Pensamento do dia

Quarto duplo significa que duas pessoas podem ficar pelo preço de uma, que tem de pagar o dobro se estiver sozinha.

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Imprensa preguiçosa, ou A miopia na análise política

Não se trata de novidade, mas irrita toda vez que acontece.

Quando a análise conjuntural do dia-a-dia da política cai na pasmaceira, de repente surge entre os jornalistas alguma “idéia brilhante”, capaz de unificar o discurso na grande mídia sobre a conjuntura nacional. Na década passada, por exemplo, a grande moda nas redações era dizer que “PT e PSDB eram os melhores partidos políticos que a democracia brasileira foi capaz de produzir”. Dez anos depois, não é preciso ser nenhum grande estudioso de ciência política para concluir o quão disparatada era essa conclusão. Não só o PT se afundou no Mensalão e no Petrolão, como depois o seu grande rival – o PSDB – definhou a olhos vistos, a ponto de ter se tornado um nanico eleitoral (15 deputados e só 1 senador).

Hoje, vemos algo semelhante se repetindo. A onda agora é dizer que “não existe direita sem Bolsonaro” e que “somente um candidato que dialogue com o bolsonarismo poderá se tornar viável numa eleição majoritária pelo espectro conservador”. Dentro desse “raciocínio”, encontra-se embutido uma nem tão velada assim idéia de “pacificação” do país a partir da anistia dos responsáveis pela intentona golpista do 8 de janeiro, com a fila sendo puxada por Bolsonaro e seus generais de pijama. Poucas vezes se pôde ver tanta preguiça mental e miopia política na análise das circunstâncias eleitorais do Brasil.

Pra começo de conversa, há de se constatar o óbvio: dentro do amplo leque ideológico da sociedade, o bolsonarismo é minoritário. Aliás, não é só minoritário, mas francamente minoritário. Salvo os bolsonaristas-raiz, assim entendidos como aqueles que defendem que Alexandre “Xandão” de Moraes é o “ditador de facto” do país e que a Terra é plana, mesmo quem se identifica com Jair Bolsonaro tem vergonha de se assumir como tal.

Em sua imensa maioria, as pessoas que se identificam como “conservadores” no fundo são apenas anti-petistas. Na “análise” da grande imprensa, essa maioria é logo identificada erroneamente como “bolsonarista”. A associação dessas pessoas ao movimento neofasciscta brasileiro dá-se exclusivamente porque, hoje, Bolsonaro encarna solitariamente o papel de opositor ao atual presidente. Como já se escreveu aqui certa feita, Bolsonaro não é nem nunca foi o “Lula da Direita”, mas simplesmente o “anti-Lula” de ocasião.

Essa é a razão pela qual mesmo montado na máquina governamental; mesmo produzindo o maior derrame de dinheiro em vésperas de eleição de que se tem notícia na história do Brasil (PEC Kamikaze); mesmo usando e abusando de toda a rejeição que Lula e o PT (justa ou injustamente) provocam na sociedade; mesmo constrangendo todas as instituições a não punir os seus excessos eleitorais; mesmo com a blitz da PRF para impedir os nordestinos de votar; ainda assim Bolsonaro perdeu. Trata-se – é sempre bom recordar – do único caso de Presidente em exercício a quem o povo sonegou o direito de reeleger-se. Converter esse ser que viveu à sombra do baixíssimo clero da Câmara dos Deputados por três décadas em portento eleitoral é, em suma, um erro analítico crasso.

A partir dessa constatação óbvia, pode-se enfim começar a construir hipóteses.

A primeira delas é que, a menos que o governo Lula seja um desastre completo, qualquer coisa identificada com o bolsonarismo estará fadada à derrota na próxima eleição. Se, com todas as coisas que se passaram em 2022, ainda assim Bolsonaro perdeu, como imaginar que, em 2026, com o chicote da máquina governamental tendo mudado de mão, a coisa vá se passar de forma diferente?

