fato de que Fernando Pessoa não era um, mas impressionantes quarenta e sete (isso mesmo, 47) poetas ao mesmo tempo. Aparentemente, seu gênio não cabia numa só personalidade, razão pela qual ele recorria à estratégia de criar heterônimos. Verdadeiras personagens, os alter egos de Pessoa tinham identidade, RG, endereço, profissão e até mapa astral. Muitos deles inclusive brigavam entre si por meio de cartas. Das mais conhecidas, sobressaem-se três: Alberto Caiero, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Foi este último que, ainda no começo do século passado, escreveu um poema que bem se aplica aos tempos boçais de hoje.
Quem tem ou já verificou como funcionam os perfis em redes sociais, já pôde perceber que a maioria das pessoas ostentam não só um patrimônio que muitas vezes não têm, mas – o que é pior – exibem uma personalidade que nem sequer são. Nelas, ninguém erra. Todo mundo é perfeito e a vida é um doce passeio ao sabor da manhã.
Embora a ostentação em redes sociais seja algo historicamente novo, já no tempo de Pessoa o fenômeno se manifestava. Por isso mesmo, seu heterônimo mais exuberante e assertivo escreveu o Poema em linha reta. Livre na forma, o poema é verdadeiramente ácido no conteúdo. Numa Europa que marchava para a I Guerra Mundial, a sociedade portuguesa de 1914 – ano em que o Poema foi escrito – retratava com irritante perfeição o falso moralismo católico. Em um mundo baseado nas aparências, o maior dos crimes sociais parecia ser a honestidade de admitir todas as suas falhas.
O texto desenvolve-se no formato de um monólogo, como se o sujeito a declamá-lo estivesse no terceiro ou quarto copo de um bar pulguento e, do nada, resolve confrontar o mundo hipócrita à sua volta. O Poema não é senão um monumento à ironia. Os versos são longos e livres e precipitam-se sobre o leitor como um dilúvio de autocríticas.
O Poema já começa com uma voadora no peito do leitor: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada“. Se o termo “porrada” já parece algo no limite do obsceno hoje, imagine há mais de cem anos. Ironicamente, o poeta relata que “todos os meus conhecidos têm sido campeões tudo“. Ele mesmo, porém, é o contrário: “tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil“. Um sujeito que não tem “tido paciência para tomar banho” e que tantas vezes foi “grotesco, mesquinho, submisso, arrogante“. Pior. Além de ter sofrido calado “enxovalhos”, mesmo “quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda“.
Ao contrário dos influencers de hoje em dia, o poeta rejeita qualquer veleidade. É como se ele estivesse a desfiar um rosário, um catálogo de misérias que apenas se acumula, sem nada que pudesse salvar aquela pobre alma torniturada. A repetição incessante da fórmula “Eu, que tantas vezes…” cria um ritmo obsessivo, como se estivéssemos a ouvir o seu tribunal interior a ler a sua sentença condenatória.
É justamente nesse ponto que Poema atinge o seu ápice, em formato de denúncia. O poeta que revela que “toda a gente que eu conheço e que fala comigo nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho“. Mais. “Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes! – na vida“. É por isso mesmo que ele se lamenta: “Estou farto de semideuses“. Ele pergunta em vão: “Onde é que há gente? Onde é que há gente no mundo?” E encerra em um grito desesperado: “Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?”
Poema em linha reta é um tapa na cara de uma sociedade que se desacostumou a mostrar-se cara numa em mar de selfies com filtro. “Quem há neste largo mundo que me confesso que uma vez foi vil?” Nas redes, ninguém ousaria semelhante confissão. Até os pecados são “goumertizados”, como se comer uma pizza no final de semana ou um cachorro quente no almoço fosse o supremo desplante para quem vive de dieta. Você não encontrará nesse ambiente uma infâmia verdadeira, uma vilania verdadeira, como se todos ali fossem apenas seres cumprindo uma passagem obrigatória neste plano a caminho do Paraíso.
Toda vez que você se sentir mal ao visitar páginas alheias, lembre-se de Fernando Pessoa. Você não é pior do que ninguém. Talvez, você seja apenas alguém que tem o defeito de não saber fingir e, por isso, admite as próprias falhas. Quando você se der conta disso, descobrirá que a única poesia verdadeiramente reta é aquela que reconhece as próprias curvas, os próprios desvios, e até mesmo os tropeços que a tornam ridícula. Enquanto isso, os “príncipes” – todos eles príncipes! – seguem reinando nos feeds e nos stories das vidas de fantasia.
De qual lado você prefere estar?
