A inversão da curva de juros dos Estados Unidos, ou O novo normal da Economia

O último grito da moda no mundo do economês agora é a chamada “inversão da curva de juros americana”. Sem qualquer outra razão aparente, a tal da “inversão” produziu um daqueles desarranjos intestinais que acomete o Mercado de tempos em tempos, provocando pânico nas bolsas, jogando o dólar nas alturas e deixando atarantado o pobre incauto que está em casa.

Desses três efeitos imediatos, o único imediatamente justificável é o terceiro. Isso porque o prestígio dos economistas varia na razão inversa da inteligibilidade do que eles dizem. E quanto mais hermético o seu palavreado, mais quem o assiste na telinha vai achar que se trata de um sábio profeta. Além disso, se o economês em si mesmo já é difícil, imagina quando a ele se mistura a Geometria. Afinal, como é que raios uma curva se inverte em um espaço plano?

Como a maioria da mídia, por desinteresse ou por incompetência, não costuma dar a mínima pra isso, muito menos se digna a explicar ao distinto público como os fenômenos econômicos se materializam no dia a dia das pessoas, vamos aqui tentar deitar algumas poucas linhas sobre a tal da “inversão da curva de juros”.

Todo mundo entende mais ou menos como funciona a lei da oferta e da procura. Se há mais demanda por alguma coisa, o preço dessa coisa vai subir. Na mão contrária, se a demanda é menor, a tendência é de que o valor dessa mesma coisa caia. Isso vale para absolutamente tudo no mundo econômico: imóveis, mercadorias na prateleira, dólar e – por que não? – os títulos de dívida dos governos.

Entretanto, em relação aos títulos da dívida pública, a diferença é que, se a demanda aumenta, o “preço” do título também aumenta. E, se isso ocorre, a remuneração que os governos se dispõem a pagar por eles – a famosa “taxa de juros” – evidentemente diminui (“Se muita gente tá querendo emprestar dinheiro pra mim, obviamente vou pagar menos por esse empréstimo”). E, por fim, quanto maior o prazo do empréstimo, maior tende a ser o seu risco e, consequentemente, maior também será a remuneração paga pelo devedor ao credor (“taxa de juros”).

Pois bem. Entendidas essas considerações básicas, fica agora mais ou menos fácil entender o imbróglio relativo à “inversão da curva de juros” norte-americana. O que aconteceu, em resumo, foi que a taxa de juros dos títulos mais longos vendidos pelo governo americano, em torno de 30 anos, ficou menor do que a taxa de juros dos títulos de prazo mais curto, em torno de 3 meses. O “normal”, como você já deve ter percebido, é que fosse o contrário: títulos de 30 anos pagariam mais (ou teriam taxa de juros maior) do que os de 3 meses, por conta do risco maior inerente ao prazo mais dilatado.

Mas por que isso está acontecendo agora?

Aí é que está o busílis.

Quando uma recessão se avizinha no horizonte, a tendência é a de que as taxas de juros pagas pelo governo diminuam. Com isso, os empréstimos tornam-se mais baratos, estimulando as pessoas a tomar crédito na praça. Com mais dinheiro em circulação, a atividade econômica tende a aumentar e a recessão pode ou ser evitada ou, no mínimo, mitigada.

Uma vez que os investidores em geral podem ser chamados de tudo, menos de estúpidos, o que eles fazem quando sentem o discreto perfume recessivo no ar? Correm pra comprar títulos de prazo mais longo – e que “pagam” uma taxa de juros maior – de maneira a “garantir” o seu rendimento, antecipando-se a uma eventual queda futura dessa mesma taxa. E aí, com a demanda por títulos de longo prazo superando em larga escala a demanda por títulos de prazo mais curto – e que, em um futuro bem próximo, “pagarão” menos juros -, ocorre a famosa “inversão da curva de juros”.

Não por acaso, nas últimas duas vezes em que essa inversão deu as caras, seguiu-se um período de recessão nos Estados Unidos. Daí o pânico dos investidores quando a inversão mais recente foi identificada.

Tudo isso, no entanto, parte do pressuposto de que a teoria econômica funciona da mesma forma como vem funcionando desde a Idade da Pedra. A ninguém ocorreu que, talvez, esses pressupostos teóricos já não sejam mais válidos. Afinal, desde 2008 muito dos manuais de Economia foi jogado no lixo em políticas pouco ortodoxas de quantitative easing (pode me chamar de “impressão de dinheiro”) e taxas de juros negativas (“pagar” pra alguém tomar um empréstimo). Em pouco mais de dez anos, o mundo foi inundado com uma quantidade verdadeiramente boçal de dinheiro. Tudo para evitar a reprise piorada da Grande Depressão de 1929.

O que pode estar em jogo agora, portanto, talvez tenha mais a ver com o excesso de liquidez existente no mundo do que propriamente com uma “corrida pela segurança” que precede uma possível recessão. Sem saber onde socar tanta grana, e com as principais locomotivas do planeta andando a passo de tartaruga manca, os donos do dinheiro grosso parecem preferir deixar a bufunfa “guardada” em títulos do Tesouro americano – que ainda paga taxa de juros convidativa, com o bônus de ser em dólar, a moeda de reserva do planeta – a investir em empresas que, daqui a pouco, podem começar a ter prejuízo.

Seja como for, a inversão da curva de juros é um sinal de alerta. Mas, para entendê-la completamente, talvez tenhamos de inventar uma nova teoria econômica. E esta, infelizmente, ainda está por ser escrita.

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