A segunda – que, de maneira velada, encontra-se matreiramente escondida nas análises de quem defende um “bolsonarismo moderado” – é de que uma anistia à cúpula do golpismo fará com que a polarização diminua e alguma alternativa ao centro possa emergir. É o tipo do raciocínio que só pode ser produto de tabagismo com cannabis apodrecida. A uma porque não existe, nem nunca poderá existir, um “bolsonarismo moderado”, eis que o próprio movimento depende, para sobreviver, de um estado de tensão e provocação institucional permanente. A duas porque o que modera golpista é cadeia. Repetindo: CADEIA. O Brasil já experimentou, durante o século XX, umas cinco anistias de movimentos que tentaram derrubar a democracia. Os resultados são esses que estão aí. Loucura, como diria Albert Einstein, é repetir o mesmo experimento da mesma forma e aguardar por um desfecho diferente.

A terceira – e aqui talvez se manifeste de forma mais explícita a preguiça mental dos analistas brasileiros – é que qualquer alternativa eleitoral ao campo “progressista” (hoje representado pelo PT) depende, necessariamente, do repúdio manifesto ao golpismo bolsonarista. Partindo-se do pressuposto de que 1/3 da população é PT e o outro 1/3 é anti-petista, não dá pra imaginar que o 1/3 que decide a parada das eleições vá se aventurar a repetir o vexame de 2018 sem que, do outro lado, esteja alguém minimamente comprometido com a democracia.

É exatamente por isso, portanto, que o pretendente a ocupar o cargo de “anti-Lula” terá de, forçosamente, renegar Bolsonaro e seus asseclas. Somente quando isso acontecer, o pessoal ao centro do espectro eleitoral vai poder deixar de se abraçar à esquerda para salvar a democracia. Quando isso ocorrer, enfim será possível escolher alguém que compartilha dos mesmos valores e noção de Estado dos verdadeiros conservadores, coisa que Bolsonararo nunca foi. Sem isso, ninguém jamais vai conseguir tomar-lhe o lugar.

Os mais céticos irão contra-argumentar dizendo que, sem cortejar os bolsonaristas, esse sujeito nunca vai se eleger. Ok, tudo bem. Pode até ser verdade. Imagine, entretanto, um segundo turno entre Lula e alguém da direita realmente conservadora.

Em quem esses sujeitos vão votar?

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Trilha sonora do momento

Com tanta mentira escorrendo pela tela, só recorrendo ao pessoal do Black Eyed Peas pra desopilar…

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Pensamento do dia

Tem gente que é pacote completo: além de lixo, é um saco.

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Trilha sonora do momento

E como hoje se comemora a data da abolição da escravidão mais tardia do mundo, vamos homenagear o tão sofrido povo negro deste país.

Que, pelo menos aqui neste espaço, sempre foi digno de atenção e de respeito.

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Pensamento do dia

Os loucos constróem castelos no ar, os paranóicos vivem dentro deles e os psicólogos cobram aluguel.

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Recordar é viver: “A vacina contra gripe para idosos”

E como estamos em época de vacinação contra a gripe, vale a pena recordar um post do começo da década passada, quando o negacionismo científico ficava restrito somente à chegada do homem à Lua.

É o que você vai entender, lendo.

A vacina contra gripe para idosos

Publicado originalmente em 26.11.12

Quem acompanhou o noticiário nos últimos dias viu que o escrito Luís Fernando Veríssimo foi internado em estado grave em um hospital no Rio Grande do Sul. Para espanto da maioria, a causa da internação foi a piora no quadro de uma simples gripe. Com 76 anos, Veríssimo foi derrubado pelo vírus influenza, mas, graças a Deus, recupera-se bem. Com alguma sorte, nos próximos dias deverá deixar o hospital bem e com saúde.

A notícia da internação de Veríssimo dá-me o mote para tratar de um tema normalmente negligenciado por boa parte das pessoas: a vacinação contra a gripe para idosos.

Todos os anos, especialmente quando se aproxima o período de inverno no Sul do país, os governos em todos os níveis promovem campanhas de vacinação contra a gripe. O alvo preferencial são os idosos, as crianças e as gestantes.

Por que tanta atenção contra uma doença com a qual convivemos por quase a toda a vida sem qualquer intercorrência?

