Recordar é viver: “A lição de pintura de Rembrandt”

Essa vai apenas para manter viva a seção de Artes, que anda a respirar por aparelhos, ultimamente.

A lição de pintura de Rembrandt

Publicado originalmente em 23.8.11

Um quadro familiar a muita gente, reproduzido às pampas em vários cadernos e revistas, é A lição de anatomia do Dr. Tulp, de Rembrandt.

Mestre do claro-escuro, Rembrandt superou-se nessa obra-prima universal. O jogo de luzes e escuridão dá uma sensação de realismo única. Dada a diferença de luminosidade, as figuras parecem mover-se à medida em que você se afasta ou se aproxima da tela; a mesma sensação é sentida quando se vai da direita para a esquerda.

O quadro foi supostamente pintado em 16 de janeiro de 1632. Anatomista oficial de Amsterdam, Tulp realizava, uma vez por ano, uma dissecação pública, no inverno, como determinava a confraria de cirurgiões da cidade. Fazia-se isso por razões sanitárias, já que o frio ajudava a conservar o corpo.(Wikipedia)

Pintado sob encomenda, o quadro mostra o Dr. Tulp e seus alunos examinando um cadáver. Como acontece nesses casos, as figuras estão mais preocupadas em aparecer bem na fita do que em prestar atenção na aula. Note que ninguém se olha; todos parecem absortos, olhando para o vazio. Dois dos alunos, sentandos no fundão, nem se dão ao trabalho de fingir: ficam olhando diretamente para Rembrandt.

Mas a estrela principal, obviamente, é o morto. No centro da tela, com a maior luminosidade possível, o morto desempenha papel fundamental na mensagem que se quer passar com a tela. Retrata-se a indiferença diante da morte. Não é o ser humano quem está ali; apenas um objeto de curiosidade para o alunato. Tão importante quanto o seria um sapo dissecado.

Ao mesmo tempo, é impossível não notar num ar, digamos, renovador na cena. É como se ainda da morte se pudessem tirar lições. O morto, destinado à decomposição, serve agora como alimento para o conhecimento dos vivos. É essa dualidade de sentimentos, retratada num jogo de luzes e sombras, que sai realçada da pintura do mestre holandês.

Para quem vai à Amsterdam, convém tirar um diazinho e pegar um trem até Haia. Ao invés de tentar ir ao Palácio da Justiça, fechado a visitações ordinárias, dirija-se à Mauristhuis. Mandada construir por Maurício de Nassau, na época em que governava Pernambuco, a Casa de Maurício hoje abriga um formidável museu. Lá, gaste pelo menos duas horas na visitação. Uma visitando o resto. A outra, deliciando-se com essa magnífica obra-prima da pintura universal.

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