Tateando no escuro, ou Os desafios do Governo Temer

“O tempo voa”. Eis o locus classicus de quem se sente atropelado pelo avanço implacável dos ponteiros do relógio. E, nesses tempos de Internet, essa sensação parece ainda mais presente.

Veja-se o caso da política brasileira. O impeachment da Presidente foi sacramentado pelo Senado somente há sete dias. Mas, pelo sentimento geral, parece que foi há sete décadas. Dilma, agora, é passado. O que esperar, então, do futuro Governo Michel Temer?

Até pelo pouquíssimo tempo passado, pouca coisa mudou desde que Temer assumiu o governo. Operou-se uma reforma ministerial que, se radical nos números (9 ministérios foram extintos), revelou-se profundamente prosaica na forma. O “ministério de notáveis”, prometido quando sua posse era ainda apenas uma promessa, transmutou-se em um dos mais convencionais retratos da política brasileira. Houve loteamento à vontade, inclusive com a ascensão de investigados pela Lava-Jato, tudo para garantir o apoio congressual que tanto fez falta a Dilma Rousseff. De novidade, mesmo, restou apenas a nomeação de Henrique Meirelles para a Fazenda, rodeado por uma espécie de Dream Team econômico, cuja missão é das mais espinhosas de que se tem notícia: tirar o Brasil do buraco em que a presidente afastada nos meteu durante o seu mandato.

De resto, vão se demitindo aos lotes os apaniguados petistas em cargos de confiança para substituí-los por outros, alinhados ao novo governo. Mesmo isso, contudo, leva tempo, dada a imensa quantidade de gente aparelhada na estrutura estatal em 13 anos de governos petistas. Gente, claro, que não está nem um pouco interessada em sair por vontade própria, senão quando for enxotada. Não será de surpreender, portanto, casos de pessoas anunciando que não trabalharão para um “governo golpista”, mas que esperarão pacientemente a demissão pelo Diário Oficial, tal é a indisposição de largar a boquinha.

Enquanto as coisas vão se acomodando, Temer parece não ter tomado ainda pé da situação. Quando murmurou-se nos bastidores que manteria uma equipe “à la Dilma”, no qual até a copa do Planalto dispunha de status de ministério, o ronco das ruas foi tão alto que imediatamente o presidente interino levou o pé à porta.

Faltou, contudo, combinar com os russos. No caso, com seus próprios ministros. O novo ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, sugeriu que se ignorasse a lista tríplice da PGR, passando o presidente a nomear qualquer procurador de carreira. Embora o raciocínio em tese seja válido – afinal, quem tem legitimidade democrática é o presidente, não os procuradores -, foi impossível não rememorar os trágicos anos de “engavetadores-gerais da República” dos governos tucanos. De novo, a rua roncou. E, de novo, Temer voltou atrás.

Do outro lado da Esplanada, a coisa não melhorou muito. O ministro da Educação afirmou que apoiará a cobrança de mensalidades nas universidades públicas, isso numa quadra em que estudantes de todo o país passaram a ocupar as escolas. Talvez achando isso pouco, o ministro da Saúde, Ricardo Barros, resolveu mexer em um vespeiro ainda maior. O novo ministro afirmou que o SUS precisa ser repensado, pois o país não teria como sustentar o modelo tal como está posto. Tudo isso pode até ser verdade, mas precisava dizer agora? Se essa agenda já seria de difícil deglutição em um governo “normal”, sufragado pelas urnas, que dirá em um governo tampão, cuja legitimidade é contestada por parte ainda relevante da sociedade. Nos dois casos, as declarações foram revertidas por meias voltas enxabidas, motivadas pelo contragosto de Temer.

Pode-se pensar que essa bateção de cabeça é natural em um governo que acabou de começar. A conclusão, contudo, é apressada. Temer já articulava a substituição de Dilma há pelo menos três meses, tempo mais do que suficiente para um político experiente como ele evitar semelhantes dissabores. Não parece razoável, portanto, admitir que Temer assumisse o governo tateando no escuro. Seria imprescindível “chegar chegando”, com uma linha de ação definida e um discurso administrativo coeso.

Mais do que um projeto definido, espera-se do vice-presidente um governo de resultados. Sem respaldo popular, é na economia que o presidente interino tem de apostar todas as suas fichas. Contestado pela esquerda e olhado com desconfiança por boa parte dos que celebraram a deposição de Dilma Rousseff, Temer só legitimará o seu mandato se conseguir reverter – e reverter rapidamente – o caos econômico deixado pelo trágico mandato da presidente afastada. Do contrário, tende a ser tragado por uma maré ainda maior do que a que arrastou a virtual ex-presidente da República.

Engana-se, porém, quem acredita ser possível a Dilma Rousseff voltar ao cargo. Mesmo uma débâcle generalizada do governo Temer não representaria salvação para a presidente afastada. Na pior das hipóteses, as pessoas iriam querer defenestrar o vice, mas jamais admitiriam o retorno da titular.

O tempo, portanto, corre contra Michel Temer. Ou ele começa a apresentar para já o que pretende fazer de diferente, ou não terá vida longa no cargo.

E o tempo, como sabemos, passa voando.

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