Brasil à deriva, ou Um país em stand by

Mais de um mês afastado das minhas funções aqui no Blog e tanta coisa pra falar sobre o que aconteceu nesse período. No topo das pautas represadas pelo período de ausência, a principal, sem dúvida, é a interminável crise política brasileira.

Como todo mundo sabe, Michel Temer conseguiu se segurar no cargo. Em que pese as projeções de muitos analistas profissionais e de blogueiros amadores (incluindo este que vos escreve), o ex-vice de Dilma Rousseff conseguiu sobreviver ao furacão JBS. Nem renunciou, nem foi cassado pelo TSE, nem muito menos foi afastado da Presidência pelo eventual recebimento das duas denúncias apresentadas pela PGR ao Supremo. À base da mais descarada política do “toma lá, dá cá”, Temer toureou os interesses e as insatisfações fisiológicas da base aliada, conseguindo votos suficientes que barrassem na Câmara a autorização de abertura de ação penal contra ele.

Não que tenha sido pouca coisa. Afinal, trata-se do presidente mais impopular da história do país (3% de aprovação nas últimas pesquisas), único a ostentar o inglório título de denunciado no Supremo e inteiramente desprovido do único requisito que um político não pode dispensar: carisma. Diante desse quadro, a pergunta que fica é: como é que Michel Temer conseguiu se segurar no cargo?

Obviamente, a abertura do balcão de negócios com o baixíssimo clero da Câmara dos Deputados conta muito dessa história. Mas só isso não explica a durabilidade de Temer na cadeira. Dilma Rousseff, por exemplo, tinha à disposição os mesmos cargos e até mais dinheiro do orçamento para distribuir a deputados sedentos por poder e dinheiro. Mesmo assim, caiu.

Uma primeira pista para entender a sobrevivência de Michel Temer passa pelo calendário. Com pouco mais de um ano da deposição de Dilma e a menos de dois das próximas eleições, o tempo jogou a seu favor. Pouca gente estava interessada numa nova mudança presidencial com tão pouco tempo desde a última, ainda mais quando se avizinham novas eleições presidenciais no ano que vem.

Uma segunda pista decorre, sem dúvida, da falta de um postulante imediato ao cargo. Como Temer é vice de si mesmo, não há qualquer alternativa posta na prateleira para seu descarte. Rodrigo Maia poderia desempenhar esse papel, mas, como ele mesmo fez questão de dizer, o deputado carioca não quis ser para Temer o que Cunha foi para Dilma. Sem apetite do político mais poderoso a pretender seu cargo, Temer ficou por falta de alternativa melhor à mão.

Uma terceira pista decorre da própria fragilidade política do Presidente. Para a direita, manter Temer interesse porque, sem chão, tem que ceder a todos os seus caprichos, incluindo, por exemplo, a bizarra portaria que “regulamentava” a noção de trabalho escravo. Para a esquerda, deixar Temer onde está interessa porque, além de ser combustível para o discurso do “golpe”, o Presidente acaba por se tornar o maior cabo eleitoral às avessas da atualidade. Quem a população identificar como o mais radicalmente contra “tudo que está aí” será o claro favorito para as eleições do ano que vem. Não por acaso, os dois líderes das pesquisas são Lula (à esquerda) e Jair Bolsonaro (à direita).

Ligando todos os pontos desse intrincado enredo, pode-se concluir que Michel Temer sobreviveu porque, para a imensa maioria da classe política e do empresariado, é melhor que ele fique onde está. A despeito da absurda impopularidade que colhe nas ruas, Temer não caiu porque quem realmente tem poder – o grosso da classe política e o pessoal do dinheiro grosso – prefere deixar tudo como está, pra ver como é que fica. Uns interessados em matar a Lava-Jato e qualquer de seus filhotes. Outros, em obter políticas impopulares em um ambiente putrefato pela corrupção política. Nesse meio tempo, o povo – bestializado – a tudo assiste impassível da poltrona, sem a mínima disposição de ir às ruas para denunciar esse estado de coisas.

No final das contas, todo mundo – povo, classe política e empresariado – assentiu a um acordo tácito através do qual tudo deve ficar parado até dezembro de 2018, torcendo para que nenhuma outra delação premiada derrube de vez o atual inquilino do Planalto. Até lá, tudo do que o país precisa – empregos, reformas, julgamentos criminais de políticos e uma inesgotável lista de et cetera – deve ficar em stand by, a aguardar que as urnas façam brotar um novo país que ainda está por vir.

Se tudo der errado, esperaremos que o povo brasileiro mostre que o voto é apenas um erro que se renova a quatro anos. Se tudo der certo, perderemos  um ano e meio com o país inteiro à deriva, à espera de uma milagre que nem os mais crentes acredita que ocorrerá. Na melhor das hipóteses, portanto, perderemos tempo.

E tempo é tudo o que Brasil não tem no momento.

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