Noivado em lista

Casamento sempre foi um contrato. Em que pese a sua natureza litúrgica, o sacramento sempre esteve associado a uma união, não só de vida, mas também de interesses. Na época em que a nobiliarquia dava as cartas no mundo, os arranjos davam-se como tentativa de manter a estabilidade política entre as famílias reais dos diversos países. Quando o pólo de poder saiu da nobreza e foi para burguesia, os ditames passaram a ser o tamanho do patrimônio dos nubentes – ou melhor, dos pais dos nubentes – envolvidos. A idéia era juntar dinheiro com mais dinheiro, de modo a garantir o futuro não só dos filhos, mas dos netos e das gerações que sobreviessem.

Mas tudo isso mudou. Quer dizer, não há mais casamentos para manter a estabilidade entre países rivais, e pode-se até ver o herdeiro do trono inglês casando com uma plebéia. Fora isso, apenas no mundo dos ultrarricos os casamentos obedecem a ditames estritamente financeiros, embora não seja raro encontrar casos de celebridades montadas na grana esnobando a “tradição” e casando com alguém de fora do establishment.

No mundo pequeno burguês, no entanto, as regras seguem outro parâmetro. Na maior parte dos casos, casa-se somente por amor. O enlace depende apenas da reunião de condições financeiras mínimas para celebrar a união. Quando os nubentes formaram-se em Direito, o caminho do concurso público acaba sendo o mais rápido para o casório.

Em determinado caso, uma jovem estudante passara em um concurso da magistratura. Além das honras da toga, a moça seria brindada com um belo salário, que, se não dava pra deixar ninguém rico, pelo menos a deixava a léguas da pobreza. O suficiente, portanto, para encarar qualquer casório. Mesmo assim, bodas nupciais não lhe faziam muito a cabeça, menos ainda as extravagâncias do “Planeta Casamento”, nos quais festas para 500 talheres associados a chuvas de pétalas na saída da Igreja são acessórios tão caros quanto dispensáveis.

À falta do casório seguiu-se, como óbvio, a pressão dos colegas de turma. “Não vai casar?!? Mas por quê?!? Todo mundo tá casando agora…”, comentavam estupefatos os recém-togados. Numa das primeiras reuniões de congraçamento, a jovem resolveu chamar o seu namorado para acompanhá-la. Erro.

Em tese, o sujeito deveria apenas ladear a moça no evento social. Entrar mudo, sair calado. O problema era que o cara jamais fizera o gênero arroz. Pior. Rápido no raciocínio, cáustico nas respostas, o namorado era um interlocutor temido pelos interlocutores. Azar de quem não o conhecia.

No meio do bate-papo social, a dona da casa começou a fazer gracinhas sobre casamento. Já de saco meio cheio de casório, o sujeito dispôs-se a fazer o mis-en-scène e ficou calado. Lá pelas tantas, uma mulher mais atrevida começou a apresentar as novas julgadoras e seus respectivos consortes, informando inclusive a condição do par: noivo ou já casado. Ao chegar na jovem juíza, disse:

“Essa é a Fulana e esse é o seu noivo, Beltrano”.

“Não é noivo, não. É apenas namorado”, corrigiu educadamente a nova magistrada.

“Ah, então esse não foi promovido ainda…”, devolveu a anfitriã, soltando um sorrisinho irônico.

“É, mas pelo menos não tem lista”, encerrou o namorado da magistrada.

E nunca mais ninguém perguntou quando os pombinhos iriam se casar…

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