A sogra e a nora

High society é assim:se você não faz parte do grupinho, não adianta tentar; sempre você será um estranho naquele meio. Os lances conjugais nesse meio não diferem muito daquelas da aristocracia medieval. Por meio de relações endogâmicas, mantém-se intacta a estrutura do poder e à distância os pobres indesejados. Exatamente por isso, se você for mulher e resolver casar com algum bom partido do grupo, esqueça. A cidadã pode até ganhar na mega-sena depois, mas nunca perderá o ar de biscateira de que deu o golpe no filho alheio.

Em um caso assim, a mulher tomara de uma rica família o filho pródigo, prometido em casamento a outra família do grupo, de modo a manter as bases de uma poderosa sociedade comercial. Mesmo que a relação não tenha sido ocasionada por dinheiro, a mera intromissão em um destino que já havia sido traçado foi o suficiente para suscitar o ressentimento na família do marido. E, sendo esse o caso, a sogra seria mais sogra do que nunca.

Certa vez, numa badalada festa para a alta sociedade, o sogro reunira a nata do empresariado local para confraternizar qualquer coisa: o batismo do neto, o pônei da sobrinha ou a nova casa de praia do filho mais velho. A ocasião não importa. Afinal, o que o rega-bofe pretende não é a celebração da vida, mas demonstra fortuna e poder para seus semelhantes, impondo a um só tempo suas credenciais para fazer parte do grupo e o cortejo para usufruir benesses dos outros comensais.

Na sala, logo após o hall de entrada, a sogra recepcionava os convidados. Sentada no longo sofá de cinco lugares, que mais parecia uma carruagem do século XVII, tal era a sua dimensão, a distinta senhora trocava altos papos com outras socialites presentes ao evento. De repente, entra a nora trajando um vestido novo, comprado numa famosa loja local.

“Vestido novo, Fulana?”, indaga a sogra com ar despretensioso.

“É, sim, minha sogra. Comprei nesta semana”, respondeu a nora, remexendo o corpo quase como quem dança para exibir a nova prenda.

“Eu tenho tanto pena desse meu filho…”, comentou a sogra, deixando escorrer uma gota de veneno pelo canto da boca.

“Pois é, minha sogra. Eu trepo muito bem; cobro muito caro”.

E nunca mais se ouviu naquela família comentários acerca das vestimentas da nora do filho predileto.

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