Depois de um longo período ausente, finalmente este que vos fala pôde deslocar-se até o cinema mais próximo para quitar sua dívida com Kléber Mendonça Filho. Porque é simplesmente inadmissível que um amante da Sétima Arte, pernambucano ainda por cima, não tivesse ainda assistido a O Agente Secreto.

Para quem ainda não teve o privilégio de assistir a essa obra-prima, o enredo já foi mais ou menos divulgado nos grandes veículos de mídia. Sem dar nenhum spoiler, Wagner Moura é um professor da Federal de Pernambuco que fugiu do Recife. Regressa na moita à capital pernambucana para fugir novamente, dessa vez levando consigo o filho, órfão da mãe. Sabe-se que agentes da ditadura o perseguem, mas ninguém sabe exatamente o porquê.
De maneira proposital, o diretor Kléber Mendonça Filho deixa várias pontas soltas no começo do filme, justamente visando a amarrá-las no desenrolar da trama. Seguindo uma lógica temporal não linear – mais ou menos como Tarantino fez em Pulp Fiction – o filme exige do espectador atenção redobrada para não se perder no meio da história.
É possível perceber em O Agente Secreto todos os elementos da cinematografia de Kléber Mendonça Filho, inclusive e especialmente aquelas relacionadas à sua orientação ideológica. Quem procura a oposição da ciência ao capital vai encontrar. Quem está em busca do preconceito do Sudeste contra o Nordeste também vai. E quem procura crítica política e social – em todos os seus aspectos – certamente não se decepcionará com as quase três horas de experiência cinematográfica,
Talvez por ter feito tantas escolhas inusuais, muita gente boa não entendeu exatamente sobre o que é o filme. Pedro Doria, por exemplo, criticou Kléber Mendonça Filho por retratar uma “ditadura” que não existiu. O jornalista refere-se aos pendores estatizantes do General Ernesto Geisel, supostamente contraditórios à narrativa do filme. O que Doria e muitos outros não entenderam, contudo, é que nenhuma das histórias contadas em O Agente Secreto tem vida própria. Melhor explicando: no fundo, o filme é uma história sobre o Recife.
Ao contrário da maioria dos filmes, nos quais a(s) cidade(s) desempenha(m) basicamente o papel de locação, em O Agente Secreto a capital pernambucana é a grande estrela da produção. Não se trata de escolher uma cidade aleatória para, dentro dela, contar uma história principal (a da personagem de Wagner Moura) e um monte de outras histórias paralelas. Não. O que Kléber Mendonça Filho quis fazer foi usar essas histórias como pano de fundo para contar a história da cidade onde ele nasceu.
O sogro da personagem de Wagner Moura, por exemplo, chama-se Alexandre e é projecionista de um cinema antigo. Alexandre também era o nome do projecionista mais antigo do Recife, que trabalhava em outro cinema e foi objeto do TCC de um então formando em jornalismo da UFPE Kléber Mendonça Filho. Da mesma forma, a lenda da “perna cabeluda” – uma sátira jornalística criada para criticar a censura aos jornais – serve para recompor o ambiente da época da ditadura.
Nesse sentido, é possível entender como casos tão díspares no tempo como a morte do menino Miguel e os ataques de tubarão na orla da capital pernambucana possam ter se reunido numa mesma película. Kléber Mendonça Filho pincela circunstâncias e episódios temporalmente distintos, porém marcantes, para compor um grande mosaico da cidade que o diretor conheceu e vivenciou ao longo da sua trajetória. No final das contas, é como se, por trás de cada cena, O Agente Secreto trouxesse um easter egg sobre o Recife.
Claro que, para quem não acompanhou ou não conhece a fundo a história da cidade, o filme pode parecer um pouco sem sentido e com “sequências não explicadas”. Mas, para quem conhece a fundo a capital pernambucana, a genialidade de Kléber Mendonça Filho salta aos olhos.
A essa altura do campeonato, é difícil dizer quais são as chances do longa no Oscar. Porém, as quatro indicações – igualando o recordista brasileiro Cidade de Deus – já são motivo de orgulho e comemoração. Trata-se de um filme perfeito, muito bem acabado e produzido, que coloca a outrora gloriosa capital da capitania de Pernambuco onde ela merece: no lugar mais alto do palco. Como diria Wagner Moura ao receber o Globo de Ouro, viva a cultura brasileira!
E viva o Brasil!