A sinceridade infantil

Amanda era uma menina muito esperta. Precoce desde sempre, aos 4 meses engatinhava, aos 9 já andava e com 1 ano falava mais do que a mulher da cobra. Aos 2 anos, a menina já engatava conversações complexas e respondia quase como se fosse uma adulta. Infelizmente, foi nessa altura que ela ingressou naquilo que a psicologia infantil costuma chamar de “dois terríveis anos”.

Quando atingem essa fase, as crianças, outrora doces e gentis bebês, que adoram colo e reclamam meigo, passam a fazer birra para qualquer coisa. Da ida à escola ao banho do fim do dia, da hora da brincadeira à hora de deitar na cama, tudo vira motivo pra reclamação. Reclamação, não. Berro. Mas BERRO, mesmo… É como se alguém ligasse uma sirene de ambulância e esquecesse onde estava o botão que desligava a geringonça. Por mais que grite, é como se a criança dispusesse de uma reserva infinita de ar e água, pois nem o som dos gritos diminui, nem muito menos o choro cessa. E haja paciência para aturar aquele pequeno diabinho tirando o juízo de todo mundo.

Compadecida dos pais, a irmã da mãe resolve dar uma de boa tia e leva a miúda para uma tarde de passeio, com a promessa de terminar a tarde numa bela sessão de cinema no shopping. Dissimulada no começo, Amanda era só sorrisos. Meia hora de carro depois, começa o espetáculo: berros, choros, birras e mais uma infindável lista de etc.

Mas tudo bem. A crise aguda passa e o que vem depois é a apenas a manha básica que toda criança aprende ao nascer. O chorinho miúdo, sentido, quase indolor, incapaz de tirar alguém do sério, mas o suficiente para convencer a mais dura das almas. Exasperada, mas ainda assim apiedada do choro infantil, a tia resolve dar uma chance para Amanda não perder a sessão de cinema.

“Amanda, a gente vai agora para o cinema. Mas se você continuar fazendo escândalo, a titia não vai ter como levar você”, explicou pacientemente a tia.

“E-e-e-eu-eu s-s-s-s-ei-ei-ei…”, respondeu chorosa a pequena.

“Então, é o seguinte: a titia vai levar você para o cinema, mas você vai ter de se comportar, certo”, disse a tia, explicitando os termos do acordo.

“C-c-c-cer-cer-to-to”, aquiesceu a miúda.

“Você me dá a sua palavra de honra de que vai se comportar?”, desconfiou a tia.

“Dou”, respondeu já sem chorar a criança.

“Posso confiar em você?”, insistiu a tia.

“Não…”, respondeu por fim Amanda.

Anúncios
Esse post foi publicado em Crônicas do cotidiano e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s