Recordar é viver: “A queda do barril de petróleo, ou Um novo mundo que se desenha”

Quando este post foi escrito, o preço do barril do petróleo estava a US$ 63,00. Hoje, está a menos da metade disso, com previsão de mais queda pela frente.

E pensar que teve gente que disse que eu tinha enlouquecido ao prenunciar a débâcle do óleo negro.

Nada como um dia após o outro…

A queda do barril de petróleo, ou Um novo mundo que se desenha

Publicado originalmente em 4.12.14

O preço do petróleo é um assunto que normalmente não costuma tirar o sono do consumidor comum. Salvo quando barril dá um salto e o aumento se reflete na bomba de gasolina, ninguém está nem aí para as variações no preço da commodity mais comercializada e cobiçada do planeta. Talvez por isso mesmo, pouca gente deu bola para o atual declive das cotações do óleo negro no mercado internacional. É pena, porque, por trás desse movimento, pode estar se desenhando uma nova ordem mundial.

Para situar quem está por fora, a cotação do barril de petróleo atingiu nesta semana a mínima nos últimos cinco anos. Depois de passar alguns anos estabilizado em torno de US$ 110,00 o barril, o mercado tem testado preços que não se viam desde a ressaca provocada pela quebra do Lehman Brothers, em 2008. Na última segunda-feira, o barril do Brent fechou cotado a US$ 63,00.

Dentre as explicações para o recente movimento de queda, sobressaem-se duas: primeiro, o comportamento claudicante da economia mundial; segundo, a elevação da produção de petróleo dos Estados Unidos, a partir da extração do xisto. No primeiro caso, com a economia andando em marcha lenta, diminui o consumo do ouro negro. No segundo, a virtual autossuficiência dos Estados Unidos tira do mercado o maior e mais cativo consumidor de petróleo do planeta. Combinados esses dois fatores, não fica difícil entender a queda do barril do petróleo: a oferta está superando em muito a demanda.

Por trás desse viés de baixa das cotações, esconde-se um intrincado movimento geopolítico no qual é difícil entender a conciliação de interesses comerciais com jogadas aparentemente contraditórias.

Como todo mundo sabe, a Arábia Saudita é o maior produtor mundial de petróleo. Da mesma forma, os Estados Unidos são os seus maiores clientes preferenciais. No entanto, na última reunião da Opep, os sauditas barraram um corte coordenado na produção mundial de petróleo, algo que poderia interromper a queda livre dos preços do barril de petróleo.

E aí surge a pergunta: por que os sauditas impediram uma manobra que, em tese, seria beneficiária aos seus interesses?

A resposta reside no horizonte em que funciona o raciocínio dos árabes. No curto prazo, de fato, um corte na produção poderia resultar em preços mais altos, aumentando a receita da venda de petróleo. No entanto, no longo prazo interessa à Arábia Saudita jogar ainda mais pra baixo as cotações. Uma vez que os custos de produção do óleo retirado do xisto é infinitamente maior do que os dos poços rasos do Oriente Médio, a idéia é fazer com que o preço do barril caia de tal maneira que torne inviável a exploração do óleo incrustado nas reservas de xisto americanas. O jogo, portanto, é de xadrez, não de damas.

O problema é que, do lado norte-americano, o movimento não é de todo indesejável. Apesar de a queda pressionar no sentido contrário a continuidade da exploração do xisto, por outro lado ela destrói o orçamento de economias maciçamente dependentes da exportação de petróleo. E quais países se enquadram nessa situação? Rússia, Irã e Venezuela. Ou seja: os três principais inimigos geopolíticos dos Estados Unidos são os mais prejudicados pela queda das cotações do barril.

Na Rússia, já em recessão, o rublo desvalorizou-se 20%, caindo ao menor patamar em 4 anos. Irã e Venezuela encontram-se em petição de miséria, e é difícil enxergar até onde será possível manter a estabilidade social quando o país não consegue fechar as contas do orçamento. Nesse panorama, é mais razoável acreditar que os Estados Unidos continuarão a explorar o gás de xisto no matter what, do que pensar em uma eventual suspensão da extração por conta dos altos custos de exploração.

Se isso não fosse o bastante, o próprio consumo de petróleo pode estar em xeque. Alarmados com os sinais de mudança climática que pipocam em todo o globo, os líderes mundiais parecem finalmente dispostos a mudar a cadeia econômica que lança uma quantidade de CO2 na atmosfera jamais vista na história do planeta. Ao contrário de outras conferências mundiais, parece que enfim a galera caiu em si e passou a discutir a sério alternativas energéticas que deixem de lado a queima excessiva do combustível fóssil, a principal responsável pela emissão de gás carbônico no ambiente.

Quando o Brasil descobriu as reservas do pré-sal em 2008, parecia que tínhamos ganhado na loteria. Hoje, observando o cenário mundial, fica a inquietante impressão de que a descoberta pode ter acontecido tarde demais. Como Delfim Netto gosta de repetir, a Idade da Pedra não acabou por falta de pedra. O mesmo pode acontecer com o petróleo.

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