A guerra do Irã definitivamente não fez bem a Donald Trump. Não satisfeito em tretar com meio mundo por conta do estúpido conflito que iniciou no Oriente Médio, agora o Laranjão partiu pra cima de ninguém mais, ninguém menos do que Sua Santidade, o Papa Leão XIV.
De acordo com notícias divulgadas pela imprensa americana, o Nero Laranja teria ficado com raivinha das críticas que o Bispo de Roma pronunciara contra a chacina perpetrada por americanos e israelenses em solo persa. Em “resposta”, o subsecretário de Defesa dos Estados Unidos, Elbrigde Colby, convocou ao Pentágono o núncio apostólico da Santa Sé no país, Cardeal Christophe Pierre.
Noves fora o fato de que a convocação, se devida fosse, deveria ter sido feita pelas vias diplomáticas normais, não pelo Departamento de Defesa, a “mensagem” entregue por Colby ao cardeal Pierre foi o puro suco de arrogância, delírio e ameaça típicas do movimento trumpista: “Os Estados Unidos têm o poder militar para fazer o que bem entender no mundo. A Igreja Católica faria melhor em alinhar-se conosco”. Como desgraça pouca é bobagem, Colby ainda mandou que o núncio transmitisse ao Santo Padre – um cidadão norte-americano de nascimento – um recado nada sutil: se ele continuasse a insistir nas críticas, o governo do Laranjão acionaria o “protocolo de Avignon”.
Para quem não pegou a sutileza da ameaça, o “Papado de Avignon” retrata um dos capítulos mais infames da história da Igreja Católica. Por sete décadas, de 1309 a 1377, a sede papal – que por definição estava estabelecida desde sempre em Roma – foi compulsoriamente transferida para a cidade de Avignon, no sul da França. A violência teve como origem um entrevero entre o Papa Bonifácio VIII e Felipe IV, rei da França. Com egos proporcionais aos seus títulos reais, Felipe IV fez valer seu poderio militar para tentar dobrar a Igreja aos interesses da coroa francesa.
Não bastasse a transferência da Santa Sé para Avignon, Felipe IV exigiu que todos os papas dali pra frente fossem franceses. E assim foi. Com o Sacro Colégio Cardinalício sitiado por tropas gaulesas, de Clemente V a Gregório IX, todos os sumos pontífices eleitos eram franceses. Por isso mesmo, esse período é referido jocosa e ironicamente como “Cativeiro Babilônico da Igreja”.
Em Avignon, o papado, embora centralizado administrativamente e próspero financeiramente (para desespero de muitos que viam nisso simonia e corrupção), operava sob a sombra do poder monárquico, transformando-se, aos olhos de muitos cristãos, em um mero apêndice da política francesa. Essa perda de autonomia e a subsequente crise de legitimidade não apenas geraram o escândalo da ausência papal de Roma, mas também semearam as sementes para o Grande Cisma do Ocidente, quando foram eleitos dois sumos pontífices: um papa em Roma (Urbano VI); e outro, “antipapa”, em Avignon (Clemente VII).
A mensagem transmitida pelo governo dos Estados Unidos, portanto, foi clara como água de bica: se a Igreja não se dobrasse, talvez um “Papado de Mar-a-Lago” pudesse ser arquitetado. A ironia de um império “moderno” flertando com a barbárie medieval para intimidar o sucessor de São Pedro seria cômica, se não fosse trágica.
Para o Laranjão, pode ser que a ameaça fizesse algum sentido. Afinal, Leão é o “novato” que surprendeu os vaticanistas ao ser eleito Papa no ano passado. Como disse Stalin durante a II Guerra Mundial, o Bispo de Roma não dispõe de tropas para impor sua vontade. O Nero Laranja, contudo, esqueceu-se de que a força de um pontífice não vem das armas (que não têm), mas da moral e da força de sua palavra.
Submetido à afronta, ao invés de recuar, Leão resolveu dobrar a aposta. Primeiro, o Papa cancelou a visita de Estado prevista para as celebrações dos 250 anos dos Estados Unidos. Depois, pisando no acelerador, o Papa reiterou sua condenação à guerra, classificando-a como “injusta”. Mais que isso. Tachou as ameaças de inaceitáveis e conclamou os fiéis católicos do país – cuja população tem crescido nos últimos tempos – a “ligarem para os seus representantes no Congresso”, visando a pressionar o governo.
No final das contas, a cruzada de Trump contra o Papa Leão XIV apenas expõe a fragilidade de um governo acuado pelos seus próprios erros. Se o Laranjão precisa recorrer à ameaça militar para prevalecer diante de uma crítica puramente moral, é sinal de que a batalha da comunicação já está completamente perdida.
Enquanto o Nero Laranja tenta reescrever a história eclesiástica com mísseis e ultimatos, o Papa – com a autoridade de quem não tem exércitos, mas tem o poder da palavra – recorda que o poder bélico não compra a dignidade humana, nem silencia a consciência da fé católica. E, por mais que tentem, não há força militar capaz de transformar uma guerra injusta numa cruzada divina. A Igreja, ao que parece, ainda tem a capacidade de rugir.
E este Leão não parece disposto a ser domesticado…