Parente é uma coisa engraçada. A gente nasce cercado deles, mas ninguém quer passar o tempo todo rodeado por eles. Com o tempo, a seleção natural darwinista das relações sociais acaba por “filtrar” a parentada, reduzindo o círculo íntimo a alguns poucos, tal como acontece com a maior parte das nossas amizades. A regra, contudo, vale apenas para tios, primos e agregados. Pais, irmãos e avós vão te acompanhar para o resto da vida, quer você queira, quer não. Foi o que Michael acabou por descobrir ao final da adolescência.
Morando no Recife com sua mãe, Michael não apitava praticamente nada na casa. A única coisa menor que a sua conta bancária era sua barba, ainda rala mesmo para padrões adolescentes. Nessa condição, teve de engolir em seco a visita de seu avô, Raul, pai da sua mãe e responsável direto pela casa onde viviam, doada pelo avô quando durante a época das vacas magras (naquela altura, as vacas já haviam morrido).
Não que o avô fosse propriamente uma figura incômoda, que fique claro. Mas todo ser humano, quando envelhece, sofre um processo natural de desligamento dos mecanismos de self restraint que costumam acompanhar os adultos. Pudera. Depois de ter experimentado tudo na vida, o idoso não está mais nem aí para o que acham dele. No limite, danem-se os incomodados. E era exatamente assim que Raul vivia, com gosto, a sua terceira idade.
Como o telefone de casa estivesse com problemas, Michael acionou a companhia telefônica para tentar saber o que se passara. Quando os dois técnicos chegaram à sua casa, o avô havia se sentado à mesa de jantar, com um notebook na mão e um par de auscultadores nas orelhas. A tela estava posicionada de costas para a sala de estar, de modo que, quem estava nela, não tinha como saber o que o velho Raul estava assistindo no computador. A má colocação do conector dos fones de ouvido no buraquinho correspondente do laptop acabou por denunciá-lo às visitas:
“Aaaaahhhhhhh!!!! Yyyyyeeeeeaaaahhhhhh!!! Aaaaahhhhhhh!!! Come on!!!!”
Michael não sabia onde enfiar a cara. Os técnicos da telefônica mal conseguiam conter o riso. Mesmo assim, profissionais que eram, deram sequência ao atendimento da ocorrência. Dois minutos depois, Raul levantou suavemente uma das pernas da cadeira e, inclinado, produziu um barulho audível até do apartamento vizinho:
“TTTTTTTTRRRRRRRRRRAAAAAAAAAHHHHHHHH!!!”
O efeito foi imediato. Em poucos segundos, um odor que somava a um só tempo enxofre e metano empesteou completamente o ambiente. Os técnicos não puderam mais conter o riso e se limitaram a cobrir o nariz com as próprias fardas, numa vã tentativa de se salvarem daquela imersão temporária no cheiro do inferno. Michael, coitado, apenas pediu desculpas com os olhos.
E foi assim que ele descobriu que nada está tão ruim que não possa piorar…