Primeiro, pela letalidade. Pouca gente sabe, mas a maior causa de doenças e morte entre idosos é justamente a gripe. A razão disso é simples. Quanto maior a idade, menor é a eficácia da resposta do organismo à infecção pelo vírus influenza. Pra piorar, a doença diminui em quase 95% a imunidade de um indivíduo saudável. Se as armas contra os agentes externos já não é lá um Brastemp quando se passa dos 60 anos, maior é o risco quando mesmo essa capacidade é reduzida por causa da gripe.

Em segundo lugar, intimamente ligado à primeira razão, está o fato de que o governo gasta muito menos dinheiro vacinando a população do que tendo de cuidar dela nos leitos de hospital. Como todo médico e profissional de saúde gosta de repetir, prevenir é muito, mas muito melhor que remediar.

No caso de idosos, há ainda de se ressaltar a teimosia como fator agravante das doenças. Como o idoso normalmente é refratário quanto a dirigir-se a médicos, o quadro que se inicia com febre, dores de cabeça e catarro, tende somente a piorar, levando, por exemplo, a complicações graves, como pneumonia e doenças cardiovasculares. E, quando isso acontece, é mais difícil reverter o quadro na internação.

É fato, no entanto, que a vacinação não implica prevenção total contra o vírus da gripe. Para nossa infelicidade, o influenza é um dos vírus mais mutantes que existe. Como a vacina é produzida com base em uma cepa de determinada espécie de vírus, é possível que mesmo pessoas vacinadas fiquem doentes.

Mesmo assim, a vacinação faz sentido. Em que pese a possibilidade de contágio pela gripe, o sujeito vacinado terá uma resposta do sistema imunológico melhor do que quem não recebeu a vacina. Por isso, não deixe de levar os seus velhinhos para vacinar, de maneira que eles continuem ainda por muito tempo ao seu lado e com saúde.

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Trilha sonora do momento

Hoje, só essa do Phil Collins mesmo pra explicar o que aconteceu…

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Pensamento do dia

Não se preocupe com o que as pessoas pensam. Elas não fazem isso com muita frequência.

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To be or not to be? ou A verdade por trás do “ser ou não ser”

“Ser ou não ser? Eis a questão?”

Mesmo quem nunca leu ou sequer ouviu falar de Shakespeare já ouviu falar dessa frase. Encerrando um dos pensamentos filosóficos mais profundos de todos os tempos, o solilóquio de Hamlet acerca da própria existência tornou-se figurinha carimbada mesmo em rodas de bar, quando o nível de teor alcoólico no sangue começa a despertar, mesmo nas mentes mais limitadas, os mais paradoxais pensamentos sobre a vida.

O monólogo de Hamlet se desenrola na primeira cena do Ato III da peça homônima. Angustiado pela promessa feita ao fantasma de seu pai, de vingar-lhe a morte causada por seu irmão (e agora Rei) Claudius, o príncipe da Dinamarca fica literalmente sem saber o que fazer da vida. Súbito, perpassa por sua mente um pensamento tão ligeiro quanto perigosamente sedutor: e se ele, Hamlet, desse cabo à própria vida?

E aqui revela-se um dos maiores casos de interpretações equivocadas na literatura universal. Como a maioria que já ouviu a frase nunca leu a obra do dramaturgo inglês, ninguém nem sequer imagina que o famoso “ser ou não ser” é, na verdade, um diálogo consigo mesmo acerca da idéia de suicídio. No fundo, quando Hamlet fala em “ser ou não ser”, o que ele está tentando dizer de fato é “viver ou não viver”. A partir dessa compreensão, todo o resto do solilóquio passa a fazer mais sentido.

Tudo bem, tudo bem. Uma vez que a peça está escrita em inglês poético (e também arcaico), é natural que muito do que é dito no texto não seja imediatamente absorvido por quem assiste à apresentação ou lê ou livro. Para facilitar o entendimento a quem se aventurar a revisitar essa obra imortal, vamos fazer uma pequena análise aqui, “traduzindo” (numa “dupla” tradução livre), o texto de maneira a que qualquer pessoa possa entender do que Shakespeare realmente falava.

To be, or not to be, that is the question:
Whether ‘tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them?

