The Social Dilemma, ou Qual o problema das redes sociais?

Desde a semana passada, estourou na boca do povo uma das mais recentes produção da Netflix. Ao contrário do que o senso comum ditaria, não se trata de um filme de suspense aterrorizante, como Bird Box, ou um épico cheio de estrelas hollywoodianas, do naipe de um O Irlandês. Não, não. Dessa vez, a grande estrela do sistema de streaming mais famoso do momento é – acredite você – um documentário: The Social Dilemma.

The Social Dilemma": O Paradoxo Das Redes Sociais • OBarrete

O tema, claro, não poderia ser mais atual. As redes sociais revolucionaram nossa forma de interação e vêm redefinindo o próprio conceito de relação social desde pelo menos a metade da década passada. Com a pandemia, sua função cresceu exponencialmente, a ponto de, hoje, ser virtualmente impossível encontrar alguém que não tenha um perfil conectado a pelo menos uma delas.

O documentário começa de forma enigmática: “Qual o problema?”, pergunta o locutor à mais dezena de entrevistados que compõem o mosaico do filme. Entre risos sem graça e olhares perdidos para o alto, a pergunta fica em aberto e nunca chega a ser verdadeiramente respondida pelos documentaristas. E vamos sendo apresentados, passo a passo, às entranhas das redes sociais.

O ponto principal de todo o documentário é a estruturação de um sistema que busca uma coisa – e uma única coisa – de seus usuários: a atenção. Através do desenvolvimento de logaritmos e recursos tecnológicos avançadíssimos, as redes sociais elaboram métodos que se destinam não somente a chamar a atenção do internauta, mas, sim, a “viciá-lo” naquilo. A idéia é que uma coisa puxe a outra, de maneira que o sujeito que ia encerrar seu passeio virtual olhe para si mesmo e diga: “Só mais esse…”, ou “Só mais um pouquinho…”

Mas por que tanta tecnologia envolvida na elaboração de mecanismos destinados a, literalmente, prender a atenção do usuário?

É aí que o documentário brilha. “Quando você não paga pelo produto que você está usando, então você é o produto”. Apontando didaticamente o sistema de funcionamento das redes sociais, os documentaristas explicam como o ser humano acabou transformado numa espécie de bem natural do qual redes como Facebook, YouTube e Twitter extraem a grande commodity dos tempos modernos: a atenção.

Por quê?

Porque é através da atenção que você dispensa a determinado conteúdo que os logaritmos das redes sociais conseguem extrair quais são os seus interesses pessoais. E quando alguém que sabe transformar os seus inocentes cliques ou os seus segundinhos preciosos gastos em um vídeo do YouTube em predisposição a compras, viagens ou relacionamentos, o resultado é um só: dinheiro, muuuuiiiitttooo dinheiro.

Até aí, nada de mais, pode estar pensando você. Afinal, a busca pelo dinheiro está presente desde que o mundo é mundo, e o que as redes sociais estariam fazendo não seria muito diferente do que as agências de propaganda fizeram durante todo o século XX, por exemplo.

A questão é que, para alcançar esse objetivo de prender a atenção do usuário, as redes sociais costumam desenvolver instrumentos através dos quais o sujeito fica confinado numa espécie de bolha, na qual ele só tem acesso a quem fala, sente e pensa exatamente como ele. A mimetização do pensamento é a forma mais simples e eficaz de fazer com que o sujeito sempre caia na tentação de dar “só mais um clique”, ou assistir a “só mais um vídeo”. Por que quem iria querer continuar em um lugar onde alguém te contrariasse o tempo todo, não é mesmo?

Não por acaso, o mundo de hoje é o mais dividido, polarizado e instrumentalizado de todos os tempos. No mundo das bolhas virtuais, os fatos são transformados em “narrativa”, e a “verdade” passou a ser apenas uma questão de “opinião”. E dá-lhe teorias malucas como Terra plana, Pizzagate ou a famosa “conspiração globalista do marxismo cultural”, liderada pelo Papa, com auxílio luxuoso dos onipresentes Bill Gates e George Soros. Isso para não falar, claro, do ídolo máximo dos conspiradores internéticos: Leonardo Di Caprio.

The Social Dilemma desenvolve-se de maneira elegante, tratando um tema áspero de forma bastante leve. Em que pese a inteiramente dispensável encenação teatralesca que margeia os depoimentos dos especialistas, o documentário é bem enxuto e não deixa nada a dever aos melhores do gênero. Melhor que isso, traz o depoimento – e, às vezes, o arrependimento sincero – de altos executivos responsáveis por montar essa mesma estrutura cujo uso agora eles recomendam evitar.

“Qual o problema?”, pergunta o documentário.

“O problema é o homem”, conclui qualquer um que o assista.

Abaixo, o trailer oficial do filme, para quem estiver interessado.

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