A tempestade perfeita, ou Qual a saída para o Brasil?

Desde o fim da apuração das eleições presidenciais não se fala em outra coisa. Quando a presidente Dilma Roussef demitiu Guido Mantega no meio da corrida eleitoral, ficou todo mundo a especular quem seria o novo comandante da Fazenda. Seria alguém que representaria mais do mesmo? Ou seria alguém mais alinhado ao mercado?

Passado quase um mês depois da eleição, a resposta a essa pergunta continua em aberto. Muito por incompetência da oposição, é verdade, que deixou a candidata à reeleição transformar Guido Mantega em um “ex-ministro-em-atividade” sem em momento algum fustigá-la com uma pergunta básica: a demissão de Mantega representa ou não uma mudança na política econômica praticada até então? E é justamente essa dúvida não respondida que fez o mercado passear na montanha-russa nas últimas três semanas, sem saber qual rumo a nau brasileira tomaria.

Independentemente de quem venha a ser nomeado ministro da Fazenda, o cenário para 2015 é desolador. Conforme foi antecipado aqui, todos os problemas represados pela disputa eleitoral tendem a explodir no ano que vem. Se isso não fosse o bastante, avizinha-se no panorama internacional uma conjunção de fatores que pode transformar o que já seria uma travessia difícil numa verdadeira tormenta para a economia nacional.

De cara, dá-se de barato que a política de distensão praticada pelo Banco Central dos Estados Unidos chegará ao fim. Os estímulos monetários promovidos pelo Fed, aos quais se convencionou dar o nome de quantitative easing, acabaram no mês passado. No decorrer do ano que vem, é bem provável que a taxa de juros americana volte a subir.

E daí?

Daí que se encerrará quase uma década de dinheiro fácil rolando pelo mundo. A derrama de dólares levada a efeito pelo Fed para combater a crise de 2008 inflacionou ativos mundo afora e permitiu a diversos países com problemas na sua balança de pagamentos – Brasil inclusive – se financiarem sem maiores transtornos. Quando a taxa de juros de lá começar a subir, a fonte vai secar.

Subitamente, o Brasil vai se descobrir com um rombo de 4% do PIB nas contas externas sem alternativa fácil à mão para financiá-lo. A balança comercial, que poderia amenizar o déficit, terminará este ano no zero, se não terminar deficitária. Nada garante imaginar que 2015 será diferente, ainda mais com a queda acentuada no preço das commodities.

Falando em commodities, é delas que vem outra má notícia para o país. Boa parte do nosso superávit comercial foi sustentado por vários anos pelas exportações de produtos básicos, como minério de ferro. A alta desses produtos derivou fundamentalmente do milagre econômico chinês, que conduziu o país por duas décadas a crescimentos anuais do PIB à razão de dois dígitos. No ano passado e neste, a China não cresceu mais do que 7,5%, e tudo indica que a desaceleração continuará.

O Brasil, claro, poderia tentar compensar o déficit externo com as exportações de petróleo do pré-sal. Em 2015, já se espera um aumento substancial na produção do óleo negro. Só que nem isso pode resolver. Afinal, o preço do petróleo despenca ladeira abaixo já há algum tempo, arriscando até mesmo a viabilidade comercial da exploração abaixo da camada de sal (que depende de um barril a US$ 47,00 para ser lucrativa).

Como o Governo já descartou um “choque fiscal” à la PSDB, a tarefa de contenção da inflação recairá quase que exclusivamente nas costas do Banco Central. Isso significa, trocando em miúdos, mais aumento de juros, menos dinheiro em circulação e uma atividade econômica deprimida, depois de arrostar três anos de crescimento nulo.

Somado a tudo isso, deve-se acrescentar o quase certo rebaixamento do rating do Brasil pelas agências de classificação de risco. Deixando-se de lado discussões acerca da credibilidade das avaliações que produzem – este que vos escreve, por exemplo, não dá um tostão furado por elas -, o fato é que a perda do “grau de investimento” do país provocará uma sangria financeira difícil de estancar, pressionando a cotação do dólar e, por tabela, o patamar da taxa básica de juros.

 A verdade – é triste dizer – é que, seja quem for o escolhido para a Fazenda, seja qual for a cartada econômica de que lance mão, tudo isso pode ser em vão se o cenário externo não mudar.

Tempos difíceis nos aguardam.

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2 respostas para A tempestade perfeita, ou Qual a saída para o Brasil?

  1. André disse:

    Não resta dúvida que 2015 será um ano difícil e cheio de desafios na economia, mesmo um paliteiro como eu o reconhece.
    Contudo, caro amigo, diante dessa análise, parece que aquela “recessão técnica” anterior ao período eleitoral, que afinal não se efetivou, para desencanto de meio mundo, será fichinha diante do caos que nos espera.
    Teremos, então, inflação superando a banda da meta (se ficar em 7% já será um milagre), a recessão será inevitável, o desemprego atingirá pelo menos os 7%, a renda média do trabalhador diminuirá; a taxa selic irá para um mínimo de 14%; será isso que nos espera?
    Realmente o ano de 2014 será de crescimento nulo. A construção “três anos de crescimento nulo” acredito ter sido equivocada, haja vista que o crescimento do PIB em 2013 foi de 2,3%, em 2012 de 1% e em 2011 de 2,7%.

    Um abraço.

    • arthurmaximus disse:

      Por partes, meu caro membro da Nomeklatura:
      Primeiro, a recessão técnica se efetivou, sim. Quando o PIB cai por dois trimestres consecutivos, o país está tecnicamente em recessão. E isso aconteceu nos dois primeiros trimestres deste ano.
      Segundo, não arrisquei números (aliás, em matéria de Economia, arriscar números quase sempre é sinônimo de chutar). Mas o fato incontornável é que só há duas alternativas: ou um ajuste fiscal severo; ou ajuste fiscal meia-boca. No primeiro caso, a recessão (e o desemprego) virá por gravidade. No segundo, um quase certo aumento de juros dos EUA levaria o país a uma fuga de capitais, conduzindo, novamente, à recessão (e ao desemprego).
      Terceiro, como 2015 já foi pro espaço, a média do triênio 2013-2014-2015 dificilmente ficará acima de 1%, o que é inferior ao crescimento vegetativo da população. Pode-se discutir se o crescimento de 1% pode ser considerado nulo, como escrevi, mas tenho lá minhas dúvidas se, do ponto de vista prático, a questão não ficaria reduzida a uma discussão semântica.
      Um abraço.

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