Na primeira parte do monólogo, Hamlet coloca a questão de frente: “ser ou não ser”, ou seja, “viver ou abandonar a vida”, essa é a questão. Para começar a argumentação, ele se pergunta: “será mais nobre sofrer as pedras e as flechadas de uma sorte ultrajante? Ou pegar em armas contra um mar de problemas e, opondo-se a eles, dar-lhes fim?” Traduzindo: é melhor aguentar a pancadaria calado, ou partir pra violência?

To die, to sleep,
No more; and by a sleep to say we end
The heart-ache, and the thousand natural shocks
That flesh is heir to: ‘tis a consummation
Devoutly to be wished. 

Na segunda parte, Hamlet começa a entrar mais detalhadamente no problema da morte. “Morrer, dormir, não mais. E dormindo dizer que nós damos fim à dor no coração e aos milhares de choques naturais de que a carne é herdeira. Essa é uma consumação que deve ser devotadamente desejada”. Traduzindo: se o sujeito se mata, toda a dor acaba.

To die, to sleep;
To sleep? Perchance to dream – ay, there’s the rub:
For in that sleep of death what dreams may come,
When we have shuffled off this mortal coil,
Must give us pause.

Na terceira parte, Hamlet começa a levantar os problemas do suicídio. “Morrer, dormir. Dormir? Quem sabe sonhar – sim, aí está o problema. Pois nesse sono da morte que sonhos poderão vir, quando nós nos despirmos desse manto mortal? Isso nos faz hesitar”. Traduzindo: se eu morrer, o que acontecerá depois da minha morte?

There’s the respect
That makes calamity of so long life.
For who would bear the whips and scorns of time,
The oppressor’s wrong, the proud man’s contumely,
The pangs of despised love, the law’s delay,
The insolence of office, and the spurns
That patient merit of the unworthy takes,
When he himself might his quietus make
With a bare bodkin? Who would fardels bear,
To grunt and sweat under a weary life,
But that the dread of something after death,

Na quarta parte, Hamlet mais ou menos conclui os problemas de dar cabo de si mesmo. “Eis o respeito que torna calamitosa uma vida tão longa. Pois quem suportaria as chicotadas e o desprezo do tempo, a ofensa do opressor, a contumácia do homem orgulhoso, as dores do amor desprezado, a demora da lei, a insolência do oficial, o desprezo que o mérito paciente dos indignos leva, quando ele mesmo poderia trazer paz a si mesmo com um punhal? Quem se disporia a carregar o fardo, gemendo e suando sob uma vida fatigante, se não fosse pela ameaça de algo depois da morte?” Traduzindo: ninguém aguentaria tanta merda na vida, se não tivesse medo do que poderia acontecer consigo próprio depois de morto.

The undiscovered country from whose bourn
No traveller returns, puzzles the will,
And makes us rather bear those ills we have
Than fly to others that we know not of?

Na quinta parte, Hamlet prossegue com sua conclusão sobre por que a maioria de nós rejeita a idéia de suicídio. “O país não descoberto de cujo solo nenhum viajante retorna intriga a vontade, e nos faz preferir suportar esses males todos que temos a viajar para conhecer outros cuja existência ignoramos”.

Thus conscience does make cowards of us all,
And thus the native hue of resolution
Is sicklied o’er with the pale cast of thought,
And enterprises of great pith and moment,
With this regard their currents turn awry,
And lose the name of action.

Na última parte, Hamlet conclui sua reflexão em um misto de melancolia e ironia. “Essa consciência (sobre a ignorância do que acontece depois da morte) nos torna covarde a todos. E, assim, a tez natural da resolução é encoberta pelo pálido tom do pensamento. E empreitadas de grande essência e momento desviam-se do rumo e perdem até mesmo o nome de ação”. Traduzindo: o medo da morte faz com que desistamos de nos matar antes mesmo de tentá-la.

Que é demasiadamente metafísica para uma única peça de teatro, não há a menor dúvida. Mesmo assim, se você agora se aventurar a conhecer ou revisitar esse texto imortal, pelo menos vai saber exatamente do que se trata.

Abaixo, aquela que, na opinião deste que vos escreve, é a melhor interpretação do solilóquio, na direção/atuação soberba de Kenneth Branagh:

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