Recordar é viver: “Panorama atual, ou Dilma vai cair?”

A tônica deste espaço sempre foi rejeitar os oráculos, próprios ou alheios, porque o futuro a Deus pertence.

Mas, neste caso em particular, é inegável constatar que o Blog acertou right on the money.

#ChupaNostradamus 😉

 

Panorama atual, ou Dilma vai cair?

Publicado originalmente em 19.8.15

 

“Dilma vai cair?” Eis a pergunta de 1 milhão de dólares que todo mundo se faz pelo menos desde o começo do ano. Com as ruas novamente tomadas por manifestações populares, um Congresso arisco e a popularidade abaixo do volume morto, a impressão que se tem é que a presidente mal se segura no cargo; qualquer sopro mais forte pode jogá-la para fora do Planalto.

A impressão não é de todo infundada, é verdade. Muito pelo contrário. Antes apenas murmurada nos bastidores de Brasília, a deposição da presidente – por impeachment ou pela renúncia forçada – é hoje discutida ao ar livre. Só isso já confirma a fraqueza do Governo. Estivéssemos em um governo forte, essa questão jamais estaria colocada, muito menos ao ar livre.

Não me interessa, aqui, analisar o mérito de uma eventual deposição da presidente, matéria já largamente abordada aqui no Blog. Interessa-me, contudo, abordar o panorama atual da política brasileira, sob uma ótica estritamente factual. Para tanto, vamos aos fatos:

Fato 1 – O Governo está no chão.

Os petistas podem reclamar à vontade, mas o fato é que o Governo não tem mais força pra coisa alguma. Nem um simples pedido de adiamento de votação no Congresso o Governo consegue mais aprovar, como ficou comprovado com a votação da PEC da AGU. Se isso ainda fosse pouco, o Governo perdeu completamente o controle da agenda no país, a ponto de se agarrar como náufrago nas propostas de Renan Calheiros, vistas como última bóia de salvação, ainda que muitas delas fossem diametralmente opostas ao programa do PT.

Fato 2 – A oposição não tem força pra derrubar o Governo.

A incompetência da oposição brasileira já foi objeto de análise neste espaço uma dezena de vezes. E,  depois de tanto tempo, o laudo segue o mesmo: ela continua tão inoperante quanto antes. O PSDB ainda esboçou uma aproximação envergonhada aos movimentos que organizaram as passeatas de 16 de agosto último, mas o fato é que os movimentos de rua passam ao largo dos partidos. São os movimentos que conduzem os partidos, e não os partidos que conduzem os movimentos. Disso resulta que a avassaladora insatisfação popular com Dilma Rousseff não consegue se transformar em fator de desestabilização definitiva do seu Governo. Por isso, mesmo no chão, o Governo não caiu ainda.

Fato 3 – Não há consenso sobre o que vai acontecer no day after.

Fora a incompetência da oposição, ninguém chegou ainda a um consenso sobre o que fazer caso Dilma venha a realmente ser deposta. José Serra, por exemplo, preferiria assumir um cargo de Ministro da Fazenda em um eventual governo de transição de Michel Temer. Aécio Neves, por sua vez, seria partidário da tese de que o vice deveria ser levado de roldão, convocando-se novas eleições em 90 dias, para que, valendo-se do recall da última eleição, pudesse dessa vez ser sufragado pelas urnas. E aí reside o problema: ninguém vai tirar Dilma sem saber o que será colocado em seu lugar.

À primeira vista, portanto, Dilma Rousseff, ainda que alquebrada e mal das pernas, cumpriria o mandato.

Todavia, essa conclusão é precipitada. Afinal, há um aspecto circunstancial que passa à margem do jogo político e sobre o qual os conchavos de Brasília não têm qualquer controle: a Operação Lava-Jato.

De fato, o principal fator de desestabilização não só do Governo, mas de toda a estrutura política brasileira, reside em Curitiba, conduzido pela caneta competente de Sérgio Moro. Até agora, a investigação comandada pelo juiz paranaense já produziu mais estrago no mundo político do que todas as outras operações da Polícia Federal deflagradas até hoje. E nada leva a crer que seu potencial destrutivo esteja perto do fim.

Sabe-se, por exemplo, que Renato Duque, Fernando Baiano e Nestor Cerveró, pressionados pela prisão longeva e pelos familiares, estariam hoje mais propensos a assinar acordos de delação premiada. Se isso realmente vier a acontecer, PT e PMDB, os dois maiores partidos do consórcio político que governa o país há mais de doze anos, sofrerão consequências apocalípticas. Não custa lembrar que, quando Paulo Roberto Costa, homem do PP, resolveu abrir a boca, pelo menos metade da bancada do partido na Câmara viu-se em maus lençóis. Tudo indica que as delações do trio de ferro mencionado anteriormente terão efeitos catastróficos semelhantes ou maiores do que o do primeiro homem-bomba da Lava-Jato.

Confirmada essa hipótese, seria difícil imaginar Dilma Rousseff terminando o mandato, quiçá este ano. Se, com o estrago feito até o momento, o país está praticamente ingovernável, não é difícil imaginar o que aconteceria caso se concretize o cenário de “terra arrasada” resultante da delação de homens-chave do esquema de corrupção na Petrobras: governabilidade em frangalhos, crise sucessivas no Congresso e instauração de um clima de “salve-se-quem-puder” em Brasília.

Nessa conjuntura, o pouco de apoio que Dilma ainda recolhe em setores relevantes da economia se esvairia como grãos de areia ao vento. Receosos do agravamento da débâcle econômica, os empresários do país poderiam entender que seria preferível um fim horroroso a um horror sem fim. Ou seja: melhor pagar pra ver se da queda de Dilma resultaria alguma melhora no ambiente econômico do que ver a crise se arrastando indefinidamente até 2018, sem nenhuma perspectiva de melhora.

Analisando-se friamente o cenário atual, a única conclusão a que se chega é a de que o mandato de Dilma Rousseff pende por um fio. Resta apenas saber qual será o tiro de misericórdia que detonará o processo de deposição da presidente.

É triste, mas é verdade.

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