A Revolução Constitucionalista de 1932

A menos que você invista na Bolsa de Valores, dificilmente soube que ontem foi feriado no Estado de São Paulo. Afinal, para quem não mora lá, que diferença faz na vida do cidadão comum se o dia é um 9 de julho, não é verdade? Mas, ao contrário do que parece, a data diz muito sobre a própria história do Brasil. Por quê? Porque é nele que se comemora a Revolução Constitucionalista de 1932. Para explicá-la, voltemos um pouco no tempo.

Desde a Proclamação da República e do fim da chamada “República da Espada”, Minas Gerais e São Paulo revezavam-se no comando do país. Na “República do café-com-leite”, sempre um mineiro era sucedido por um paulista na presidência, e vice-versa. O arranjo entre os estados economicamente mais poderosos do país visava a garantir a estabilidade política necessária para manter a elite ganhando dinheiro e o povo, como de hábito, bovinamente levando na cabeça.

Tudo ia bem, até que o presidente da hora, Washington Luís (paulista), resolveu quebrar o pacto. Como não encontrasse um mineiro no qual confiar, resolveu apoiar para sua própria sucessão o governador de São Paulo, Júlio Prestes. A máquina presidencial somada à máquina do estado mais rico do Brasil pareciam uma estrutura eleitoralmente imbatível para qualquer outra chapa. E foram. Com larga margem, Júlio Prestes bateu Getúlio Vargas nas urnas, este montando numa aliança entre Minas, Paraíba e Rio Grande do Sul.

Mas Getúlio, claro, tinha outros planos.

Não lhe passava pela cabeça entregar de mão beijada a presidência a um concorrente “somente” porque havia sido batido nas urnas. Transformando o que foi um simples crime passional – o assassinato do governador da Paraíba, João Pessoa – em um grande escândalo nacional, como se o homicídio tivesse natureza política, Vargas conseguiu construir um caldeirão contra a posse de Júlio Prestes. Paralelamente a isso, ganhava corpo o “tenentismo”, um movimento político-militar que incorporava a insatisfação do baixo oficialato com a situação política do Brasil (qualquer semelhança com os dias de hoje é mera coincidência). Com o pretexto numa mão (a morte “política” de João Pessoa) e uma baioneta na outra, Vargas depôs Washington Luís e assumiu como “Líder da Revolução de 30”.

Como todo bom “revolucionário”, Getúlio queria fazer a sua “revolução” e depois deitar na fama, ou, mais precisamente, eternizar-se no poder. Afinal, nenhum ditador pensa em entregar o poder depois de assumi-lo. Se isso era verdade para outros tiranos, ainda mais para Vargas, que ostentava desde o berço sua vocação caudilhesca. Nessa perspectiva, o primeiro passo para assegurar um mandato longevo era garrotear o seu maior opositor, o Estado de São Paulo.

E foi exatamente isso que Getúlio fez. Depois de tomar o poder central, Getúlio destituiu toda a cadeia de comando política e militar dos paulistas, nomeando para os seus lugares interventores que lhe eram fiéis. Os paulistas, já ressentidos com a tomada à força de uma presidência que haviam ganhado no voto, foram sendo tomados de raiva e desesperança com o chamado “governo provisório”. Bastava, portanto, uma faísca para explodir o paiol de insatisfações que se acumulavam desde 1930. Foi quando se assassinaram cinco jovens paulistanos por partidários da ditadura varguista.

No dia 9 de julho de 1932, São Paulo se levanta contra Getúlio. Denunciando a escalada autoritária e a usurpação de poder operada por Vargas, as forças de segurança pública paulistas, o II Exército (sediado em SP) e alguns grupos civis armados exigiam a convocação de uma nova assembléia constituinte e de novas eleições gerais, de modo a acabar com a ditadura inaugurada em 1930.

Pela primeira vez desde o Império, o Brasil vivia uma verdadeira sedição contra o Poder Central. 200 mil pessoas se alistaram no “exército constitucionalista”. 60 mil efetivamente se engajaram nas tropas e parte do Estado de Mato Grosso aderiu ao levante. Parecia que a ditadura varguista estava com seus dias contados.

Parecia.

Numa operação em que se misturaram cenouras e porretes, Vargas conseguiu manter o restante do país – principalmente as Minas Gerais e o Rio Grande do Sul – ao seu lado. Atacado por todos os lados em três frentes diversas, era apenas questão de tempo até que São Paulo se rendesse ao maior poderio bélico dos militares leais a Getúlio. Em 2 de outubro de 1932, o movimento constitucionalista seria finalmente derrotado.

Em que pese a derrota militar, os constitucionalistas conseguiriam uma grande vitória. Seja por causa da luta armada, seja por conta da bandeira empunhada, o fato é que não restou a Vargas outro caminho senão convocar uma constituinte em 1933, que resultaria naquela que foi, na modesta opinião deste que vos escreve, a melhor constituição que o Brasil já teve: a Constituição de 1934.

Essa mesma constituinte reelegeu Vargas indiretamente para um mandato que supostamente terminaria em 1938. Evidentemente, não passava pela cabeça de Getúlio nem seguir a Constituição, nem muito menos entregar o poder quatro anos depois.

Mas isso já é outra história…

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