Recordar é viver: “A guerra das correntes”

Como esse Blog também se dedica à difusão da boa ciência, vamos recordar um post de 5 anos atrás sobre o tema.

Porque nunca é demais compreender o mundo à nossa volta…

 

A guerra das correntes

Publicado originalmente em 1º.8.12

 

Muita gente acredita que o progresso da ciência é diretamente proporcional à reclusão do cientista. Quanto mais calado, introvertido e discreto é o sujeito, maior é a possibilidade de surgir com a descoberta do século. E, invariavelmente, o grande público só toma conhecimento do sujeito quando a invenção é revelada – em regra, já devidamente patenteada.

Em parte, isso é verdade. Mas, em um caso específico, a ciência – e a humanidade com ela – progrediu em meio a um barulhento e midiático embate entre dois dos maiores cientistas da história: Thomas Edison e Nikolas Tesla. No final do século XIX, na efervescência da Belle Époque, os dois digladiaram naquela que ficou conhecida como a Guerra das Correntes.

Não, não eram os dois se atacando com correntes de aço nas mãos. As correntes em questão eram as duas conhecidas formas de fluxo ordenado de partículas portadoras de carga elétrica: contínua e alternada.

De um lado, Thomas Edison ficara rico – e, imaginava ele, ficaria estupidamente rico – com a invenção da lâmpada elétrica incandescente. Com a precedência da invenção, Edison praticamente impôs o padrão de corrente contínua a todos os Estados Unidos. O virtual monopólio do fornecimento de energia elétrica garantiria uma quantidade de dinheiro verdadeiramente boçal para qualquer um.

Do outro lado, um austríaco genial, fluente em mais de sete idiomas, tinha a ciência como uma de suas obsessões. E, neste caso particular, não apenas no sentido figurado, porque é bem possível que Tesla tenha desenvolvido TOC. Mas isso é outra história. Tesla não queria apenas produzir energia elétrica. Ele queria espalhá-la pelo mundo inteiro.

Qual o problema que levou à guerra?

A corrente contínua, padrão estabelecido por Edison, funcionava perfeitamente com as lâmpadas incandescentes e os motores em geral. Funcionando com baixa tensão (110 volts), a corrente contínua transmitia exatamente o necessário para acionar a lâmpada incandescente.

No entanto, ela tinha como desvantagem a necessidade de ser transportada em cabos de cobre muito grossos. Esses cabos de cobre traziam quedas de tensão que punham em risco o fornecimento de energia. Em razão disso, para que o sistema baseado em corrente contínua funcionasse de forma razoável, era necessário que as centrais elétrica situassem-se muito proximamente aos centros consumidores (menos de 5km). Logo, numa cidade do tamanho de Nova Iorque, por exemplo, seria necessário instalar um centro produtor de energia praticamente em cada bairro.

Inventada por Tesla, a corrente alternada permitia a transmissão de grandes quantidades de energia a longas distâncias. Valendo-se da fórmula P= v.i (potência é igual a tensão vezes a corrente), Tesla concluiu que, se aumentasse o valor da corrente, poderia aumentar o valor da tensão muitas vezes. Por exemplo: se ele elevasse o valor da tensão (voltagem) de 110 volts para 110.000 volts, a corrente será reduzida de 10.000 ampéres para apenas 100 ampéres.

“E daí?”

Daí que os elétrons que viajam desde a central elétrica até a sua casa colidem com outros átomos no caminho, perdendo-se energia na forma de calor. E essa perda é proporcional ao quadrado da corrente que passa pelo fio. Logo, se você diminuir o valor da corrente, logicamente deverá diminuir a perda de energia na transmissão.

Agora você deve estar se perguntando: “Mas de que vale perder menos energia se quando chegar na minha casa não poderei usar 100.000 volts em nenhum aparelho elétrico?”

Para resolver esse problema, Tesla desenvolveu os transformadores. Através dele, reduz-se o valor da tensão sucessivamente, de maneira com que a corrente se adeque à distância necessária do percurso.

Por exemplo: de Paulo Afonso saem linhas de 500.000 volts. Essas linhas chegam à subestação de Fortaleza com 500 mil volts. Lá, é transformado para 230.000 volts, e depois para 69 mil volts. Uma vez feito isso, a energia é redistribuída para as subestações nos bairros a 69 mil volts. Nas substações dos bairros, a tensão é rebaixada para 13.800 volts. Essa energia, então, eletrifica os cabos que você nos postes de energia. Ao chegar no seu quarteirão, esses 13.800 volts são rebaixados para apenas 380 volts, naqueles transformadores que ficam agarrados aos postes. E, enfim, você pode acionar seus eletrodomésticos a 220 volts. Faz-se assim para aproveitar-se ao máximo a alta eficiência da corrente alternada e perder-se o mínimo possível de energia no caminho.

Tesla vendeu os direitos de sua invenção a um americano chamado George Westinghouse. Westinghouse, então, foi a campo para vender seu produto.

Edison subiu nas tamancas. Conduziu uma violenta campanha de contrapropaganda, alertando para os “riscos” da corrente alternada. Para você ter uma idéia, até mesmo gatos vadios e animais do pasto foram mortos a mando de Thomas Edison só para amedrontar a população e garantir a manutenção da corrente contínua como padrão.

O castelo começou a ruir quando Westinghouse ganhou um contrato para produzir energia nas Cataratas do Niágara e levá-la até Buffalo, distante 40km das quedas. Com a comprovação empírica da viabilidade do empreendimento, Westinghouse praticamente assegurou o sucesso do modo de transmissão de energia. Tesla vencia a guerra das correntes.

Mas, ao contrário do que se pode imaginar, isso não foi o fim da corrente contínua. Na verdade, ela foi abandonada apenas como forma de transmissão. Ainda hoje, usa-se a corrente contínua para, por exemplo, aparelhos movidos a pilhas, as empresas de telefonia e até mesmo a ignição do seu carro. O que o ódio gerado naquela época impediu de ver foi que, ao contrário de serem excludentes, as correntes contínua e alternada eram, na verdade, complementares.

No final das contas, Edison ficaria mundialmente conhecido pela invenção da lâmpada elétrica incadescente. E Tesla se transformaria em medida de indução magnética. Entre mortos e feridos na guerra das correntes, salvaram-se todos.

Ainda bem…

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