Nunca teve muita paciência, mas depois que assumiu um cargo de gerência numa grande empresa, a pouca que tinha deixou de existir. Não só as atribulações do cargo o estressavam em demasia, mas também porque a posição que o sujeito ocupava estava situada justamente no meio da hierarquia, de modo que o cidadão ficava no fogo cruzado entre o chão da fábrica – que exalava ódio – e o topo da cadeia alimentar – que ostentava preconceito e arrogância. Sua máxima, contudo, era a seguinte: se tiver que bater, bata pra cima (pois pra baixo seria covardia). Como bom pernambucano, o lema era seguido à risca.
Certa feita, como houvesse dúvidas sobre a implementação de uma nova metodologia de produção dentro da fábrica, o sujeito tirou um tempo para produzir uma espécie de cartilha, na qual iam detalhadas todas as formas de produzir as coisas que aquela fábrica produzia, assim como resolver os eventuais perrengues que se apresentassem. Duas reuniões com a galera da ponta, que de fato metia a mão na massa, foram suficientes para passar a mensagem adiante. O problema, óbvio, estava com a galera acima dele.
Com a ciumeira típica de quem se sente ultrajado por ver alguém “abaixo” de si fazendo mais e melhor do que ele mesmo, um diretor da empresa resolveu interpelar o sujeito. Utilizando o correio eletrônico interno, lá vem aquele verdadeiro memorial, com duzentas mil laudas, explicando por A + B por que o sujeito fizera cagada ao elaborar aquela planilha. De fato objetivo mesmo, nada. Nem uma só linha afirmando que as orientações elaboradas na cartilha estavam de alguma maneira equivocadas.
E foi justamente aí que o sujeito resolveu se pegar. Sabendo que não havia nada que justificasse objetivamente a retirada ou a alteração da cartilha que elaborara, o sujeito respondeu a comunicação interna direto e reto:
“Certo, Fulano, mas você pode apontar alguma questão específica que motive a revisão da cartilha?”
Foi como jogar gasolina no fogo. Se o orgulho do diretor já estava ferido com a criação da cartilha em si, que dirá ao receber uma resposta malcriada como essa? Como forma de vingança – e também para massagear o próprio ego – o diretor escreveu uma réplica. Apegou-se a uma picuinha qualquer do texto e apontou o que, no entender dele, seria uma imprecisão da nova metodologia.
O autor do texto não se abespinhou. Usando o pouquinho de paciência que lhe restava, respondeu à dúvida em um português correto e educado, explicando a razão pela qual a pergunta não fazia sentido.
O diretor não se deu por achado. Insistiu na “dúvida”, respondendo à resposta com praticamente o mesmo texto de antes. O tom da mensagem, entretanto, subira de patamar, tanto no vocabulário empregado quanto no uso excessivo de exclamações e interrogações (“!?!?!?!”).
Sem se dar ao trabalho de tentar explicar novamente o explicado, o cidadão respondeu nos seguintes termos:
“Sr. Diretor, peço desculpas pela minha falha de comunicação. Se soubesse que o senhor era analfabeto, eu teria desenhado”.
E foi assim que, na lata, o sujeito encerrou essa contenda epistolar…