A segunda morte de Sérgio Moro, ou Triste fim de um pretendente a herói da Nação

Da onde menos se espera, daí é que não vem mesmo. Tal é a sensação de quem acompanhou o desenrolar das tramas eleitorais da política paranaense nos últimos dias.

Suposto pré-candidato ao Planalto, o atual governador do Paraná, Ratinho Jr., abriu mão de uma candidatura que nunca chegou efetivamente a decolar para dizer que continua no cargo até o fim de seu mandato. Embora pudesse renunciar ao cargo para se candidatar a senador, por exemplo, Ratinho Jr. preferiu manter sob suas mãos o controle da poderosa máquina estatal.

Dentre tantos fatores que levaram o filho do apresentador Carlos Massa a desistir da corrida presidencial, um certamente foi decisivo: o apoio do PL a Sérgio Moro para concorrer ao Palácio Iguaçu, sede do executivo estadual. Com esse movimento, o ex-juiz da Operação Lava Jato morre para o distinto público pela segunda vez.

A primeira morte – metafórica, apenas para deixar claro – de Sérgio Moro deu-se quando ele renunciou ao cargo de juiz federal para aceitar ser Ministro da Justiça de Jair Bolsonaro. Tendo conduzido com mão de ferro a Lava Jato, prendido o então líder das pesquisas (Lula) e soltado até o vídeo de uma delação fajuta de Antônio Palocci às vésperas da eleição para influenciar o pleito de 2018, já naquela ocasião Moro dera indícios de que sua atuação como magistrado não respeitara princípios básicos do processo judicial, especialmente e sobretudo a imparcialidade que se cobra de um julgador.

No governo, deu-se o desastre que qualquer beócio em política nacional poderia esperar. Com a extrema-direita no poder, Moro viu com quantos golpes se constrói um mito de araque. Na fatídica reunião do dia 22 de abril de 2020, Jair Bolsonaro falou abertamente que não deixaria ninguém f…. a sua família porque não podia trocar o chefe da PF no Rio de Janeiro (que investigava as rachadinhas de Queiroz e Flávio Bolsonaro). “Vai trocar sim! Se não puder trocar, troca o chefe de dele (o diretor-geral da PF)! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro (Moro)!” Para que não houvesse dúvidas sobre o que o então presidente queria dizer, ele mesmo completou: “Não estamos aqui pra brincadeira!”

No dia seguinte, Moro renunciou ao cargo denunciando que a tentativa de mudar o comando da PF no Rio de Janeiro seria uma “interferência política”. Em resposta, de acordo com o próprio Moro, Bolsonaro teria dito “que seria mesmo”. Para denunciar essa interferência e tentar, com isso, impedi-la, o ex-juiz largou o cargo de ministro para, em suas palavras, “preservar a minha biografia”. Em diversas entrevistas posteriores, Moro reiterou as acusações e rejeitou a interferência na PF para que Bolsonaro protegesse o filho das investigações da rachadinha.

Sem emprego na política e tendo abandonado a carreira de juiz, restou a Moro tentar a sorte na política. Como lhe parecesse difícil conseguir os votos de que precisava para se eleger senador pelo Paraná, Moro dobrou a espinha e foi beijar a mão de seu algoz, Bolsonaro. Numa dobradinha trágica, se não fosse infame, Moro aceitou até pagar de coach de Bolsonaro em debates presidenciais. A falta de rigidez na coluna vertebral acabou se pagando, e Moro acabou eleito.

Já tendo morrido uma vez e se humilhado publicamente depois disso, Moro resolveu se matar pela segunda vez. Sem que seu partido (União Brasil) lhe garantisse legenda para concorrer ao governo do estado do Paraná, Moro resolveu correr para os braços de quem? Justamente o estopim da sua ruidosa saída do cargo de ministro da Justiça: Flávio Bolsonaro. Como humilhação pouca é bobagem, Moro aceitou até mesmo mudar-se para o partido do 01, o PL, presidido pelo notório Valdemar da Costa Neto, condenado por corrupção no processo do Mensalão.

Agora, o ex-magistrado – que fez fama e carreira como combatente da corrupção – é integrante de um partido presidido por um ex-mensaleiro e vai apoiar alguém envolvido em rachadinhas, cujo pai – segundo ele mesmo – tentou interferir na Polícia Federal para impedir que os delitos fossem investigados. Não se pode dizer sequer que essa seja uma morte horrível, porque morto Sérgio Moro já estava. Não era necessário, porém, cuspir na lápide, matando-se uma segunda vez.

Para quem um dia pretendeu ser o “herói nacional” que “passaria o Brasil a limpo”, Sérgio Moro caminha a passos largos para se tornar o caso mais emblemático de como desconstruir uma imagem de sucesso. O rebranding de Moro, contudo, não deve durar muito. Hoje, ele não engana mais ninguém. Talvez, quem sabe, só o próprio espelho. Ao que tudo indica, ele ainda insiste em refletir a imagem de quem acredita na própria fantasia.

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