Imbróglio Master, ou Tutti buona gente

Quando os italianos querem se referir de forma irônica a gente bem apessoada, mas que, digamos, têm valores questionáveis, eles costumam recorrer a um velho ditado que começa dizendo o seguinte: (Sono) Tutti buona gente – no vernáculo, “(são) todos gente boa”. Com as últimas revelações desta semana, é impossível observar o caso do escândalo do Banco Master e não se recordar do pessoal do Bota

Na terceira fase da Operação Compliance, o Ministro André Mendonça autorizou a PF a dar várias batidas na turma que operava o esquema de pirâmide do Master. Além do já conhecido esquema bilionário de fraudes contábeis, descobriu-se coisa muito pior. Ao melhor estilo Cosa Nostra, Daniel Vorcaro não era somente um trambiqueiro que descobrira no FGC uma fórmula mágica através da qual ficaria bilionário. Ele comandava também uma verdadeira máfia napolitana.

Intitulado “A Turma”, um grupo de WhatsApp do celular de Vorcaro não indicava a reunião da galera do colégio ou do pessoal do trabalho que gosta de tomar um chopp gelado no happy hour. Na verdade, tratava-se da reunião de uma série de escroque destinados a investigar, perseguir e ameaçar qualquer um que se colocasse no caminho do dono do Master. Se necessário, na base da porrada, como ficou claro nos diálogos em que Vorcaro sugere a um de seus comparsas forjar um assalto para “dar um pau” no jornalista Lauro Jardim, d’O Globo, quebrando-lhe todos os dentes. Pra piorar, as investigações já indicam que o grupo tinha acesso indevido a sistemas sigilosos da PF, da Justiça e do Ministério Público.

Travestida de agressão a um “inimigo” estava a idéia evidente de atacar a liberdade de imprensa. No entanto, enquanto a maioria da população esperaria de um banqueiro bilionário a sofisticação de um vilão dos filmes de James Bond, Vorcaro entregou a incompetência de uma estratégia baseada no pensamento de um chefe de quadrilha de subúrbio. O destinatário da ordem para quebra os dentes de Lauro Jardim era Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, carinhosamente apelidado pelo sugestivo nome de Sicário, um termo polido para designar o que no português de botequim chamaríamos de “assassino de aluguel”.

O problema de Sicário não parou por aí. Preso pela Polícia Federal, Mourão teria se suicidado com uma camisa dentro da cela. As circunstâncias ainda não esclarecidas dessa morte levantam a possibilidade não negligenciável de que Sicário, ao invés de ter se matado, tenha sido suicidado. E daí a pergunta é incontornável: que segredos terá ele levado para o túmulo?

Nessa altura do campeonato, o deslumbramento nouveau riche de Daniel Vorcaro, com sua conduta miliciana/mafiosa, já deixou a periferia dos guetos criminais e entrou com toda pompa e circunstância nos principais salões de Brasília. Na decisão em que determinou sua prisão, o ministro André Mendonça fez questão de anotar que o esquema havia atingido o “alto escalão da República”. Quão alto está esse escalão? Só as investigações poderão dizer.

Preso e sem perspectiva de ser liberado por algum habeas corpus providencial de alguma corte interior – como aconteceu quando foi preso da primeira vez -, a carta da delação premiada parece ter entrado definitivamente no baralho da defesa de Daniel Vorcaro. Quem eventualmente poderia defendê-lo está exposto demais para tentar alguma coisa agora. Soltá-lo agora, ainda mais depois de tudo que foi revelado, representaria a desmoralização suprema do sistema de justiça do país.

Quando se olha a agenda de contatos de Daniel Vorcaro, dá pra se ter uma idéia do tamanho da “rede de proteção” que o banqueiro mafioso montou em torno de si. Além de no mínimo duas dezenas de deputados, há referências a encontros com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, e com o presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre. Isso, claro, para não falar da estranhíssima ligação de fundos do Master com o agora famoso “resort” Tayayá, que pertencia à família do ministro Dias Toffoli, e ao contrato do banco com Viviane Barci, mulher do ministro Alexandre de Moraes.

Com nível de envolvimento até agora exposto, o caso Master começa a ecoar os antigos fantasmas da Lava-Jato. Mesmo tendo destrinchado uma teia de corrupção (a das empreiteiras), que chegou ao Brasil junto com as caravelas de Cabral, a Lava-Jato acabou caindo em desgraça quando se soube da “parceria” entre o Ministério Público de Deltan Dallagnol e do ex-juiz Sérgio Moro. Depois da vaza-jato, o intuito político da operação ficou evidente, e tudo que se escreveu depois disso foi epitáfio. A diferença é que, na Lava-Jato, o alvo final eram os políticos e o palco era em Curitiba. Agora, o palco é em Brasília e, além dos políticos de sempre, a própria Corte também é alvo da operação.

Resta saber se a “Turma” de Vorcaro vai preferir o silêncio ou se vai abrir o verbo. Caso opte pelo trombone, a questão será saber se o “terrivelmente evangélico” André Mendonça seguirá uma linha técnica, para não macular a operação com acusações de parcialidade, ou se vai deixar tudo cair na vala comum dos embates políticos.

Seja como for, a única certeza é que o pau vai quebrar, e não serão os dentes de jornalistas que vão voar. Afinal, como diz o ditado italiano, (sono) tutti buona gente, ma tutti ladri – (são) todos gente boa, mas todos ladrões.

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