Uma vida de arrependimentos

“Não me arrependo de nada”, dizem onze em cada dez influencers no Instagram ou no YouTube. Reciclando uma moda que vem desde os famigerados livros de auto-ajuda, os promoters da “vida perfeita” costumam renegar os próprios erros cometidos durante suas jornadas, estimulando seus seguidores a fazerem o mesmo. Mal sabem eles que esse pode ser um dos maiores erros que alguém pode cometer na vida.

Pra começo de conversa, deve-se deixar bem claro o que se entende por “arrependimento”. Sim, porque os arrependimentos podem vir mesmo nos pequenos sucessos do nosso dia-a-dia. Um sujeito que tenha acertado a quina da Mega-Sena provavelmente ficará arrependido por não ter escolhido “corretamente” o sexto número, olvidando-se de que acertou os outros cinco que compunham o prêmio. Embora se trate de algo completamente aleatório e alheio à sua vontade, é bem possível que, nessas circunstâncias, o sujeito amargue a “perda” do prêmio pela Sena do que comemore o acerto da Quina. “Arrependimento”, portanto, é a reação através da qual o nosso cérebro faz uma viagem no tempo e pensa: “Puxa, eu teria feito determinada coisa de modo diferente”.

Que todo mundo já passou ou ainda vai passar por semelhante situação, coisa é que não causa espanto ou admiração. Afinal, só quem pulou diretamente da infância para a vida adulta, sem passar antes pela adolescência, pode presumir que não tenha pisado na bola pelo menos uma vez por semana (em alguns casos, a frequência é maior). A questão, aqui, não é tratar exatamente do erro, mas de como o sujeito deve lidar com ele.

Talvez a melhor forma de se compreender um arrependimento seja compará-lo a uma ferida. A ferida será tão mais profunda quanto pior for o erro cometido. Todavia, se o sujeito isola o ferimento e começa a tratá-lo, eventualmente a ferida sarará e você poderá seguir em frente com a vida. A ferida deixará uma marca, como todas as outras, mas dificilmente será percebida por outra pessoa. Mas se, ao revés, o sujeito prefere ficar remoendo o erro ou, pior, fingir que ele não aconteceu, a ferida permanecerá lá, doendo e incomodando, até o ponto em que, mesmo curada, deixará uma cicatriz imediatamente perceptível a quem quer que seja. E é aí que a porca entorta o rabo.

As pessoas que renegam os próprios erros e saem por aí arrotando que “não se arrependem de nada” costumam ignorar que as marcas que carregamos conosco normalmente transparecem para quem convive conosco. E esse transparecer não indica necessariamente algo físico, mas algo que sobretudo se revela nos nossos gestos ou mesmo no modo de pensar. Um homem ou uma mulher traída, por exemplo, podem simplesmente relevar a traição, mas se ela não for verdadeiramente superada, a sombra da deslealdade acompanhará o(a) sujeito(a) para sempre. Por mais que a dor seja negada, ela se revelará até mesmo em gestos inconscientes, como a rispidez com a qual se responde à gentileza de um estranho para com seu par.

O que devemos fazer com os arrependimentos, portanto, não é ignorá-los ou mesmo renegá-los, como se eles jamais tivessem existidos. Muito pelo contrário. Devemos aceitá-los e transformá-los em um impulso que nos mova para a frente, seja para não repetir eventuais erros, ou, se for o caso de repeti-los, que pelos menos se erre de forma melhor no futuro. Mais do que os erros, a forma com a qual lidamos com eles é que define quem somos e como somos enxergados pelos outros.

A vida, em resumo, é feita de arrependimentos. E quem diz que não se arrepende de nada, das duas, uma: ou é mentiroso; ou simplesmente não viveu.

A escolha é sua.

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