Abaixo, a íntegra do Poema em linha reta:
Nunca conheci quem tivesse levado porrada
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita
Indesculpavelmente sujo
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, absurdo
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante
Que tenho sofrido enxovalhos e calado
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar
Eu, que quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Pra fora da possibilidade do soco
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia
Não, são todos o ideal, se os oiço e me falam
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil
Ó príncipes, meus irmãos
Argh! Estou farto de semideuses
Argh! Onde é que há gente? Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado
Poderão ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Para quem já estava comemorando o hexa no ano que vem, o jogo de hoje foi um balde de realidade.
A gente joga bola e não consegue ganhar!
Coragem não é ter força pra continuar. É continuar quando não se tem força.
Quase 60 anos depois, estamos repetindo o mesmo pedido de John Lennon.
Será que alguém vai escutar dessa vez?
Quando você impõe limites, você não afasta quem te ama, você afasta quem te usa.
Quase quinze anos depois, here we go again.
É o que você vai entender, lendo.
Publicado originalmente em 21.4.11
Dia sim, o outro também, no noticiário nacional é inundado com notícias e reportagens sobre o derretimento do valor do dólar no mundo. Sempre aparecem as mesmas figurinhas de sempre: analistas do mercado dizendo que não há nada a fazer, empresários reclamando que o governo não faz nada para conter a desvalorização do dólar, e etc, etc, etc.
Quem acompanha o blog, sabe que, desde 1971, o dólar não tem lastro. Ou seja: o dólar vale por si mesmo, não existe nenhum ativo real por trás dele – como o ouro – garantindo seu valor de face.
Quando estourou a crise do subprime em 2008, os americanos se viram diante da maior ameaça de recessão prolongada desde a crise de 1929. Bancos quebravam a torto e a direito. Com medo de tomar calote, ninguém emprestava dinheiro pra ninguém. Sem crédito, ninguém compra. E, sem vender, ninguém produz. O risco de o país cair novamente em uma depressão era bem real. O que fez o Banco Central Americano (FED)?
Mandou rodar a máquina. Traduzindo: mandou imprimir uma quantidade colossal de dólares para, no jargão econômico, injetar liqüidez no mercado. A intenção era clara: garantir que nenhuma banco quebraria mais por falta de dinheiro no mercado. Todo mundo estaria garantido. Desse modo, o FED esperava quebrar o círculo vicioso iniciado com a quebra do Lehman Brothers.
O problema é que, segundo um princípio básico da economia, o valor de uma determinada mercadoria é determinada pela sua oferta: quanto mais tem, menos vale; quanto mais gente interessada em tê-la, mais vale. Eis a famosa lei da oferta e da procura.
Com dólares sendo impressos como jornal do dia, a tendência óbvia é fazer com que o valor da moeda despenque. Pros Estados Unidos, isso teria três efeitos positivos:
Primeiro, tornaria o preço de suas mercadorias mais baratas em relação a outras moedas. Conseqüentemente, aumentariam as exportações, atenuando a queda da atividade industrial.
Segundo, o valor real de suas dívidas ao exterior seriam diminuídas. Como as dívidas do governo americano são tomadas em dólar, se o dólar passa a valer menos, a dívida real cai de valor.
Terceiro, os ativos do governo e das empresas americanas nos outros países passam a valer mais. É só imaginar uma fábrica comprada por uma empresa americana no Brasil por R$ 20 milhões. Se o dólar valesse na época R$ 2, a fábrica teria o valor equivalente de US$ 10 milhões. No entanto, se de repente US$ 1 passa a valer R$ 1, a mesma fábrica passaria a valer US$ 20 milhões.
O que está em curso, portanto, é o maior calote da história do capitalismo mundial. Exatamente por isso, China, Brasil, Japão e outros grandes detentores de reserva em dólar puxam os cabelos e compram desesperadamente os dólares que entram em seus mercados. Não só para impedir a valorização de suas moedas, mas, também, para garantir que seus ativos em dólar não passem a valer cada vez menos. Isso explica, em parte, porque o dólar não despenca simplesmente de uma vez, mas vai derretendo aos poucos, numa lenta e dolorosa agonia.
Quem diria? No novo milênio, o país conhecido pela segurança das relações jurídicas e credor do mundo inteiro é agora candidato a maior caloteiro da história. Já os países a quem ele gostava de ditar regras econômicas são seus credores apreensivos, com medo do tamanho do calote que podem tomar.
Eis o capitalismo do século XXI.
E como hoje é aniversário da Gabriela Cilmi, aí vai provavelmente o maior hit dela.
E vai também pra quem reclama que só rola velharia por aqui…
As pessoas dão o que são.