A Noite das Astronautas, ou A hipocrisia do mundo político brasileiro

Reza a lenda que as duas profissões mais antigas do mundo são a política e a prostituição. Em ambas, mercadejam-se corpos (ou mentes) em troca de dinheiro. Se elas cresceram através da História em mundos paralelos, é certo que, em determinadas esquinas, elas acabam por se cruzar. É a conclusão a que se chega de quem procura analisar a famigerada Noite das Astronautas.

Para quem ainda não está por dentro do babado, o caso é relativamente simples. Em maio de 2024, durante a Brazil Week em Nova York — um convescote de ricaços, políticos e lobistas —, Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, organizou uma sequência de eventos de luxo para, digamos, “entreter” seus convidados. O esquema era semelhante às antigas festas dos gregos ao Deus do vinho, Dionísio. “Importado” para Roma, Dionísio virou “Baco”, e o substantivo das festas em seu louvor ganharia o nome que seria conhecido pela infâmia: bacanal.

Para uma dessas festas, os organizadores da Vorcaro Suruba & Eventos preparam algo especial. Numa suíte presidencial de um famoso hotel da 5ª Avenida, russas e ucranianas circulavam com macacões prateados e capacetes de astronauta. De acordo com o ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, o “ritual de escolha” era simples: como se estivesse em um buffet de carne humana, o convidado aproximava-se da cortesã, levantava a viseira do capacete e anunciava “essa aí que eu quero”.

Além dos Farialimers de sempre e toda a fauna que costumava cercar o ex-dono do Banco Master, também esteve presente ao evento a nata da elite política brasileira. Dentre eles, inclusive, gente que supostamente “defende a família”, segundo o relato de Garotinho. A conta da brincadeira chegou a quase R$ 4 milhões, de acordo com a Polícia Federal.

Vorcaro, é bom lembrar, não é simplesmente um banqueiro esbanjador que gostava de torrar grana em festas nababescas. É o ex-controlador do Banco Master, investigado por organização criminosa, corrupção e fraudes bilionárias que causaram um rombo estimado em dezenas de bilhões ao Fundo Garantidor de Créditos. E, ao que tudo indica, enquanto desviava bilhões de pessoas físicas incautas, usava parte do ervanário para bancar festas com autoridades públicas em Manhattan.

“E daí?”, pode estar se perguntando você.

Daí, respondo eu, que a coisa vai além dos bacanais propriamente ditos. Toda vez que aparece alguma coisa do gênero no meio de um escândalo político, a galera faz uma espécie de “pacto de silêncio” em torno do assunto. Não se trata, apenas, dos adversários políticos, mas engloba boa parte da imprensa, da polícia e até da população. O argumento, claro, é de que isso não seria de “interesse público”, pois estaria inserido na esfera da vida privada dos envolvidos. Poucas coisas podem ser mais cínicas do que esse “entendimento”.

Quando um bandido como Daniel Vorcaro gasta R$ 4 milhões de reais numa só noite para “entreter” parlamentares, o nome que se dá a isso não é “hospitalidade”. É “cooptação”. Ainda que o caso ficasse restrito ao pagamento de prostitutas para satisfazer a lascívia imoral – e não há razão alguma para crer que o negócio acabaria por aí -, ainda assim estaríamos tratando de propina gasta por um empresário inescrupuloso na esperança de obter algum benefício futuro de autoridades públicas.

E tem mais. Supondo que de fato existam os tais vídeos sobre as festas de que todo mundo – inclusive Anthony Garotinho – fala, quem garante que todo essa orgia coletiva não passava apenas de um instrumento simples de chantagem? Político mentir para seu eleitor é arte que o sujeito aprende tão logo veste o paletó. Mentir para a mulher com a qual compartilha o leito são outros quinhentos. E, nesse caso específico, as consequências tendem a ser muito mais funestas.

Como se isso não bastasse, segundo consta a Noite das Astronautas não foi um episódio isolado. Até agora ele é “apenas” o mais famoso. A PF já documentou uma agenda inteira de “eventos de entretenimento político” patrocinada por Vorcaro em cidades como Londres, Nova York e Trancoso. O que se sabe, portanto, é nada. O que está por vir provavelmente será muito pior.

Não por acaso, foi nesse ambiente que Michelle Bolsonaro resolveu jogar no ventilador seu vídeo contra Flávio Bolsonaro. Na segunda-feira, a ex-primeira-dama repostou o vídeo de Garotinho nos seus stories com uma frase enigmática: “A verdade de Jesus Cristo vai prevalecer”. O post sumiu logo depois, mas o recado ficou.

No contexto da crise políticacom o enteado — que a teria “humilhado e maltratado ao telefone” —, a mensagem de Michelle não precisava de legenda. Para piorar, Flávio vestiu a carapuça da acusação. Disse o filho 01 de Bolsonaro que “nunca esteve em festinha de astronauta de Vorcaro”, no típico erro de quem proclama inocência sem ter sido formalmente acusado.

Se Flávio Bolsonaro estava ou não na festa, é algo que saberemos mais hora, menos hora. O fato é que, segundo relatos unânimes de quem já viu o material, cabeças coroadas do sistema político brasiliense foram convivas da esbórnia patrocinada por Daniel Vorcaro. “Quantas e quais?”. Só a investigação poderá revelar.

Ao contrário do que a prega a regra do silêncio sobre a “vida pessoal” dos políticos, a melhor coisa a se fazer no momento seria a Polícia Federal ir a fundo para descobrir quem de fato esteve nessas orgias coletivas patrocinadas pelo ex-dono do Banco Master. Libertinagem paga com dinheiro de banco investigado por fraude bilionária não é “intimidade”. É elemento de crime. Onde há vídeo com autoridade pública em situação comprometedora, de duas, uma: ou há prova de pagamento de propina; ou há um instrumento potencial de chantagem. E mais: se alguém tem cópia desse material, o que está pedindo em troca para não divulgá-lo?

No final das contas, a Noite das Astronautas diz muito mais sobre a nossa política do que qualquer pesquisa eleitoral. Ela comprova que o problema do Brasil não é que seus políticos defendam a família enquanto frequentam orgias pagas por banqueiro preso. Isso é hipocrisia, mas é trivial. O problema é que ninguém — absolutamente ninguém — parece ter achado que havia algo de errado em aceitar o convite.

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