Recordar é viver: “O protótipo do grande estadista”

A História sempre foi uma das seções favoritas deste espaço.

Somando-se a ela a seção mais nostálgica do Blog, o resultado é relembrar um dos primeiros posts sobre o assunto.

Porque, no mundo tão carente de líderes dignos do nome, é necessário recordar as grandes figuras da História.

O protótipo do grande estadista

Publicado originalmente em 25.3.11

Parecia a visita de um popstar. Quando Obama desembarcou por aqui, até parecia que era o “político mais popular da terra” (Lula). Como sempre, não faltou quem viesse a chamá-lo de estadista.

Toda vez que aparece um político que sai um pouquinho do lugar comum, que tenha algum tipo de carisma e que tenha uma boa assessoria de redação de discursos, já vem algum jornalista mais apressadinho para rotulá-lo de estadista.

Estadista, no seu conceito original, é o sujeito acima dos partidos, que conduz os negócios do Estado segundo seu convencimento e, antecipando-se à sucessão dos fatos, consegue conduzi-los na direção daquilo que deseja.

Por esse conceito restrito, há poucos estadistas na história toda. Na atualidade, não consigo me recordar de nenhum. Mesmo no século XX não houve muitos. Churchill, na minha opinião, foi o maior deles. Mas também houve Roosevelt, Truman, De Gaulle (com ressalvas), Mao (com mais ressalvas ainda) e Stálin (no comments).

Obama ainda está bem longe dessa turma toda. Tomara que chegue, mas ainda há um longo caminho e muito feijão a comer.

Embora eu seja fã declarado de Churchill, houve um sujeito que, na minha opinião, foi o verdadeiro protótipo, o exemplo mais bem acabado de estadista. A nacionalidade dele? Alemã (na verdade, prussiana). O nome dele? Otto von Bismarck.

Quando Bismarck assumiu como primeiro-ministro da Prússia, tinha um plano muito bem planejado na cabeça: transformar a Prússia na maior e mais poderosa nação da Europa.

A tarefa não era nada fácil. A Prússia, embora bem desenvolvida para a época, era um país de dimensões pequenas. Havia muitos rivais maiores e mais poderosos (Rússia, França, Inglaterra, só pra citar três). Além disso, a Prússia tinha um rival nada desprezível na sua “área de influência”: a Áustria (à epoca, o Império Austro-húngaro).

Pra transformar a Prússia em uma grande nação, era necessário duas coisas: grande território e grande população. Em outras palavras: era preciso expandir o território e unificar os estados germânicos em torno da Prússia. Tudo isso sem deixar que a Áustria fizesse parte do esquema, pra não rivalizar com a Prússia na disputa sobre a influência na futura nação alemã.

O que Bismarck fez?

Inicialmente, garantiu a retaguarda. Aliou-se aos junkers, a classe rica e aristocrática da Prússia para garantir apoio financeiro e político. Depois disso, rearmou, aumentou o efetivo e treinou o exército prussiano, de modo a que pudesse rivalizar com o resto da Europa.

Com a certeza da vitória, marchou em direção ao seu plano.

Primeiro, aliou-se – veja você – à Áustria, numa guerra contra a Dinamarca por alguns ducados do país de Hamlet. Bismarck combinara que, após a guerra, dividiria com a Áustria a administração dos territórios conquistados. Bismarck sabia que o apetite dos austríacos era maior do que a boca, e que, mais hora, menos hora, eles acabariam querendo tomar tudo para si.

Dito e feito. Algum tempo depois, a Áustria quis implantar uma política em um dos ducados conquistados que privava a Prússia dos direitos que teria segundo os acordos firmados. “Sem opção”, Bismarck declarou guerra à Áustria. Com o auxílio da Itália, venceu os autríacos e passou a mandar sozinho “nas área”.

Faltava, contudo, o pretexto para justificar a anexação dos estados germânicos sob a influência da Prússia em uma nova nação.

E aqui o gênio de Bismarck atingiu seu ápice.

Com a Áustria fora da jogada, Bismark trouxe para debaixo de seu braço os estados germânicos do Norte. Formou-se uma confederação de estados germânicos, com clara primazia da Prússia. Os estados do sul, reticentes, não concordaram em se unir à confederação. Porém, sem o apoio da Áustria, concordaram em aceitar que, em caso de guerra com a França, lutariam ao lado dos prussianos, sob o comando destes.

Como você já deve ter adivinhado, restava somente a confirmação do pretexto: uma guerra contra a França.

Bismarck arquitetou uma armadilha perfeita, na qual o ingênuo e patético Napoleão III caiu como um patinho.

A Espanha, à época, estava sem rei. O postulante mais próximo na linha hereditária seria Leopoldo, que era primo distante de Guilherme I, Rei da Prússia. A França, obviamente, recusou-se a aceitar ficar “cercada” por prussianos. Exigiu que fosse nomeado outro rei para a Espanha. Bismarck, então, convenceu Leopoldo a desistir do trono espanhol. E assim foi feito.

Mas Napoleão III não ficou satisfeito. Queria mais. Queria uma “garantia” de Guilherme I de que jamais um membro de sua família viria a ocupar o trono espanhol. Bismarck redigiu, em nome de Guilherme I, uma carta “levemente” ofensiva a Napoleão III. Disse ele que não era Mãe Dinah pra prever o futuro, e que, portanto, não tinha como dar tal garantia.

Luís Bonaparte tomou a recusa como ofensa. Num ato típico de sua insensatez política, declarou guerra à Prússia. Com isso, deu a Bismarck o pretexto que queria para unificar os estados germânicos sob o comando da Prússia.

O resto da história é conhecido: na guerra franco-prussiana, a Prússia fez miséria com o exército francês, encurralando-o numa manobra de cerco na famosa batalha de Sedan. Napoleão III, sempre astuto, estava lá, e acabou preso pelos alemães.

Ganhada a guerra, Bismarck organizou com toda a pompa a unificação da Alemanha. Mandou que se preparasse o Palácio de Versalhes para a ocasião e, lá, Guilherme I foi coroado Imperador da Alemanha. Nascia o II Reich Alemão (o I teria sido com Carlos Magno, Imperador do Sacro-Império Romano Germânico).

A sagacidade de Bismarck mostra como um único homem, com habilidade para administrar a própria ambição, pode mudar os rumos da história.

Com exemplos como esse, fica difícil sair chamando qualquer presidente de estadista por aí.

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