O padre e o governador

Casamento é um negócio engraçado. Nascido como sacramento na Igreja, de há muito deixou de ser algo relacionado com o divino, mas antes uma das mais caras formas de interação social. Ninguém se preocupa mais com os votos, mas sim se a recepção vai ter coquetel de camarão e uísque 12 anos. E, quando as núpcias envolvem o casamento de alguém importante, aí é que o casamento perde realmente o sentido. O que era pra ser uma festa transforma-se numa demonstração de poder.

Certa vez, um sujeito muito bem conceituado na alta sociedade resolveu enfim convolar núpcias com sua mulher. Amigo de longa data do governador do Estado, o nubente convidou o chefe do poder estadual para comparecer à cerimônia. Seguindo a tradição política ritualística que se desenvolveu no Brasil, governador só comparece a casamento em uma única ocasião: se for para ser padrinho. E assim foi feito.

A celebração começa, os convidados tomam os seus lugares e os noivos entram. Perfilados na primeira fila, logo junto do altar onde estavam os noivos, estavam os padrinhos de ambos os cônjuges. O padre, então, agradece a presença de todos e começa a rezar a missa do casamento.

Há, contudo, um porém. Quando alguém muito importante encontra-se no rol de padrinhos, é costume o celebrante fazer referência expressa à sua presença. Pouco se sabe como essa tradição surgiu, mas sempre se encarou como gesto de cortesia o padre mencionar o nome da autoridade presente e agradecer em especial ao seu comparecimento. Nesse caso, nada disso aconteceu.

Finda a missa, o governador, um sujeito conhecido pela vaidade e pela afetação, foi tomar satisfação com o padre.

“O senhor sabe quem eu sou?”, perguntou em um tom a um só tempo indignado e desafiador o chefe estadual.

“Sim, sei”, respondeu tranquilamente o pároco.

“E por que é que o senhor não fez registrar meu nome na hora da celebração?”, indagou contrafeito o governador.

“Isso aqui é uma missa de um sacramento católico, não reunião de secretariado. E tu não terias nenhum poder se não te fosse dado pelo Pai (Jo 19:11)”, ensinou o padre.

#FicaaDica

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