Esperteza, quando é muita, come o dono

A lenda é antiga, mas é sempre bom recordá-la.

Dois alunos do curso de Engenharia receberam um convite daqueles irrecusáveis. Um grupo de amigos alugara uma casa numa badalada praia daquele Estado. Praia, bebidas e mulheres, tudo no preço. Um fim de semana de esbórnia a custo zero. Para quem é homem e está no meio caminho entre a adolescência e o mundo adulto, isso é o mais próximo que se consegue chegar do paraíso.

Mas, como nem tudo é sorte durante a faculdade, havia um porém. Na segunda-feira seguinte, havia uma prova de Cálculo. A matéria não era lá uma grande pedra no sapato dos dois, mas o tempo jogava contra eles. A praia situava-se um tanto distante da capital, e nenhum dos dois tinha carro. Como o grupo só retornaria na segunda de manhã, a menos que ambos desenvolvessem a capacidade de teletransporte, comparecer à prova estava fora de cogitação. Era necessário escolher entre um ou outro.

Conversa vai, conversa vem, os amigos sopesaram os prós e os contras. A favor, claro, estava tudo aquilo que qualquer pessoa de fora poderia enxergar. No lado contrário, pesava o fato de o professor ser bastante rigoroso nas correções, embora fosse extremamente gentil no trato. Além disso, ele não engoliria assim tão fácil uma falta tão descarada a uma de suas provas. Ou os sujeitos arrumavam uma boa desculpa para a ausência, ou bye-bye segunda chamada. Somadas umas e outras, os alunos resolveram pagar pra ver e se mandaram para a casa de praia em busca da perdição.

Na terça seguinte, já refeitos da libertinagem, os dois alunos foram ter com o professor. Para dar alguma credibilidade à narrativa, decidiram contar a verdade entrecortada por alguns lances ficcionais. Sim, ambos tinham ido farrear na praia no fim de semana. Ocorre que, na volta, o carro do grupo tivera o pneu furado. Logo, não tinha sido possível chegar a tempo da prova na segunda. Diante disso, os jovens apelaram pela segunda chamada.De pronto, o professor assentiu:

“Claro, sem problema”, disse ele, para logo então emendar – “Vocês podem fazer a prova na segunda que vem. Eu só imponho uma condição. Vocês terão que fazer a prova em salas separadas”.

“Na hora”, responderam os dois em uníssono – “É só o senhor dizer a hora e o local que nós estaremos lá, Professor”, disseram os alunos, felizes da vida por terem conseguido de maneira tão fácil a segunda chamada.

No dia da prova, os dois alunos foram à faculdade. Em lá chegando, dirigiram-se às salas previamente designadas pelo professor. Em cada uma delas, um monitor da disciplina, responsável por fiscalizar o exame. Na carteira, pousava majestosa a prova. Apenas duas folhas a compunham. Na primeira delas, a primeira questão, valendo 1 ponto, que versava sobre algo bem básico, prenúncio de que o fim de semana tinha valido a pena e o prejuízo haveria de ser nulo. Na segunda folha, a segunda questão, valendo 9 pontos:

“Qual pneu furou?”

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2 respostas para Esperteza, quando é muita, come o dono

  1. Mourão disse:

    É verdade, esperteza demais come o dono.Otima

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