A “espanholização” do futebol brasileiro

A tese é antiga e, devo confessar de pronto, não pertence a este que vos escreve. Em meu favor, pode-se dizer que não há tampouco pai oficial para a criatura. Já houve casos dessa tendência identificados por Mauro Cézar Pereira, Paulo Vinícius Coelho e Tostão, por exemplo. Até mesmo o indefectível Eurico Miranda já a denunciou em público. A tese é a seguinte: está em curso no Brasil um processo de “espanholização” do futebol.

Mas o que raios significa isso?

Como todo mundo sabe, o campeonato espanhol encerra um certame no qual só existem dois verdadeiros candidatos ao título: Barcelona e Real Madrid. Os demais 18 times que o integram fazem apenas figuração. Basta dizer que, nos últimos trinta anos, o time da capital espanhola e o da capital da Catalunha levantaram nada menos do que 25 taças (13 para o Barcelona e 12 para o Real Madrid). As cinco honrosas exceções ficaram por conta de Atlético de Madrid (temporadas 95/96 e 13/14), La Coruña (99/00) e Valencia (01/02 e 03/04). Trocando em miúdos, isso significa que apenas dois times concentraram mais de 80% dos títulos, com apenas 3 ficando com os 20% restantes.

La Liga, como a chama os espanhóis, reúne a nata do futebol mundial; isso ninguém discute. Em outros tempos, costumava-se apontar o campeonato italiano como a grande Meca do futebol mundial. Todavia, depois da débâcle da máfia italiana com a Operação Mãos Limpas, parte do dinheiro que era lavado através da compra e venda de jogadores deixou de irrigar determinados times da Bota. O resultado foi o declínio do campeonato italiano como um todo e a ascensão do campeonato espanhol e, em menor grau, do campeonato inglês.

No caso brasileiro, nunca houve semelhante proeminência. A despeito de ser reconhecido como um dos grandes celeiros do futebol mundial, o campeonato nacional do Brasil jamais despertou grande atenção fora do país. Não por acaso. Afinal, desde a década de 80 o maior objetivo dos grandes clubes do Brasil era peneirar um craque fora-de-série para vendê-lo o quanto antes para algum time no exterior. Se possível, com uma gorda comissão rolando por fora, caindo direto no bolso dos dirigentes.

Em que pese o menoscabo da imprensa mundial e dos próprios cartolas pela qualidade e imagem do campeonato nacional, o fato é que o Brasileirão dava de 10×0 em qualquer campeonato internacional quando o quesito era emoção. Prova maior do que se está afirmando reside no fato de que, até a introdução do modelo de pontos corridos, jamais se repetiu uma final entre dois times no campeonato brasileiro. Houve times campeões mais de uma vez, é claro. Mas finais repetidas é algo que nunca se viu por aqui em mais de três décadas.

Ocorre, todavia, que nos últimos anos o aparente equilíbrio futebolístico brasileiro ameaça ser rompido. Tudo, claro, por conta do maior motor de desastres já inventado pelo gênero humano: o dinheiro.

Flamengo e Corinthians reúnem, sem maiores questionamentos, as duas maiores torcidas do país. Ao menos em tese, são também os dois times com maior audiência quando há jogos transmitidos na TV aberta ou na TV fechada. Consequentemente, são os dois times com maior potencial de atração de mídia publicitária. Por isso mesmo, são os mais bajulados e paparicados pela grande patrocinadora do futebol brasileiro: a Rede Globo.

Valendo-se de sua posição dominante no mercado, a Globo implodiu o chamado Grupo dos 13 quando este resolveu abrir uma concorrência sobre os direitos de transmissão do Brasileirão. Numa negociação na qual se misturaram cenouras e porretes, a Globo implodiu o Grupo dos 13, negociando um a um com os times o valor que receberiam pela transmissão de seus jogos.

Assim como em qualquer outro esquema da vida, quem pode mais, ganha mais. Foi o que aconteceu com Flamengo e Corinthians. Se antes os dois times recebiam o mesmo que, por exemplo, Vasco, São Paulo, Palmeiras e Fluminense, agora passaram a receber muito mais. Em relação a times de menor expressão, como alguns times do Sul do Brasil, a diferença é assustadora: Flamengo e Corinthians recebem quase o dobro deles.

E daí?

Daí que é justamente nesse desequilíbrio financeiro que reside o risco de espanholização no campeonato brasileiro. É evidente que, ganhando muito mais do que os outros, Corinthians e Flamengo tenderão a prevalecer sobre os demais, porque poderão comprar jogadores de maior renome e contratar técnicos de melhor gabarito.

É bem verdade que o Flamengo tem se mostrado incompetente desde sempre para alcançar esse objetivo, mas o Corinthians já venceu três vezes o Brasileirão na última década, dois deles apenas nos últimos 5 anos. Se por alguma obra milagrosa do destino o clube da Gávea conseguir colocar em marcha uma prática gerencial decente, estaremos nos arriscando a ver reprisado no Brasil o mesmo drama que marca o campeonato espanhol.

O grande problema, por óbvio, nem é tanto o privilégio na distribuição de dinheiro a Flamengo e Corinthians, mas o modelo de negócios escolhido pelos dirigentes brasileiros. Ao aceitarem negociações individuais, com uns ganhando mais do que os outros, os times brasileiros acabam se desvalorizando perante a Globo, virtualmente a única compradora dos seus direitos de transmissão. Se os clubes se unissem, repartindo de maneira mais igualitária as quotas televisivas, a conversa seria outra.

Apenas para efeito de comparação, em Portugal os três maiores clubes resolveram negociar com as principais retransmissoras do país seus direitos televisivos. Cada qual fechou com a sua em separado, mas o leilão em conjunto não poderia ter resultado melhor. No total, Sporting, Benfica e Porto conseguiram receber mais de EU$ 1,350 bilhão. Quando se sabe que Portugal em uma população 20 vezes menor do que a brasileira, dá pra se ter uma idéia da quantidade de dinheiro que os clubes jogam fora ano a ano ao negociarem exclusivamente com a Globo.

Ou os times brasileiros se unem para explorarem com um mínimo de competência o enorme potencial publicitário de que dispõem, ou daqui a pouco teremos o nosso próprio Campeonato Espanhol em particular.

Quem viver, verá.

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