O “acordo de paz” do Irã, ou A esmagadora derrota dos Estados Unidos na guerra contra o Irã – Parte II

Não foi por falta de aviso.

Tal como escrito aqui há pouco mais de três meses, o TACO (Trump Always Chickens Out – Trump sempre arrega) de Trump ao recuar da ameaça de “obliterar” o país persa naquela oportunidade era a prova mais evidente de que a guerra acabara. O que aconteceu de lá até agora foram meras fricções de um conflito que os Estados Unidos já sabiam perdidos. A dúvida era apenas em que condições seria sacramentada a derrota. A julgar pelo que saiu na mídia dos últimos dias, foi muito pior do que o mais pessimista dos americanófilos poderia imaginar.

Desde abril, estava dado que, não importava o que acontecesse ou o nível de “ameaça” do Laranjão aos aiatolás. Na última hora, ele sempre recuaria. Nesse meio tempo, entre ameaças e recuos, Trump e sua galera devem ter ganhado uma boa grana especulando com os ativos nas bolsas de valores, a ponto de até a mais trumpista das emissoras – a Fox News – ter anunciado que o mercado estava sendo manipulado pelas notícias vindas da Casa Branca.

Para além disso, também ficou claro que a “paz” seria negociada nos termos dos iranianos. Como o recuo do Nero Laranja havia deixado claro que os riscos de uma débâcle econômica eram maiores do que o orgulho ferido por não conseguir dobrar o país persa à sua imperial vontade, todo mundo sabia que o Irã iria ditar as condições para que o conflito fosse encerrado. Resta a Trump agora tentar minimizar os danos à sua imagem, coisa que os tweets em letras garrafais até agora foram incapazes de fazer.

A “lógica” por trás do começo da guerra estava errada desde sempre. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, há muito cultivava o sonho de acabar com programa nuclear iraniano. Esse desejo misturava um interesse de segurança genuíno de Israel com um cálculo político doméstico bastante conveniente. Uma vez que Bibi é um ser acossado por escândalos de todos os lados, se ele perder as eleições parlamentares quando a guerra terminar, a cadeia será o seu destino inevitável. Trump, por sua vez, tinha prometido ao eleitorado americano duas coisas: que nunca deixaria o Irã ter a bomba e que, se necessário, mudaria o regime dos aiatolás. O problema, contudo, é que a realidade possui o mau hábito de não se curvar aos desejos do Laranjão.

Do ponto de vista norte-americano, a idéia de “acabar” com o programa nuclear iraniano era de uma estupidez atroz. Afinal, o governo Obama havia conseguido colocar o regime dos aiatolás sob rígido controle internacional quando firmou o JCPOA (Plano de Ação Conjunto Global). Negociado ao longo de dois anos por seis potências mundiais, esse plano estabelecia limites verificáveis ao enriquecimento de urânio iraniano, permitia inspeções internacionais e suspendia sanções de forma gradual. Trump, entretanto, rasgou o acordo em seu primeiro mandato.

Seis anos depois, após uma guerra de mais de 100 dias com resultados militares duvidosos e conturbação econômica incontestável, Trump e os aiatolás assinaram agora um “memorando de entendimento”. Os termos ainda não são inteiramente conhecidos, mas, do que já se divulgou, a conclusão é de que ele consagra uma derrota que seria cômica, se não fosse trágica.

Pra começo de conversa, o programa nuclear iraniano – um dos anunciados objetivos primordiais da guerra – não foi desmantelado. Pelo contrário. Teerã sequer assumiu compromissos imediatos sobre a questão. As negociações nucleares foram adiadas para uma segunda fase a ocorrer somente após sessenta dias, período no qual os diplomatas tentarão encontrar uma esperada solução para o impasse que não apareceu até agora.

Isso, porém, não é o pior. O agora famoso Estreito de Hormuz, por por onde passa boa parte do petróleo mundial, permanecerá sob controle iraniano, talvez com um mecanismo de cobrança de taxas sobre o tráfego marítimo (taxas que não existiam antes). Na prática, os EUA reconheceram a soberania do Irã sobre a passagem. Fora isso, US$ 24 bilhões ativos iranianos congelados serão liberados. Se isso ainda fosse pouco, anuncia-se também um plano de reconstrução de pelo menos trezentos bilhões de dólares a ser financiado pelos Estados Unidos e seus aliados do Golfo. É barba, cabelo e bigode.

Depois de toda a destruição causada, obviamente Trump está a cantar vitória. O Nero Laranja chegou ao cúmulo de alegar que o acordo de agora é “muito melhor” do que aquele firmado por Barack Obama. Acredite nisso quem conseguir argumentar que é melhor trocar um sistema verificável de contenção nuclear por outro, em que se reconhece o domínio persa sobre o estreito de Hormuz, desembolsa-se bilhões de dólares em favor dos iranianos e protrai a discussão sobre o seu regime nuclear para “Deus sabe quando”.

Construiu-se, assim, uma situação esquizofrênica. Milhares de pessoas morreram, danos econômicos e de infraestrutura foram causados em toda a região e no mundo inteiro para, no final, ter-se um regime ainda mais fortalecido do que antes e um programa nuclear cujo futuro ninguém em sã consciência é capaz de prever.

E, se ainda houver alguém que venha a discutir quem de fato ganhou essa guerra, você poderá contra-argumentar o seguinte:

Em qual outra guerra na história da humanidade foi o vencedor quem teve de pagar indenização ao vencido?

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