As eleições na França, ou Para onde caminha a Europa?

Deu-se o esperado.

Com os dois maiores partidos franceses enfrentando a maior crise de sua história, duas candidaturas outsiders passaram ao segundo turno da eleição presidencial. De um lado, a extrema-direita de Marine Le Pen. Do outro, o postulante pretensamente apolítico, Emmanuel Macron, candidato a João Dória francês. No meio dessa disputa, repousa o destino não só do país com o maior território continental europeu, mas o destino da própria Europa.

Não que isso fosse inesperado. Depois que Sarkozy e suas denúncias enterraram o Partido Republicano como alternativa eleitoral viável, François Hollande tratou de fazer o mesmo com o Partido Socialista. Espécie de Dilma Rousseff de calças, Hollande presidiu uma tragédia tão desgraçada que nem mesmo cogitou candidatar-se à reeleição. Trata-se de caso único na V República Francesa.

Nesse contexto, sobrou, em princípio, apenas a direita hidrófoba avessa a imigrantes dos Le Pen. Seguindo a herança xenófoba de seu pai, Jean-Marie, Marine Le Pen vocifera há anos contra os estrangeiros que fazem da França um dos países mais libertários do planeta, pondo neles a culpa por todas as mazelas gaulesas. Como o eleitorado dos Le Pen é cativo, porém não majoritário, restava saber quem ocuparia o papel de “anti-Le Pen”, no vácuo deixado pelos dois maiores partidos do país.

Foi aí que entrou Emmanuel Macron. 39 anos, banqueiro de fina cepa (sócio do lendário banco Rothschild), Macron teve uma ascensão meteórica na burocracia francesa. Em menos de 5 anos, saiu de Secretário-Adjunto da Presidência para Ministro da Economia e, agora, candidato à presidente da República. Curiosamente, Macron lançou-se contra o próprio governo do qual participava. E, o que é ainda mais curioso, encantou a esquerda francesa, embora todo seu background indique que seja um liberal ultraortodoxo.

Candidato pela primeira vez em sua vida, Macron segue a linha de Trump, João Dória e outros tantos: define-se como “apolítico” ou “contra-tudo-o-que-está-aí”. Até agora, tal como seus predecessores, conseguiu sucesso. Passou em primeiro lugar na primeira ronda das eleições e as pesquisas indicam uma dianteira de 20 pontos sobre Le Pen no segundo turno. Mesmo assim, treino é treino e jogo é jogo. Muito embora a distância seja demasiado larga para pensar numa virada, o mundo anda tão estranho que não se pode descartar totalmente uma desastrosa eleição de Marine Le Pen.

Ainda que Le Pen não consiga contornar o cenário adverso, deve-se ponderar que ela pode “perder ganhando”. Uma vitória do banqueiro apolítico por menos de 10 pontos percentuais, por exemplo, transformaria Le Pen imediatamente em porta-voz da oposição e enfraqueceria de cara o mandato de Macron. Para quem já sabe de antemão que chegará ao Eliseu sem qualquer maioria parlamentar para governar, seria um desafio e tanto.

Para além dos efeitos de uma vitória por estreita margem na política doméstica, uma ascensão de Le Pen colocaria ainda mais pressão no chamado “Projeto Europeu”. Com o Brexit ainda por digerir e com partidos “anti-Europa” pipocando por todas as partes, a idéia de uma Europa unida e sem fronteiras assemelha-se cada vez mais à Roma Antiga sitiada pelos bárbaros. Cada estocada de um vizinho mais destrambelhado punha todo o Império em risco e a queda se tornaria apenas uma questão de tempo.

Assim como em várias outras ocasiões no passado, o destino do continente europeu passará novamente por Paris. Resta saber, contudo, se da Cidade-Luz virá iluminação ou trevas. No dia 7 de maio saberemos a resposta.

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2 respostas para As eleições na França, ou Para onde caminha a Europa?

  1. RIVALDO PEREIRA disse:

    Excelente e lúcido texto.

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