Recordar é viver: “Os Canhões de Agosto”

A História sempre foi a seção favorita deste espaço. Para celebrá-la, vamos recordar um dos primeiros posts sobre o tema.

E também uma lembrança do quanto é importante entendê-la para não cairmos de novo nos mesmos erros…

 

Os Canhões de Agosto

Publicado originalmente em 19.4.11

 

A I Guerra Mundial, como não poderia deixar de ser, tornou-se prato cheio para historiadores e romancistas. São inúmero os livros que se escreveram contando ou tentando explicar o evento, assim como muitos são os que se utilizaram dele como pano de fundo para histórias fictícias.

Pra quem quiser ir mais a fundo e entender não só as origens da guerra como seu próprio desenrolar, a leitura obrigatória é Canhões de Agosto.

Escrito por Barbara Tuchman, Canhões de Agosto ganhou o prêmio Pulitzer de 1963. Suposto sua autora seja uma historiadora, o livro desenvolve-se quase como um romance. Com uma precisão assustadora na análise e na sucessão dos fatos, é na descrição dos personagens como seres humanos reais que Barbara Tuchaman brilha. Guilherme II, Joffre, Foch, Von Moltke e Lord Kirtchner são apresentados ao público como indíviduos cheios de idiossincrasias, vaidades e ressentimentos; não como totens da história.

Sua tese é simples: o que aconteceu no primeiro mês da guerra foi o mais determinante para que ela se desenrolasse como se desenrolou.

Seu ponto culminante reside na análise de que tudo deu errado porque todas as estratégias – tanto de um lado como de outro – baseavam-se na análise do que acontecera na guerra passada (Guerra Franco-Prussiana). Ninguém – ou praticamente ninguém – levava em consideração que a tecnologia havia mudado, que as nações haviam se desenvolvido e que uma nova guerra demandaria uma nova estratégia de ação.

Barbara Tuchman explica que o plano de ação alemão era uma mera variação do Plano Schlieffen. O plano previa um ataque maciço à França pela Bélgica, com uma gigantesca ala direita e um centro e uma ala esquerda suficientemente fortes para segurar o avanço francês pelo meio. Dizia-se que a ordem de Schlieffen era: “O último homem da ala direita deve encostar a manga do braço direito de seu uniforme no Canal [da Mancha]”.

O problema era a Bélgica. Pelo tratado de paz firmados entre as potências européias, a Bélgica era neutra, assim como a Suíça. E todos os países se comprometeriam a assegurar a neutralidade belga. Invadi-la, portanto, traria consigo o ônus de arrastar a responsabilidade pela deflagração da guerra.

Von Möltke, chefe do Exército Alemão, não estava nem aí. Mandou a neutralidade belga pro espaço e mandou invadir os países baixos. Nesse ponto, não teve a clarividência que tivera Bismark 50 anos antes. O eterno chanceler prussiano arquitetara três guerras que desejava sem ter deflagrado nenhuma; fazia com que seus inimigos a declarassem antes. Com isso, podia se sair com a tese do “tava-na-minha-mas-vieram-mexer-comigo”. Logo de cara, a Alemanha jogou a desculpa fora.

Pra piorar, os alemães ainda se esqueceram do aviso de Schlieffen. Ele teria morrido dizendo: “Jamais uma guerra em duas frentes[oeste e leste]”. Sabendo dos acordos da Tríplice Entente, os alemães planejaram uma guerra simultânea contra a França – auxiliada pela Inglaterra – e contra a Rússia. Ignoraram a advertência de Schlieffen de que, para seu plano dar certo, todo o contigente alemão deveria estar a oeste, focado no ataque à França. Deslocar tropas para o leste para uma luta contra a Rússia prejudicaria a idéia de uma ala direita gigante, apta a fazer um movimento de “pinça” para encurralar o exércio francês, tal como acontecera na famosa Batalha de Sedan.

Já a França, teimosa, achava que poderia bater os alemães. Não contavam com o enorme desenvolvimento industrial por que passara a Alemanha desde a unificação, nem com o recrutamento de civis para – com pouco treinamento – se juntarem às forças regulares do exército. O contigente alemão tornara-se muito maior do que o imaginado.

Quando a Alemanha invadiu a Bélgica, os franceses, ao invés de deslocarem sua força para proteger sua ala esquerda (a direita da Alemanha), tentaram atacar pelo meio. Não só foram rechaçados como – pasmem – começaram a retrair-se pra dentro do território francês.

Os ingleses, aflitos, discutiam o que fazer. Havia uma elite do exército britânico pronta para ser enviada à França para tentar impedir o avanço alemão. Durante as discussões, todos discutiam quantos soldados deveriam ser enviados, mas não se deveriam ser enviados. Lord Kirtchner, então Secretário de Estado para a Guerra, foi o único a se posicionar contra. Para ele, a Força Expedicionária Britânica deveria ficar na Inglaterra para treinar o restante do exército. E, para ele, essa tarefa não duraria menos de 3 anos. Nessa hora, todo mundo tremeu na cadeira. Ao dizer que só o treinamento do exército tomaria 3 anos, Lord Kirtchner deixava nas entrelinhas o entendimento de que a guerra duraria mais de 3 anos. Isso quando ninguém – ninguém mesmo – acreditava que a guerra fosse durar mais de um mês. Todos os cenários de todas as partes envolvidas trabalhavam com uma guerra que durasse duas, no máximo três semanas.

Barbara Tuchman conta detalhe a detalhe os recuos e as batidas de cabeça entre ingleses e franceses, determinados quase sempre pela vontade individual de seus generais, muito mais do que por uma estratégia preordenada. Joffre mandava atacar, mesmo diante do avanço alemão, enquanto John French, chefe da FEB, insistia no recuo da tropa.

Tudo ia bem até que um general alemão chamado Von Klück resolveu antecipar o movimento de pinça para cercar o 5º Exército francês, que recuava. Não contava ele com as tropas de Gallieni – que passara semanas implorando por tropas ao Marechal Joffre para proteger Paris – que lá estavam estacionadas. Ao avistarem por balões o movimento de Von Klück, os franceses foram ao delírio: “Eles nos deram o flanco! Eles nos deram o flanco!

Depois de um mês recuando, o exército francês, junto com a FEB, produziu uma ofensiva, expulsando os alemães às portas de Paris, na batalha que entraria para a história como O Milagre do Marne. O que veio depois foi uma guerra de fricção, em trincheiras, que serviam apenas como matadouro de gente, sem grandes avanços de parte a parte.

A grande lição a tirar do livro é que 50 milhões de pessoas morreram devido à arrogância de uns poucos, que se acreditavam clarividentes. A nenhum deles ocorreu a sábia simplicidade de Lord Keynes: “Quando as circunstâncias mudam, minha convicção muda também“.

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