Aproveitando o relativo marasmo no cenário político nacional e internacional, vamos retomar a vocação desse espaço para mais um momento cultural.
Todo mundo conhece mais ou menos a história da Guerra de Tróia. Mesmo quem não leu a Ilíada já ouviu, nem que seja de orelhada, a história de amor que acaba levando à perdição dessa cidade mitológica. Numa guerra em que até os deuses desceram para ir pro pau, são tantos os momentos memoráveis que certos aspectos, por assim dizer, laterais, acabam passando despercebidos. De boca em boca, muita coisa se perde e não chega ao conhecimento de quem não teve a oportunidade de ler a obra-prima de Homero. Dentre essas coisas que acabam se perdendo no tempo, provavelmente nenhuma é mais trágica e irônica do que a maldição de Cassandra.
Filha de Príamo e Hécuba, os soberanos de Tróia, Cassandra se torna sacerdotisa do tempo de Apolo. Supostamente fascinado com a beleza da moça, Apolo – que, como todo bom deus grego, era terrivelmente mulherengo -, ofereceu o dom da profecia em troca dos “favores” da moça. Cassandra topa o “acordo”, mas, na hora H, nega fogo.
Tomado pelo ódio após a rejeição inesperada, Apolo resolve lançar uma maldição à princesa de Tróia. Ao invés de simplesmente negar o que prometera, Apolo resolve conceder a Cassandra o dom da profecia. Há, contudo, um porém. Ao conceder a capacidade de profetizar o futuro, Apolo cuspiu (eca!) na boca da moça. Resultado: Cassandra conseguiria prever o futuro, mmmaaaaassss… ninguém acreditaria no que ela dissesse.
A vingança de Apolo, como se vê, não foi somente irônica. Foi cruel, mesmo. Imagine-se na situação de ver um desastre futuro, tentar de todas as formas alertar as pessoas à sua volta de que o mal vai acontecer, mas, mesmo assim, ninguém lhe dá ouvidos. O paradoxo de saber de tudo, mas ser recebida com silêncio ou descrença transforma o “dom” de Cassandra numa verdadeira tortura. A pitonisa torna-se portadora de uma verdade inútil. Afinal, por mais que lute, ninguém vai fazer nada para mudar o destino que ela vê desenhado à sua frente.
Como esperado, a maldição de Cassandra volta-se não somente contra ela própria, mas contra a cidade da qual ela se originava. Ao ver que os gregos haviam “presenteado” os troianos com um colossal cavalo de madeira, em um sinal de “paz” fingindo uma retirada, Cassandra grita desesperada alertando para a farsa dos gregos. Na sua visão, ela enxerga tanto os soldados dentro do cavalo como Tróia em chamas.
Mas não adianta nada.
Ao invés de darem ouvidos a Cassandra, Príamo e seus irmãos a tratam como uma doida lunática, uma espécie de “ave de mau agouro”, quase ridicularizada. Cansados de tanto tempo de guerra – na Ilíada, a guerra de Tróia dura dez longos anos -, os troianos pegam o cavalo às portas da cidade em um misto de alívio e euforia. A tragédia, portanto, não era que ninguém acreditasse nela. A tragédia era que, ao não acreditarem, tornavam suas profecias realidade.
Depois de trazerem o “presente” para dentro de Tróia, o resto da história é conhecido: os soldados saem do ventre do cavalo, abrem os portões para o exército grego e a cidade é destruída. Embora a história do cavalo de Tróia seja contada na Eneida, de Virgílio – na obra de Homero o cavalo não é citado sequer en passant -, é na Ilíada que a maldição de Cassandra é originalmente formulada.
Como depois da queda vem o coice, Cassandra é tomada como escrava e concubina de Agamenon, o rei dos gregos. Em vão, ela tenta alertá-lo de que ambos serão mortos pela esposa de Agamenon, Clitemnestra, quando chegarem a Micenas. Mais uma vez, o alerta de Cassandra é recebido por ouvidos moucos. Cansada, ela já nem se estressa mais com a própria situação. Tendo visualizado a própria desgraça um milhão de vezes em sua cabeça, ela caminha resignada em direção à morte.
A tragédia construiu um mito tão forte que a fama da princesa troiana tornou-se atemporal. Até hoje, nas ciências, na economia, na política e até na psicologia, a “maldição de Cassandra” é lembrada àqueles visionários que prevêem catástrofes, mas que, mesmo assim, são recebidos com descrédito ou indiferença. E, de certo modo, ela conduz também a uma inquietante reflexão:
É mais doloroso ignorar o que vem no futuro? Ou será ter noção do porvir e nada poder fazer a respeito?