Perguntas sem resposta – Parte II

Toda geração tem por mania acreditar que a sua é mais legal do que a atual. Em certos casos, a impressão é injustificada e só se manifesta por conta da nostalgia que os anos trazem. Mas, em determinadas situações, o conceito está longe de ser impreciso. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a juventude dos anos 90.

Aquela foi uma geração abençoada. Sem internet, celulares ainda rudimentares e com ainda alguma segurança para andar na rua, a ordem era se divertir. Pouco importava onde, como e quando. Ficar em casa, ainda mais nos fins de semana, era coisa proibida. Nada dessa coisa gourmetizada de hoje em dia, com adolescentes vigiados por GPS, cantando cantiga de grilo no violão dentro do condomínio dos pais, celebrando obviedades como o pôr-do-sol no fim de tarde à base de 7up (pode me chamar de Soda Limonada).

Não, absolutamente não. Aquela geração dos anos 90 sabia o que era diversão de verdade. Quando não havia as indefectíveis festas de 15 anos, os sábados eram preenchidos com as churrascadas à base de cerveja e cachaça. A coisa começava por volta das 10h da manhã e só acabava quando o último herói da resistência sucumbia ao efeito do álcool. De resto, o entrementes seria censurado a qualquer adolescente de Facebook.

Numa dessas festas etílicas, os responsáveis pelo churrasco pareciam amadores. Não sabiam sequer acender a churrasqueira. Depois de colocarem o carvão, jogavam o jornal em cima, cobriam tudo com o álcool e acendiam o fósforo. O jornal queimava rapidamente, se esvaía no vento e o carvão permanecia incólume. Três garrafas de álcool de cozinha foram para o espaço, até que um “gênio” sugeriu aos incautos: “Por que vocês não colocam o jornal embaixo do carvão?”

Resolvido o problema logístico, faltava colocar o engenho para funcionar. Como o álcool convencional acabara, só restou o vagabundo, aquele que a pessoa guarda para usar em caso de emergência, engarrafado naquilo que foi um dia uma garrafa de Natasha. Acesa a chama, o resto foi esbórnia.

Lá pelas tantas, depois de derrubados dois engradados, a cerveja acabara. Para os mais refinados, hora de parar. Para os de fígado corajoso, tempo de mudar para a cachaça. Um dos de gosto mais refinado, mesmo com o cérebro atravessado pela bebida, recusava-se terminantemente a tomar a cachaça. “Bebida de pobre”, dizia ele, com certo ar de superioridade. Como quisesse sacanear e ao mesmo tempo tirar onda com o sujeito, um dos presentes resolveu pegar a garrafa de Natasha sem rótulo. “Toma aí, rapaz. É vodka!”

O cidadão não pensou duas vezes. Antes que os demais pudessem alertá-lo, pegou a garrafa, levou-a do chão para a mão e da mão para a boca. Dois grandes goles, tomados sob choque geral, até que um amigo mais próximo puxou a garrafa, gritando: “Não bebe, não! É álcool!”

Súbito, o efeito da bebida passou. Uma sensação geral de queimação na boca, nas amígdalas, na faringe, no esôfago e por onde mais o álcool tinha descido. “Vomita! Vomita!”, gritavam desesperados os que estavam em volta. Pedido prontamente atendido: dois dedos na goela e o “serviço” estava feito.

O risco imediato foi afastado. Mas o efeito do que tinha sido ingerido ainda estava por vir. Menos de uma hora mais tarde, lá estava o sujeito no chão, rolando a cada vomitada na grama. Ainda com receio, uma pobre alma compadeceu-se da situação do ludibriado pelo álcool na garrafa de Natasha sem rótulo. Buscou a síndica do prédio e suplicou-lhe:

“Me desculpe, minha senhora, mas o nosso amigo bebeu demais. Estou com medo de que ele entre em coma alcoólico. Seria possível a senhora nos arranjar um pouco de mel?”

A mulher, com um olhar a um só tempo tenro e condescendente, respondeu:

“Claro, meu filho. Você quer mel com própolis ou sem própolis?”

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2 respostas para Perguntas sem resposta – Parte II

  1. Mourão disse:

    Grande Aristocrata. Vendo você escrever sobre seu tempo de juventude, acredito que vivenciou bem as diversões da turma da saudável esbórnia. Cheguei a me lembrar das gandaias do meu tempo de adolescente, quando a liseira era maior, mas a liberdade de gozar a vida sem medo também era bem mais ampla. Sem saudosismos, mas com boas recordações.

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