A juíza ilusionista

Já faz algum tempo.

Antes da Reforma de 2004, não havia o requisito de tempo de atividade jurídica para poder alcançar os cargos mais elevados do Judiciário. Por isso mesmo, era comum formandos mal saídos da faculdade passarem em concursos para juiz ou promotor. Com 23, 24 anos, estava lá o sujeito com uma caneta mão e um monte de idéias de Justiça na cabeça.

Nesse contexto, uma formanda assumira o cargo de juíza estadual. A pele impecável associada aos poucos anos que carregava nas costas conferia-lhe um indisfarçável ar jovial. Não fosse a toga que envergava nas costas, qualquer um poderia confundi-la com uma estagiária, tal era a menina que saltava do seu rosto.

Mercê da falta de sorte, a juíza recém-empossada foi remetida para uma comarca próxima do fim do mundo, onde não havia esgoto, casa para morar e muito menos comidinha decente na hora do almoço. Por óbvio, os servidores contavam-se nos dedos de uma mão. Em razão disso, ela própria ficara encarregada de digitar os termos das audiências que presidia.

Certa feita, coordenando uma audiência de um processo de pequenas causas, a juíza mandara apregoar as partes. De um lado, entrou a autora, ao lado do que provavelmente seria seu primo, um cidadão metido a rábula, dotado de toda a empáfia que essa condição pode oferecer nos rincões do Brasil. Do outro lado, ninguém. O réu não comparecera à audiência.

Ao abrir os trabalhos, a magistrada verificou nos autos que havia um pedido de adiamento da audiência. O réu, acamado, não poderia comparecer na data aprazada, cortesia de uma apendicite que quase lhe tomara a vida alguns dias antes. O advogado do réu, todavia, furtara-se a juntar o atestado médico. A juíza, então, mandou intimar o patrono do demandado para anexá-lo no prazo de cinco dias, ao fim dos quais seria designada nova audiência. Súbito, o rábula que acompanhava sua prima insurgiu-se contra a decisão da juíza, a própria Justiça e contra a programação dominical da TV:

“Isso é um absurdo! Como é que pode?!? Essa Justiça não serve pra nada, mesmo! A pessoa tem o prejuízo, entra na Justiça pra resolver e aí o cara não aparece e não acontece nada! Esse país não tem jeito, não!”

Sem perder a calma, a juíza explicou ao sujeito que nada poderia fazer. Alegada a impossibilidade de comparecimento à audiência, o máximo que ela poderia fazer era exigir a comprovação do motivo alegado para a ausência. Se a parte provasse, paciência; nada a fazer. Se por acaso a alegação fosse mentirosa, a parte seria julgada à revelia.

Dito isto, a juíza virou-se para o computador e começou a redigir o termo, assinalando a ausência do réu e o adiamento da audiência, mediante apresentação do atestado médico.

“É um absurdo!”, insistiu o rábula. Desafiador, ele perguntou:

“Eu só quero saber de uma coisa: se o réu tivesse aparecido, ia ter juiz pra fazer essa audiência?!?”

A juíza virou sua cadeira do computador, olhou com olhos de fogo para o sedizente rábula e, apontando o dedo indicador na direção do seu próprio mediastino, retrucou:

“Olha, senhor, a juíza está aqui!”, para logo depois voltar ao computador.

Quando a magistrada terminou de imprimir o termo de audiência, voltou-se à mesa de audiências para colher a assinatura dos presentes. Ao dar a volta dos olhos na sala, uma das pessoas tinha sumido. O rábula não estava mais lá.

E a juíza então descobriu que, pronunciado as palavras mágicas, tinha o poder de fazer com que as pessoas desaparecessem da sala de audiências.

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