Acabando amigavelmente o namoro

Faculdade é um negócio engraçado. Ela fica justamente entre a adolescência – quando o sujeito tem que se matar pra passar no vestibular – e a vida de adulto – quando em regra as opções de diversão rareiam. O que, em termos juvenis, significa que é a grande oportunidade que você tem para aproveitar a vida: sem os empecilhos da menoridade e muito menos as obrigações da maturidade.

Obviamente, a regra para ambos os sexos é sair pegando geral. Quanto mais, melhor. A qualidade pode vir depois, desde que a fila ande rápido. Qualquer briga menor, que na fase adulta seria facilmente superada com uma boa conversa, torna-se motivo para terminar o relacionamento. Quando nada mais funciona, a ordem é girar a chave e partir pra outra. Afinal, são apenas quatro ou cinco anos de Faculdade. E não há tempo a perder.

Fernando sabia disso. Seguindo as regras do alunato, começara um relacionamento furtivo com uma colega de sala logo no primeiro semestre. Como nenhum dos dois estava interessado em coisa alguma, o namorico logo se esvaiu no vento e nos corredores da faculdade. Bola pra frente.

No segundo semestre, entretanto, Fernando tirou a sorte grande. Numa das calouradas da Universidade, encontrou Isabela, uma menina bonita e simpática. Aluna aplicada, namorada atenciosa, Isabela tinha tudo para ir longe na vida. Fernando poderia ser um bom companheiro de jornada e, quem sabe, com alguma sorte poderia até se tornar mais do que um namorado. Era o que ela pensava.

Mas Fernando tinha outros planos. Passados pouco mais de dois meses de namoro, Fernando começou a sentir aquela coceirinha que aparece quando se está incomodado com alguma coisa. Dois meses já era tempo demais, pensava ele. A prolongar-se o relacionamento, seriam mais alguns meses sem ter a oportunidade de ir atrás de outras meninas da Faculdade. E tempo, como todo mundo sabe, é uma mercadoria escassa.

Já sem conseguir esconder o enfado, Fernando marca um encontro com Isabela em um fim de tarde. Sem brigas anteriores ou algum pretexto que pudesse justificar o encerramento súbito do namoro, o sujeito resolveu apelar para a velha ladainha:

“Olha, Isabela, eu gosto muito de você e sei que você gosta muito de mim. Mas eu sou muito novo e acho que é muito cedo para me comprometer dessa maneira. Por isso, acho melhor a gente acabar por aqui e continuar como amigos”.

Do outro lado, nada; só o silêncio.

“Tudo bem? Você não vai responder nada?”, estranhou Fernando, diante da ausência de resposta ao seu recital.

“Você quer que eu responda o quê, Fernando?”, perguntou em um misto de impaciência e raiva Isabela, sem conseguir disfarçar o sangue que fervia nos seus olhos.

“Ah, sei lá. Fala qualquer coisa”, respondeu o varão meio sem jeito.

“Tá bom, então. VAI PRA PUTA QUE O PARIU!”, encerrou de forma ríspida Isabela.

E Fernando nunca mais tentou acabar um namoro amigavelmente.

Anúncios
Esse post foi publicado em Crônicas do cotidiano e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s