A tal da confiança, ou Os fatores psicológicos da Economia

Não tem pra onde correr. Da direita à esquerda, do Mercado ao Governo, de ministros que saem e ministros que ficam, o discurso é um só: para voltar a crescer, o Brasil precisa “resgatar a confiança na economia”.

Para a maior parte da população, toda vez que um político fala em “resgate da confiança”, o sujeito se esconde embaixo da cama. Ao lado de”promover um ajuste” e “fazer o dever de casa”, “resgatar a confiança” é uma daquelas expressões típicas dos pacotes nos quais o Governo entra com a faca e o cidadão, com o bolso.

Mas por que a tal da confiança é tão importante para a economia?

À partida, há de se entender que, ao contrário do que propalam os “çábios” do Mercado, a economia não é uma ciência exata. Muito mais até do que outras, a ciência econômica é uma ciência humana, isto é, é um estudo desenvolvido através de um método no qual o homem, com todas as suas idiossincrasias, representa papel fundamental.

Sabendo-se que a economia é uma ciência humana, pode-se entender como estados psicológicos tão intangíveis como a “confiança” podem influenciar no seu desempenho. Se o sujeito acredita que a economia vai bombar, fica mais propenso a gastar e a tomar crédito. Com mais dinheiro em circulação, aumenta a venda de produtos e serviços no comércio. Consequentemente, aumenta a produção na indústria. No cômputo geral, os trabalhadores aumentam sua renda, enquanto os empregadores aumentam os seus lucros. Com isso, o Governo arrecada mais. Todo mundo sai ganhando.

Na outra ponta, o inverso também é verdadeiro. Se o sujeito acha que a economia vai ficar deprimida, segura o bolso, guarda o pouco de dinheiro que tem no banco e fica na moita, esperando a chuva passar. Com isso, diminuem os empréstimos bancários, a quantidade de dinheiro em circulação cai, o comércio passa a vender menos e a indústria perde a sua demanda. Nesse cenário, o Governo arrecada menos. Resultado: todo mundo sai perdendo.

Repare que todo esse movimento, seja para um lado, seja para o outro, é influenciado diretamente pelo estado espírito do cidadão comum. Do ponto de vista científico, não há nenhum fator objetivo que possa determinar o “nível de confiança” dos agentes econômicos. Tudo fica a depender da análise individual que o sujeito faz a respeito do futuro. Uma vez que o futuro a Deus pertence, o desempenho global da economia depende fundamentalmente de um único fator: especulação.

“Especulação” está aqui, entenda-se, não no sentido pejorativo que lhe pespegaram jornalistas pouco informados, quando analisam variações bruscas nas bolsas de valores, mas no sentido da tentativa de predição do comportamento da economia. E é nesse aspecto que a atitude governamental pode fazer a diferença.

Se, por exemplo, o Governo gasta mais do que arrecada, é sinal de que a inflação tende a subir. Se a inflação subir, a capacidade aquisitiva da população cai. Logo, o povo compra menos. Para combater a inflação, sobem-se os juros, o que torna mais caro os empréstimos. Pior. O aumento da taxa de juros desestimula quem tem dinheiro a investir em produção. Muito melhor investir em títulos do Governo, que garantem uma boa renda anual com risco zero.

Se, por outro lado, o Governo pratica uma política fiscal crível, gastando menos do que arrecada, a tendência da inflação é cair. Com menos inflação, a população não perde poder de compra e, por conseguinte, compra mais. Da mesma forma, sem risco inflacionário, a tendência é de que os juros baixem, barateando o crédito na economia. E, com juros mais baixos, os fat cats tomam coragem para investir em produção, com expectativa de retorno maior do que os títulos da dívida pública.

A questão da confiança, em suma, passa pela atitude do Estado frente aos desafios econômicos que se lhe apresentam pelo caminho. Sob esse prisma, o sucesso da política econômica reside fundamentalmente na capacidade que o Governo tem de fazer com que os agentes econômicos acreditem que as suas decisões resultarão em um ambiente mais seguro e mais próspero aos negócios. Tudo, portanto, se resume ao grau de confiabilidade que o Governo desperta no cidadão.

E confiança, como dizia a propaganda, é como estilo: ou você tem, ou você não tem.

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2 respostas para A tal da confiança, ou Os fatores psicológicos da Economia

  1. André disse:

    Bem elucidativo e didático o texto, especialmente para os que como eu conhecem pouco ou nada de economia.
    Como dissestes a economia não é uma ciência exata, mas qual seria o peso de cada agente econômico nesse processo? A impressão que tive, corrija-me se estiver enganado, é que colocastes o cidadão comum na vanguarda desse processo de percepção da tão propalada “confiança” ou pelo menos num nível de importância que na vida real ele não tem.
    O agente econômico cidadão comum é influenciado nesse nível de confiança principalmente pelo governo ou há um peso substancial de outros agentes nesse processo? Acredito que o papel do estado é preponderante, mas afinal o “mercado” e outros agentes poderosos podem trabalhar para influenciar o cidadão a uma percepção negativa da economia, portanto, contrária ao governo, quando se sentem ameaçados em seus interesses de amealhar ganhos exorbitantes?
    Torço para que a solução seja simples como a exposta no final do texto – ” Tudo se resume ao grau de confiabilidade que o governo desperta no cidadão”. Sinceramente, não acredito.

    • arthurmaximus disse:

      Na verdade, André, o cidadão comum não representa a “vanguarda” desse processo de percepção de confiança. Ele está mais para o “motor” da confiança. Se estiver bem, a economia andará bem. Se estiver mal, a economia tenderá a andar mal. É evidente que outros agentes podem influenciar o humor do cidadão comum, mas eu não atribuo a essa influência um peso decisivo. Em primeiro lugar, porque, no caso dos agentes econômicos responsáveis pelos investimentos (pessoas jurídicas e empresários), eles mesmos fazem suas análises com algum critério próprio, sem levar muito em consideração a opinião, por exemplo, da imprensa. Em segundo lugar, porque, ainda que a imprensa queira pintar um quadro negativo, a população não será influenciada se a perspectiva não se assentar em algo concreto. Pode-se lançar uma manchete afirmando que a inflação está descontrolada. No entanto, se o consumidor verifica no supermercado que os preços não subiram, não vai dar a mínima para o que diz a revista. A grande questão, como reconhece o próprio Governo, é que em algum momento a confiança que ele seria capaz de despertar na população se perdeu. E há base real para acreditar na perda de confiança do empresário e do cidadão comum (déficit primário e inflação no teto da meta). Daí a conclusão de que só depende do Governo resgate da confiança. Um abraço.

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