Recordar é viver: “Europa x Euro”

Com o continente europeu ameaçando embarcar na onda populista e xenófoba à la Trump, convém recordar um dos maiores motores para a grande crise que se abateu sobre o Velho Mundo.

Porque recordar é viver…

Europa x Euro

Publicado originalmente em 7.2.11

A crise econômica européia levou o Euro à berlinda. A união monetária, tida e havida como o grande grito de independência da Europa em relação ao mundo, agora está em xeque. Mas por quê?

No começo, parecia um sonho. Países como Portugal, Espanha, Grécia, Irlanda, que jamais teriam sua dívida pública lançada no mercado com o mesmo respaldo de países como Alemanha e França, passaram a gozar do mesmo status. Explicando melhor: todo mundo passou a emitir títulos em Euros, não nas moedas antigas dos seus países. Assim, pelo menos à primeira vista, não haveria diferença entre comprar um título da Alemanha ou de Portugal. Ambos valeriam a mesma coisa.

O problema – pelo menos como este que vos escreve o vê – foi um erro de previsão de quem arquitetou a Uniao Européia. Começando com o acordo de carvão e aço entre Alemanha e França, passando pela Comunidade Econômica Européia e a União Européia, tudo foi planejado para que, em algum ponto do futuro, a Europa se tornasse um “país”: unificado, com governo central, políticas comuns e – é claro – uma moeda própria. Alemanha, França, Espanha, Portugal, e todo o resto, deixariam de ser nações autônomas para fazerem parte de uma grande Federação Européia. Mais ou menos como nos Estados Unidos.

Parênteses. Estados Unidos não é marca de fantasia. São estados unidos mesmo. Cada um tem constituição e leis próprias, fazem suas próprias eleições, sua própria Suprema Corte, enfim, uma capacidade de autogoverno que quase nenhum outro país tem. Talvez a Suíça. Fecha parênteses.

A questão foi que colocaram o carro na frente dos bois. Antes de resolverem a questão política, fizeram a união monetária. Pra desassossego de quem bolou o plano, a Constituição Européia foi mandado ao lixo. Ficaram, portanto, com o trabalho pela metade.

E o Euro com isso?

Pra se ter um perfeito controle da moeda, você deve ter uma política fiscal (leia-se: orçamento público) e monetária (leia-se: controle de emissão da moeda) próprias. Como não houve a unificação política, ficou-se com a seguinte situação: cada um dos países tem sua própria política fiscal, mas o controle de emissão da moeda pertence unicamente ao Banco Central Europeu.

E daí?

Daí que países com déficit público elevado só conseguem se financiar vendendo títulos ao mercado. Mas se os juros cobrados pelo mercado começarem a subir muito por causa de desconfiança quanto à capacidade de pagamento, só há duas saídas: ou cortar despesas públicas; ou emitir moeda pra poder pagar os títulos que forem vencendo. Essa última opção causa a desvalorização da moeda e, conseqüentemente, inflação.

Com a União Européia, a opção de mandar rodar a máquina na Casa da Moeda foi pro espaço, pois nenhum país tem mais o controle da emissão monetária. Restaria a opção de cortar o orçamento público. Mas se o país estiver em recessão – como estão os países europeus – cortar despesas públicas significa aprofundar a recessão, com graves conseqüências sociais: cortam-se as verbas sociais e, ao mesmo tempo, aumenta-se o contigente de pessoas que precisam deles (por causa do aumento do desemprego).

Se não houvesse o Euro, a solução seria relativamente mais fácil. Manda-se rodar a máquina, emite-se dinheiro pra pagar os títulos públicos e, com isso, desvaloriza-se a moeda. Desvalorizando a moeda, a perda de crescimento causada pelo aumento da inflação interna pode ser contrabalançada pelo aumento das exportações. Com a moeda valendo menos, é mais fácil vender seus produtos pro exterior. Que o diga os chineses. Exatamente por isso economistas renomados previram que o Euro não sobreviveria à primeira crise.

Os ingleses – que podem ser tudo, menos bestas – sacaram logo a armadilha e nem sequer chegaram a fazer parte do Euro, apesar de fazerem parte da União Européia. Em uma entrevista que vi outro dia, perguntaram ao Primeiro-ministro inglês, David Cameron,  se a Inglaterra não ia ajudar no pacote de socorro que Alemanha e França – as duas locomotivas da UE – estão montando pra ajudar as economias mais pobres da Zona do Euro. A resposta foi mais ou menos o seguinte:

“Nós somos parte da Europa, mas não fazemos parte do Euro. Os países que o integram têm que achar sozinhos uma solução para esses problemas. Torcemos para que eles achem”.

Traduzindo: “Quebraram? Problema de vocês”.

Alemanha e França já falam em aumentar o valor do pacote pra mais de EU$ 1 trilhão, e que farão de tudo pra salvar o Euro.

Fica no ar a pergunta: será que vale a pena?

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