15 anos Dando a cara a tapa – Semana especial de aniversário: O mundo em 2026

Encerrando esta semana comemorativa desta década e meia de Dando a cara a tapa, vamos ver o que Blog espera para o mundo neste novo ano.

Como de hábito, analisar o contexto geopolítico do mundo implica, necessariamente, entender o que se passa na Roma dos nossos tempos. Tendo eleito um carbonário, que transita perigosamente entre uma versão moderna de Calígula e outra de Nero, os norte-americanos não tocaram fogo apenas no seu próprio parquinho. Tocaram fogo no mundo inteiro. Embora muita gente boa dissesse – com um certo grau de desconexão da realidade, que misturava a um só tempo ingenuidade e devaneio – que “não seria nada daquilo”, pois Trump iria “moderar”, um ano de Laranjão 2.0 parece ter sido suficiente para desfazer todas as ilusões. Ele não só está fazendo o que havia prometido, como está fazendo coisa muito pior.

Depois de ter dado início a uma guerra tarifária inconstitucional e sem sentido contra o resto do mundo, Trump decidiu investir contra a própria ordem mundial. Desmontando todos os sistemas de governança mundiais que, bem ou mal, levaram o mundo ao maior período sem grandes guerras em mais de 500 anos, o Nero Laranja resolveu acabar com qualquer resquício de relações internacionais baseadas em regras. Daqui pra frente, na visão de Donald Trump, só uma coisa prevalece: a força bruta.

Logo no alvorecer deste ano, Trump mandou sequestrar Nicolas Maduro. Ninguém contesta que Maduro era um ditador ilegítimo, que fraudou o resultado das últimas eleições para permanecer no poder. Mas daí a admitir que um outro país invoque uma espécie de “jurisdição universal” para invadir uma nação soberana e levar à força o seu chefe de Estado vai uma grande distância. Para além da duvidosa acusação de que Maduro realmente liderasse um cartel de drogas, se alguém deveria julgá-lo seria a justiça venezuelana ou, na pior das hipóteses, o Tribunal Penal Internacional, não uma corte qualquer nos Estados Unidos.

A coisa fica ainda mais cínica quando se observa que, do ponto de vista prático, nada mudou na ditadura venezuelana. Os mesmos chavistas que controlavam o país antes continuam controlando-o agora. Aliás, a facilidade com que Maduro foi levado embora e a “parceria” da sua vice com o governo sequestrador de Trump denunciam que, muito provavelmente, houve um acordo de bastidores entre o chavismo e os americanos: “Vocês me entregam o petróleo e eu me comprometo a não acabar com a ditadura de vocês”. Coincidência ou não, desde o sequestro de Maduro não se ouviu mais falar em navios com “narcotraficantes” sendo bombardeados pelas forças navais dos Estados Unidos.

Empoderado pelo fato de que ao sequestro de Maduro não lhe sucedeu nada (nem sequer uma reprimenda digna de nota dos “aliados” do chavismo China e Rússia), Trump parece ter se sentido liberado para fazer o que lhe desse na telha. Daí o recente avanço agora contra a Groenlândia. Território dinamarquês há mais de três séculos, a ilha gelada agora está literalmente envolvida numa disputa de conquista entre a terra de Hamlet e os Estados Unidos.

Do ponto de vista lógico, a disputa não faz sentido. Trump argumenta que a ilha é necessária para a segurança nacional dos Estados Unidos. Ainda que isso fosse verdade, um tratado firmado pelo governo Truman com a Dinamarca em 1951 já concede aos Estados Unidos o direito de instalar bases e equipamentos militares na Groenlândia, sem que para isso seja necessário tornarem-se senhores de direito daquela terra. Se o problema fosse econômico, os dinamarqueses já deixaram claro que não se oporiam a que os ianques explorassem as terras raras da ilha. Nesse contexto, a questão da Groenlândia parece resumir-se a uma disputa de War para o Nero dos nossos tempos (conquiste 24 territórios à sua escolha).

Esse “redesenho” da ordem mundial para retroceder quase dois séculos no tempo para voltarmos à época dos impérios, em que o mundo era dividido em zonas de influência. Até onde a vista alcança, do Atlântico para a esquerda todo mundo estaria sob jugo dos Estados Unidos. Na Ásia, caberia à China tomar conta do pedaço. A Rússia, nesse contexto, estaria liberada para enxergar com olhos gulosos a Velha Europa. Não por acaso, os antigos “aliados” europeus estão em pânico, espremidos numa guerra em duas frentes: ao leste, pela Rússia (que ataca a Ucrânia); e a oeste, pelos Estados Unidos (que querem tomar a Groenlândia).

A situação, portanto, é complicada para o mundo. No concerto das nações, ninguém ainda se aventurou a encarar a besta-fera de frente. As duas potências que eventualmente poderiam fazê-lo – Rússia e China – não só não tem disposição para isso, como, ainda, estão a calcular quanto ganharão com esse rearranjo das placas tectônicas. Se não há mecanismos de freio a nível internacional, quem poderá frear o Nero dos nossos tempos?

Só os próprios norte-americanos. Dois fatores podem mudar a balança de poder da Roma dos nossos tempos:

O primeiro deles é a Suprema Corte. Em algum momento, the highest court on the land vai ter de decidir sobre a ilegalidade das tarifas impostas por Trump. Como dificilmente haverá argumento que sustente que o presidente pode contornar a competência constitucional do Congresso para tributar comércio exterior, a Suprema Corte pode quebrar uma das pernas sobre as quais se assenta o regime neofacista do Laranjão.

O segundo fator são as midterms. Hoje, o Partido Republicano controla as duas casas do Congresso. Essa maioria dá ao Nero dos nossos tempos tranquilidade suficiente para tacar fogo onde quiser sem risco de sofrer impeachment. Caso perca a maioria na Câmara (mais provável) ou no Senado (menos provável), o dique de proteção congressual estará rompido. Daí pra frente, poderemos assistir a um declínio lento, gradual e inevitável do poder de Trump.

O problema é que ninguém sabe quando a Suprema Corte vai soltar sua decisão no caso das tarifas e as midterms só acontecem em novembro. Até lá, portanto, grandes emoções nos esperam.

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