Um dos problemas mais crônicos da tribo petista é o salto alto. Quando eles acham que a eleição está no papo, tiram aquele salto agulha nº. 15 que estava escondido no fundo da prateleira e começam a desfilar soberba por aí. Tal é a conclusão de quem acompanha ao mais recente imbróglio envolvendo Lula e o Paraguai.
Na sexta-feira passada, durante uma visita à fábrica da Avibras em Jacareí, Lula citou a Guerra do Paraguai para defender investimentos em defesa. Lula começou sua fala dizendo que “Disse que “a gente gosta é de paz”, mas que o Brasil não poderia esquecer que “um belo dia, o Paraguai resolveu invadir o Brasil”.
O Paraguai, que não tinha mexido com ninguém, soltou uma nota de repúdio e convocou o embaixador brasileiro em Assunção. Trata-se de uma crise que veio do nada e que, por ora, deve ir a lugar nenhum. Independentemente dos desdobramentos políticos desse entrevero, trata-se de um bom mote para tentar colocar os pingos nos “is” de uma das coisas mais mal explicadas da historiografia nacional: a Guerra do Paraguai.
Do ponto de vista estritamente factual, Lula estava certo. Em dezembro de 1864, o Paraguai invadiu o Brasil. As forças de Francisco Solano López tomaram a cidade de Corumbá e avançaram sobre a então província de Mato Grosso. Ao mesmo tempo, pediram passagem à Argentina para atacar o Brasil pelo sul. Diante da recusa de Buenos Aires, invadiram também a província argentina de Corrientes. Estava deflagrada a primeira grande guerra do Cone Sul.
Se é verdade que o começo oficial da guerra foi a invasão do Brasil pelo Paraguai, Lula se esqueceu de explicar que, três meses antes, o então “Império do Brazil” interveio militarmente no Uruguai para apoiar o Partido Colorado na guerra civil que desgastava o país. O governo uruguaio, aliado aos Blancos e protegido por Solano López, foi derrubado. Para Solano López, a intervenção brasileira no Uruguai era uma ameaça direta à sua influência na bacia do Prata. O ataque a Corumbá, então, parecia a resposta óbvia. O problema, como diria o Conselheiro Acácio, é que as consequências vêm depois.
Se à primeira vista atacar o país que ele entendia que podia ameaçar sua influência na região parecia lógico, à segunda vista a decisão se revelou estrategicamente suicida. Em 1864, o Paraguai constitua uma espécie de “país-girafa” da América do Sul. Desde a Independência, em 1811, a família López havia construído um Estado com economia controlada pelo governo, sem dívida externa, com estradas de ferro e fábricas próprias. Em um continente rodeado de países – inclusive o Brasil – que viviam da exportação de matérias-primas e deviam até as calças para a Inglaterra, a soberania financeira do Paraguai soava quase como uma afronta.
Após a invasão paraguaia, os três países envolvidos na pendenga – Brasil, Argentina e Uruguai – firmaram um trato de ajuda mútua. Nascia, então, a Tríplice Aliança. Ao longo dos cinco anos seguintes, uma guerra fratricida entre países que deveriam ser irmãos chacinou milhares de pessoas. A incompetência militar e estratégia de ambos os lados prolongou o conflito de uma forma que ninguém imaginava. Quando atacou Corumbá, Solano López imaginava terminar a guerra em poucas semanas. A contenda durou quase seis anos.
As consequências da guerra para o Paraguai foram desastrosas. Estima-se que entre 60% e 70% da população total do país morreu durante o conflito, sendo a maioria esmagadora composta por homens adultos. Cidades inteiras foram destruídas. A economia desapareceu. O território foi amputado em favor do Brasil e da Argentina pelo tratado que se seguiu. O país que existia antes de 1864 simplesmente deixou de existir. O Paraguai que emergiu da guerra era outro país: menor, mais pobre e demograficamente deformado.
Nada disso absolve Solano López. A decisão de arrastar um país inteiro para uma guerra que ele não tinha a menor condição de vencer é uma das maiores catástrofes políticas da história da América Latina. Mas dizer simplesmente que “o Paraguai resolveu invadir o Brasil”, como Lula fez, sem fazer nenhum contextualização, é o tipo de simplificação que a história não costuma perdoar. Nesse ponto, os paraguaios estão mais do que certos em ficarem “Ps” da vida.
Se limitarmos a fala de Lula apenas ao argumento de que imprevistos podem acontecer e que o Brasil tem de estar preparado para eles, beleza. O problema é apresentar uma “releitura histórica” em que o país foi vítima de uma loucura alheia, como se a Guerra do Paraguai pudesse ser reduzida a um teatro entre mocinhos e bandidos. Como regra, a verdade histórica é bem mais complicada e constrangedora do que a política ordinária do dia a dia pretende vender.
A bem da verdade, essa crise diplomática poderia ter sido evitada com algo muito mais barato do que qualquer armamento que a Avibras fabrique. Chama-se “livro de história”. Ele pode ser encontrado nos nos dois lados da fronteira.
Mas, pelo visto, ninguém está interessado em ir atrás dele…