Bolsonaro preso, ou A batalha pela sucessão na direita

Bolsonaro está preso. Sem choro nem vela, Jair enfrenta agora a dura realidade da qual sempre se esquivou a vida toda: está sendo responsabilizado pelos seus atos. Tudo bem que boa parte dos crimes que ele cometeu, dos quais a trágica “gestão” da pandemia é talvez o exemplo mais infamante, ainda não foram punidos. Mas não há como negar o avanço histórico e civilizacional de prender-se um ex-presidente que tentou dar um golpe de Estado.

Desviando da óbvia casca de banana do local da prisão, Xandão fez o certo: mandou Bolsonaro curtir a cana dura nas dependências da Polícia Federal em Brasília. Embora não exista em parte alguma do Código de Processo Penal uma disposição que garanta a ex-mandatários o privilégio de não serem enviados a um presídio comum, o fato é que a “jurisprudência Lula” tornou essa resolução quase incontornável. Caso Alexandre de Moraes o tivesse enviado para a Papuda, no dia seguinte os chiliquentos integrantes da extrema-direira bolsonarista estariam vociferando contra a “perseguição” a Bolsonaro, sustentando o argumento na diferença de tratamento entre as duas figuras.

Com Jair fora de circulação, começa agora a batalha pelo espólio do defunto. Apesar de seu líder máximo estar preso e ter feito o favor de humilhar-se publicamente ao tentar romper a tornozeleira eletrônica amarrada à sua perna com um ferro de solda, o fato é que o bolsonarismo ainda permanece vivo na sociedade. Minoritário, como sempre foi, mas ainda com votos suficiente para fazer-se cortejado por quem milita no espectro oposto ao PT no panorama político.

De um lado, tem-se a família Bolsonaro. Descartando-se o “menudo” Jair Renan, que ainda não tem idade para concorrer, restam como opções a substituto do patriarca da família como candidato a presidente: a esposa, Michelle; e os filhos 01 (Flávio), 02 (Carluxo) e 03 (Bananinha).

Descarte-se, por óbvio, a esposa. Não é que Bolsonaro confie apenas na sua família. Ele confia apenas na sua família de sangue. Para além da sua histórica misoginia (alguém imagina por aí Bolsonaro “batendo continência” para uma mulher?), o ex-presidente traz consigo uma paranóia atávica em relação a ser traído. Por isso mesmo, só quem compartilha dos seus genes pode, ao menos em tese, gozar da sua plena confiança.

Descarte-se, também, Carluxo e Bananinha. O filho 02, famoso nas redes pelos tweets escritos em português randômico, dos quais ninguém consegue entender coisa nenhuma, nunca foi conhecido pela capacidade de articulação. É reconhecidamente misantropo e já brigou com meio mundo de aliados quando o pai era presidente. Imagina agora, com Bolsonaro na cadeia.

Já Dudu Bananinha, coitado, cuidou de cavar a própria cova ao trabalhar pelas sanções de Donald Trump contra o Brasil em busca de uma “anistia” para os golpistas. Acabou conseguindo o que queria, mas – surpresa! – o resultado foi o exato oposto do que ele esperava. Não só o processo contra os golpistas não parou, como ele mesmo agora é réu por tentar coagir os ministros do Supremo no curso do processo. Salvo uma daquelas reviravoltas que só acontecem aqui no Brasil, é difícil imaginar que o filho 03 volte a pisar em solo brasileiro tão cedo.

Sobraria, em tese, Flávio Bolsonaro. O mais velho e mais articulado da prole do ex-presidente, Flávio tem contra si o longo histórico de rachadinhas comandadas pelo faz-tudo da família Bolsonaro: Fabrício Queiroz. É difícil imaginar que Flávio consiga sobreviver à artilharia pesada que o PT costuma empregar em campanhas presidenciais. Se até Marina Silva, que nunca roubou sequer uma pétala de uma rosa caída, foi destroçada pela máquina de moer petista em 2014, imaginem só o que aconteceria com o filho 01 de Bolsonaro em semelhante situação.

Restaria, então, olhar para fora da família Bolsonaro. E é aí que entram os “governadores de direita”. Empilhados juntos como se fizessem parte do mesmo pacote, Tarcísio de Freitas (SP), Romeu Zema (MG), Ronaldo Caiado (GO) e Ratinho Jr (PR). Desses, Tarcísio é tido como o mais promissor. Do ponto de vista lógico, portanto, a solução estaria dada: Bolsonaro aponta Tarcísio como sucessor, Tarcísio promete indultá-lo caso eleito e todo mundo embarca junto nessa.

O problema é que, se Bolsonaro não confia sequer na sua mulher para dar seguimento ao seu “legado”, que dirá em gente que não é sequer membro da família. O velho medo da traição fala ainda mais alto quando o assunto é transferir o seu espólio eleitoral a legatários que não compartilham os mesmos laços de sangue.

Se isso não fosse o bastante, ninguém sabe ao certo como funciona, na intimidade, a dinâmica da família Bolsonaro. Não se sabe, por exemplo, se o pai manda nos filhos ou se são os filhos que mandam no pai. E, nesta última hipótese, qual filho manda mais ou decide especificamente sobre o quê. Em qualquer dos cenários, a única certeza é de que qualquer acordo dessa natureza terá de, necessariamente, passar por uma “garantia de proteção” – inclusive a nível eleitoral – do ungido pela extrema-direita aos filhos. Se houver a mínima dúvida de que Tarcísio ou outro que o valha deixará qualquer dos filhos ao relento caso seja eleito, isso seria suficiente para barrar qualquer acordo de transferência de “patrimônio eleitoral”.

Como se vê, apesar de boa parte de “o mercado” e da grande imprensa estar tentando por osmose fazer de Tarcísio de Freitas o adversário de Lula nas eleições de 2026, o cenário é bem mais complexo do que parece. Muitas questões de bastidores ainda teriam de ser resolvidas, inclusive e especialmente o fato de que, se sair candidato, Tarcísio de Freitas estará dando all in em sua carreira política. Se perder, ele não só perderá a eleição presidencial, mas, também, deixará de ser governador de São Paulo.

Terá ele disposição e coragem para fazer isso?

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