Recordar é viver: “A armadilha cambial brasileira”

A Economia é um dos temas mais presentes deste espaço. Não à toa. Muitas das coisas que compõem o cenário econômico acabam, de uma forma ou de outra, direta ou indiretamente, influenciando o nosso cotidiano.

Sendo assim, vamos relembrar um dos primeiros posts do Blog sobre o tema. E, infelizmente, ele parece mais atual do que nunca. É o que você entenderá, lendo-o.

A armadilha cambial brasileira

Publicado originalmente em 4.3.11

Pra equilibrar um pouco os temas, vou escrever mais alguma coisa sobre economia.

Agora que o juro subiu de novo, todo o dia aparecem comentaristas falando sobre os efeitos dos juros sobre a economia. A maior parte dos economistas decentes critica especialmente o efeito nefasto da alta dos juros sobre o câmbio, porque sobrevaloriza o real. Com isso, prejudica-se a indústria dos dois lados: por um lado, torna os produtos brasileiros mais caros pra vender ao exterior; por outro, torna ainda mais baratos os produtos importados. Ou seja: a indústria tanto apanha como batem nela.

Mas por que é assim? Vou tentar explicar sinteticamente:

Suponhamos uma cotação de US$1 para cada R$ 2 (ou seja, dois reais para comprar um dólar).

O sujeito vai nos Estados Unidos, onde os juros anuais – isso mesmo, ANUAIS – estão entre 0 e 0,25% e toma US$ 100 milhões emprestados. Em um ano, terá de desembolsar para pagar o empréstimo a quantia aproximada de US$ 100.250.000,00. Beleza.

Pega esses US$100 milhões, traz pro Brasil e compra R$ 200 milhões. Empresta ao governo brasileiro, que paga juros módicos de 11,75% ao ano. Ao final de um ano, se mantida a cotação de US$1 pra R$ 2, terá R$ 223.500.000,00.

Transformando esses R$ 223.500.000,00 em dólares, teremos US$ 111.750.000,00.

Subtraindo-se o dinheiro que ele conseguiu num ano, ele paga o empréstimo (US$ 100.250.000,00) e ainda sobram, limpinhos no bolso, US$ 11.500.000,00.

Isso é o que se chama diferencial de juros ou o que o pessoal do mercado financeiro chama de cupom cambial.

Mas esse é um exemplo – digamos – bonzinho, pois considera a cotação constante durante o ano.

Acontece que, quando se traz mais dólares para o país, a tendência do dólar é ir ladeira abaixo. A velha e boa lei da oferta e da procura: quanto mais mercadoria há (nesse caso, o dólar), menor o preço que as pessoas se dispõem a pagar por ela.

Nesse mesmo caso, suponhamos, ao invés de uma cotação constante, uma valorização do real da ordem de 20%. Ao invés de US$1 pra cada R$ 2, teríamos US$1 comprando apenas R$ 1,60.

Ao final do ano, o sujeito que trouxe dinheiro dos EUA teria os mesmos R$ 223.500.000,00. Só que, ao invés de US$111.750.000,00, ele compraria aproximadamente US$ 140 milhões. Com isso, para o empréstimo e ainda sobram irrisórios US$ 40 milhões.

Em um único ano, o “investidor estrangeiro” teria tido um rendimento de 40% sobre o capital tomado emprestado. Isso sem derramar uma única gota de suor ou empurrar um mísero prego numa barra de sabão.

Em relação à exportação e à importação, a explicação é mais ou menos a mesma.

Suponha um industrial que produz uma máquina qualquer a R$ 100,00. Considerando a cotação de US$1 pra R$ 2, ele pode exportar à mercadoria a US$ 50,00. Ok.

Só que se a cotação baixa pra US$1 pra R$1,60, a mesma mercadoria custará ao comprador estrangeiro US$ 62,50. Isso – repare – sem que tenha havido qualquer aumento no preço de fabricação do produto. De duas, uma: ou o sujeito diminui sua margem de lucro – se ainda for possível – ou desiste de exportar, porque não vai vender uma máquina que de repente ficou mais cara, enquanto seu concorrente chinês fabricar o mesmo produto por um terço do preço.

Na mão contrária, uma garrafa de vinho que custe US$ 100 chegará ao Brasil custando R$ 200. Com a valorização do câmbio, a mesmíssima garrafa, sem qualquer diminuição do preço de venda, custará ao consumidor final R$ 160,00.

Não há indústria que agüente.

O fato é que, enquanto continuarmos pagando a maior taxa de juros real do planeta, vamos continuar presos nessa armadilha. Armadilha que ceva os “investidores internacionais” e detona a indústria e os empregos dos brasileiros.

Isso não tem como acabar bem.

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